CBF limita preço de ingresso para torcida visitante e endurece regras
A CBF divulga nesta terça-feira (27) o novo Manual de Competições e impõe um teto para o valor do ingresso de torcida visitante em todo o país. O documento também cria regras mais rígidas de estrutura, segurança e monitoramento nos estádios, alinhando o futebol brasileiro aos padrões de Fifa e Conmebol.
CBF mira ingressos abusivos e condições precárias
A partir da temporada de 2026, clubes que disputam torneios organizados pela CBF não podem mais cobrar qualquer valor da torcida rival. O manual determina que o ingresso para o visitante custe, no máximo, o dobro do bilhete mais barato destinado ao mandante no setor equivalente, desconsiderando a meia-entrada. A mudança atinge campeonatos nacionais e copas sob gestão da entidade e pretende encerrar a prática de preços proibitivos para afastar torcedores de fora.
O texto substitui o antigo Regulamento Geral de Competições e, segundo a confederação, resulta de sugestões de clubes e federações estaduais. No documento, a CBF reconhece que a regra anterior, inspirada no Estatuto do Torcedor já revogado, abria brecha para distorções. A obrigação de cobrar valor “semelhante” ao setor equivalente virava, na prática, manobra para isolar visitantes em áreas caras ou pouco adequadas. Ao fixar um teto claro, a confederação tenta reduzir disputas de interpretação e pressões de bastidor de cada partida.
O manual também garante ao clube visitante o direito de comprar antecipadamente até 50% da carga de ingressos do seu setor. A CBF argumenta que esse mecanismo estimula programas de sócio-torcedor e dá previsibilidade a quem viaja para acompanhar o time. O regulamento, porém, veta revenda desses bilhetes pelo visitante por valor superior ao pago ao mandante, numa tentativa de frear a ação de intermediários e a transformação da arquibancada em mercado paralelo.
Ao mesmo tempo, a entidade impõe padrões mínimos de estrutura para quem torce longe de casa. O texto determina que a torcida visitante ocupe um setor com “condições adequadas de visibilidade do campo de jogo”, sem obstrução excessiva. A instalação de estruturas fixas ou temporárias, como grades, telas ou suportes de TV, não pode comprometer de forma relevante a visão da partida. A orientação mira situações recorrentes em que cruzeirenses e atleticanos, por exemplo, relatam visão parcial do gramado em clássicos como mandantes e visitantes no Mineirão e em outros estádios do país.
Estrutura, segurança e combate à discriminação ganham peso
O novo manual vai além da arquibancada. A CBF estabelece condições estruturais mínimas para vestiários, tomando como referência o Manual de Clubes da Conmebol. A medida vale tanto para equipes mandantes quanto visitantes e busca reduzir a distância entre a realidade brasileira e o padrão exigido em competições continentais. O texto também detalha exigências para o trabalho da imprensa, de detentores de direitos de transmissão e da arbitragem, além de regras para recepção da delegação visitante.
O regulamento reforça o protocolo antirracismo, adaptado às novas disposições do Código Disciplinar da Fifa. A reprodução das normas passa a ser obrigatória para todas as federações filiadas. A CBF quer evitar respostas casuísticas a episódios de discriminação e criar um roteiro fixo de ações, que inclui paralisação de jogo, comunicação formal ao árbitro e possibilidade de sanções esportivas e administrativas. A mensagem é de endurecimento, num contexto de casos recorrentes no futebol brasileiro.
O documento toca em outro ponto sensível do mercado: a multipropriedade de clubes. Inspirada na Uefa, a CBF formaliza regra que impede que um mesmo grupo de controle participe de competições com mais de um time. A confederação argumenta que a medida preserva a integridade esportiva e evita conflitos de interesse em campeonatos que envolvem acesso, rebaixamento e vagas internacionais.
O manual ainda flexibiliza o acesso de treinadores e atletas suspensos ao estádio. Eles ficam proibidos apenas de entrar em áreas de competição e campo de jogo, alinhando o Brasil a práticas já adotadas pela Fifa e pela Conmebol. Na prática, técnicos punidos podem acompanhar a delegação, circular em zonas mistas e participar de reuniões internas, desde que não comandem a equipe à beira do gramado.
Entre as mudanças estruturais, a CBF endurece a cobrança pela qualidade do gramado, natural ou sintético. O texto prevê inspeções, relatórios e advertências em caso de mau estado do campo e admite a retirada de partidas de determinado estádio em jogos eliminatórios. Em caso de reincidência, o clube passa a correr risco de sanções administrativas e de perder o mando. As exigências para grama sintética também aumentam, com possibilidade de transferência de local de jogo e punições semelhantes.
O manual inclui ainda incentivo formal a competições femininas. Clubes que desistem de disputar torneios femininos para os quais já estão classificados, antes da publicação do regulamento específico, podem sofrer sanções administrativas ou perder o custeio de despesas de arbitragem, logística, hospedagem, alimentação e cotas em outras competições. A CBF tenta, assim, inibir abandonos de projetos iniciados apenas para cumprir tabela e forçar planejamento de longo prazo.
Torcida visitante fortalecida e estádios mais vigiados
O impacto imediato recai sobre o bolso e a experiência de quem viaja. Ao limitar o ingresso visitante ao dobro do bilhete mais barato do mandante, a CBF tenta impedir casos em que o torcedor paga três, quatro vezes mais para ver o jogo do mesmo setor. A regra tende a baratear clássicos interestaduais e jogos decisivos, tradicionalmente usados pelos clubes para testar o limite financeiro do torcedor rival. A compra antecipada de 50% da carga dá aos visitantes a chance de organizar caravanas e pacotes com mais antecedência.
A confederação proíbe ainda acordos entre clubes para realização de partidas com torcida única. A prática, comum em clássicos estaduais sob justificativa de segurança, passa a contrariar o regulamento das competições nacionais da casa. A decisão pressiona federações e forças de segurança a encontrar alternativas de gestão de risco que não passem pelo esvaziamento de metade das arquibancadas.
A segurança também entra na pauta com a inclusão, no texto, da Lei Geral do Esporte, que exige sistema de monitoramento e biometria em estádios com mais de 20 mil lugares até junho de 2025. O manual incentiva que os clubes compartilhem dados desses sistemas com órgãos de segurança pública, para identificar torcedores, prevenir brigas e cumprir mandados de prisão em aberto. A CBF tenta vincular o avanço tecnológico da catraca à repressão a crimes e ao mapeamento de grupos violentos.
O documento define ainda quantidade fixa de 100 ingressos para patrocinadores das competições da CBF e detalha prazos e condições para pedidos de cortesias pela própria entidade. A intenção é reduzir conflitos com clubes na véspera de jogos de grande apelo, quando cada lugar na arquibancada vira ativo disputado em conselhos e diretorias.
No desenho do calendário, a confederação diminui de quatro para três o número mínimo de equipes da primeira divisão estadual necessário para reconhecer torneios seletivos de federações. A mudança busca ampliar o fomento local e multiplicar portas de entrada para competições nacionais, num cenário de aumento de vagas e dificuldade em atrair interessados para seletivos longos e caros.
O Manual de Competições entra em vigor já nas próximas temporadas e deverá ser testado em estádios cheios, sob o olhar de torcidas organizadas, dirigentes e órgãos de segurança. Clubes terão de adaptar rotinas de venda de ingressos, operações de estádio e políticas de preço a um conjunto de regras mais rígido e detalhado. A eficácia das novas normas, especialmente no controle do valor cobrado ao visitante e na melhoria da segurança, dependerá da capacidade de fiscalização da CBF e da disposição dos clubes em tratar o torcedor de fora não como inimigo, mas como parte do espetáculo.
