CBF testa impedimento semiautomático com VAR em jogo no Maracanã
A CBF realiza, em parceria com a Genius Sports, os primeiros testes práticos do impedimento semiautomático no futebol brasileiro. A experiência ocorre no dia 12 de fevereiro de 2026, durante Fluminense x Botafogo, no Maracanã, e é anunciada oficialmente nesta sexta-feira (20). A entidade aposta na tecnologia para dar mais rapidez e transparência às decisões do VAR.
Maracanã vira laboratório de tecnologia
O Maracanã, acostumado a decisões históricas, vira laboratório de arbitragem. A terceira rodada do Campeonato Brasileiro oferece o cenário escolhido pela CBF para estrear, de forma controlada, o impedimento semiautomático integrado ao VAR. A ferramenta usa imagens calibradas para indicar, quase em tempo real, a posição dos jogadores no momento do passe, reduzindo a margem de erro humano.
Nos bastidores da partida entre Fluminense e Botafogo, a equipe de arbitragem de vídeo trabalha em paralelo com o novo sistema. As decisões de campo seguem o protocolo tradicional, mas, em segundos, a tecnologia confirma cada checagem de impedimento. A Confederação apresenta depois duas imagens como exemplo: uma marca o impedimento do lateral René; a outra mostra Lucho Acosta em condição legal, lances que geram discussão nas arquibancadas e nas redes sociais.
Transparência como trunfo para o VAR
O presidente do Grupo de Trabalho da Arbitragem da CBF, Netto Góes, insiste no argumento da transparência para justificar o investimento. “O uso da tecnologia é voltado para otimizar a decisão do árbitro em campo, oferecendo ferramentas para que ele tome a melhor decisão”, afirma. Para ele, o pacote fechado com a Genius Sports, inteiramente custeado pela CBF, precisa se refletir em menos ruído e mais confiança nas quatro linhas.
As críticas ao VAR se acumulam desde a adoção do recurso no Brasil, em 2019, com reclamações sobre demora, traçados de linha pouco claros e falta de comunicação com o torcedor. O impedimento semiautomático tenta responder a esse desgaste. As imagens geradas pelo sistema produzem uma visualização tridimensional do lance, com linhas traçadas automaticamente sobre os corpos dos atletas. Segundo a CBF, os testes no Maracanã confirmam as decisões já tomadas em campo, sem necessidade de revisão ou correção.
Netto Góes reforça que a mudança não pretende substituir a arbitragem, mas cercá-la de dados. “Isto realmente vai tornar muito mais transparente o jogo, expondo para o torcedor, para o dirigente, as decisões com bastante clareza por meio de imagens”, diz. A mensagem mira diretamente técnicos, jogadores e dirigentes que enxergam no VAR uma caixa-preta, muitas vezes associada a interferências externas e favorecimentos.
Impacto nas competições e na relação com o torcedor
A CBF testa o sistema em um jogo de alta visibilidade, com transmissão nacional e arquibancadas cheias, justamente para medir reação de clubes, imprensa e público. O Campeonato Brasileiro, que coloca em disputa milhões em premiação e vagas na Libertadores e na Sul-Americana, depende cada vez mais de decisões rápidas e confiáveis. Um impedimento milimétrico pode definir queda para a Série B, classificação para a fase de grupos da Libertadores ou um título nacional.
Ao integrar o impedimento semiautomático ao VAR, a entidade tenta encurtar o tempo de revisão de lances e diminuir o risco de interpretações distintas em jogos diferentes. Em torneios como a Champions League e a Copa do Mundo, a tecnologia se firma como padrão nos últimos anos, com uso intensivo de sensores e câmeras de alta definição. No Brasil, o movimento chega em um ambiente pressionado por dirigentes e por torcedores que veem a arbitragem como ponto frágil do espetáculo.
A adoção do sistema também mexe com o comportamento em campo. Defesas acostumadas a levantar a mão pedindo impedimento agora lidam com menos espaço para dúvida. Atacantes recebem a promessa de que um gol anulado terá explicação visual imediata, projetada na transmissão e, no futuro, nos telões dos estádios. A sensação de injustiça, combustível para queixas semanais, tende a perder força se a tecnologia entregar o que promete.
Próximos testes e disputa por confiança
A CBF trata o jogo entre Fluminense e Botafogo como um primeiro passo de uma implementação gradual. A ideia é ampliar os testes ao longo da temporada, em estádios que recebem partidas da Série A e da Copa do Brasil, para calibrar o sistema em diferentes condições de iluminação, gramado e posicionamento de câmeras. A expectativa interna é ter a tecnologia pronta para uso regular em fases decisivas de competições nacionais a partir do segundo semestre de 2026.
O avanço não elimina resistências. Clubes querem detalhes do contrato com a Genius Sports, árbitros pedem treinamento contínuo e torcedores cobram que a promessa de transparência se traduza em comunicação clara, com áudio e vídeo liberados com rapidez. A arbitragem brasileira vive um momento de transição, pressionada por comparações com ligas como a Premier League e a La Liga, que combinam alto investimento em tecnologia com cobrança pública intensa.
Se os próximos testes confirmarem o desempenho visto no Maracanã, o impedimento semiautomático tem chance de se tornar parte do cenário fixo dos grandes jogos no país. A tecnologia entra em campo para diminuir polêmicas, mas só conquista espaço definitivo se conseguir algo mais raro que uma linha perfeita de impedimento: a confiança de quem assiste, paga ingresso, aposta e comenta cada lance do futebol brasileiro.
