CBF veta termo “Brasa” no uniforme principal da seleção
O presidente da CBF, Samir Xaud, veta o uso da palavra “Brasa” no uniforme principal da seleção brasileira e encerra uma polêmica nascida na internet. A decisão é anunciada nesta quinta-feira (26), em entrevista à ESPN Brasil, e preserva o nome oficial “Brasil” no meião amarelo. A Nike mantém o termo apenas em campanha publicitária pré-Copa.
Polêmica começa no meião e chega ao comando da CBF
A discussão sobre o apelido “Brasa” ganha corpo em menos de uma semana e expõe, mais uma vez, a sensibilidade em torno da camisa amarela. O debate explode nas redes sociais depois que a designer da Nike, Rachel Denti, detalha, em 21 de março, o conceito por trás do novo uniforme da seleção, apresentado oficialmente na mesma data. Entre as novidades, aparece a inscrição “Vai, Brasa” no meião do uniforme principal.
A reação é imediata. Perfis de torcedores no X, no Instagram e no TikTok rejeitam o termo, visto como um descolamento forçado da identidade histórica da seleção. Em poucas horas, a expressão “Brasa” vira assunto entre influenciadores, ex-jogadores e comentaristas. A crítica mais frequente aponta para um risco de transformar o uniforme em mera peça de marketing, distante do peso simbólico da camisa pentacampeã.
Samir Xaud afirma que também se surpreende com a presença do termo no uniforme de jogo. “Fui pego um pouco de surpresa, né? O que me foi apresentado quando estava, não tinha ‘Brasa’, mas nós sabíamos que tinha uma campanha publicitária que iria ser feita ali pré-Copa em relação a isso”, diz o dirigente, ao canal esportivo. Ele reforça que a fronteira entre criação de campanha e uniforme oficial precisa estar clara para a torcida.
O presidente calibra o discurso e vincula a decisão a uma ideia de respeito acumulada ao longo de décadas. “Mas de antemão, pelo respeito que eu tenho com a Seleção Brasileira, não tem ‘Brasa’ no nosso uniforme principal”, afirma. Ele cita diretamente o entendimento com a Nike: “Isso foi feito em relação à Nike para essa campanha publicitária isoladamente, mas deixo claro que o nosso uniforme é o nosso manto e é o verde e o amarelo”.
Identidade, tradição e limite do marketing
A intervenção da CBF tenta conter um desgaste num momento estratégico. A seleção estreia o novo uniforme ainda em março, em amistoso contra a França, semanas antes de entrar na reta final de preparação para a Copa do Mundo. Em um cenário de imagem fragilizada por resultados recentes, qualquer ruído em torno de símbolos nacionais ganha proporções maiores. O veto serve como resposta direta ao sentimento dominante nas arquibancadas virtuais.
O uniforme principal, amarelo, segue sem o logo da Air Jordan, ao contrário da camisa reserva, lançada também em março. A peça alternativa carrega o famoso símbolo Jumpman e marca a primeira vez que a marca aparece em um uniforme de uma seleção nacional. A novidade, que integra uma coleção de streetwear e linha de chuteiras, aproxima a seleção de um público mais jovem e de consumo global. O limite imposto ao termo “Brasa” indica que a CBF aceita avançar na parceria comercial, mas não abre mão de certos marcos da identidade tradicional.
Samir Xaud busca traduzir esse limite em linguagem direta. “Até porque isso é respeito, eu falo muito em respeito em relação ao nosso uniforme, em relação à nossa bandeira e o nosso nome é Brasil. Então, vai ter Brasil no nosso meião e não brasa”, conclui. A frase, repetida ao longo da tarde nas redes de torcedores, sintetiza o recado da entidade à fornecedora norte-americana: campanhas podem ousar, o meião oficial não.
A Nike confirma que a expressão ficará restrita à campanha publicitária pré-Copa, batizada nas redes com slogans como “Vai, Brasa” e “Alegria que Apavora”. Vinicius Júnior, Estevão, Lucas Paquetá e Richarlison são escolhidos como rostos da coleção. Paquetá e Richarlison, porém, ficam fora da convocação de Carlo Ancelotti para os amistosos de março contra França e Croácia, o que reforça o caráter comercial, e não esportivo, da ação.
Torcida se vê ouvida e uniforme ganha blindagem
A recusa ao termo no uniforme principal reforça uma percepção de que a CBF, ao menos nesse episódio, lê e reage ao humor da torcida. Em menos de cinco dias, a sequência é clara: apresentação do uniforme em 21 de março, crítica em massa ao termo no meião, repercussão nos programas esportivos e, por fim, veto anunciado em 26 de março. A cronologia ajuda a explicar por que parte dos torcedores celebra a decisão como vitória simbólica.
Na prática, nada muda na estrutura técnica do uniforme. Os modelos principal e reserva já estão divulgados, a tabela de amistosos segue intacta e o planejamento para a Copa não sofre ajuste. O que se altera é a camada de significado grudada ao tecido. Ao garantir que o nome “Brasil” permanece estampado no meião, a CBF oferece uma espécie de blindagem ao que considera o “manto” nacional, em meio a uma coleção cada vez mais orientada por tendências globais de moda esportiva.
O episódio também reforça a hierarquia entre campanha e campo. A Nike explora um vocabulário mais solto, tenta emplacar “Brasa” como apelido capaz de dialogar com redes sociais e com uma juventude acostumada a abreviações. A CBF, por sua vez, delimita o que entra no jogo e o que fica do lado de fora das quatro linhas. O resultado é um acordo em que o marketing segue vivo, mas não toca o núcleo duro dos símbolos oficiais.
O movimento tem impacto político interno. Samir Xaud, ainda em início de gestão, se apresenta ao público como guardião da tradição da seleção. Ao se alinhar a um sentimento majoritário nas redes, ele capitaliza apoio num ano em que a seleção volta a disputar uma Copa do Mundo e enfrenta pressão por desempenho. A defesa do escudo e das cores funciona, nesse contexto, como ativo de liderança.
O que fica em jogo daqui para frente
A decisão de vetar “Brasa” no uniforme principal não encerra a discussão sobre até onde o futebol brasileiro aceita a influência de marcas globais sobre seus símbolos. O caso se soma a outros debates recentes, como o uso de cores alternativas, logos de subdivisões de grandes empresas e coleções que misturam moda urbana e camisa de jogo. Cada lançamento de uniforme passa a ser também um teste de limites, tanto para a Nike quanto para a própria CBF.
A estreia contra a França, ainda em março de 2026, será o primeiro termômetro visual dessa nova etapa. O Brasil entra em campo com o uniforme amarelo tradicional, sem “Brasa” no meião, e com um elenco que carrega, fora dos gramados, a campanha “Alegria que Apavora”. As reações nas arquibancadas e nas redes indicarão se o equilíbrio encontrado agora entre marketing e tradição é duradouro ou apenas o capítulo inicial de um conflito que deve se repetir a cada nova coleção.
