Esportes

CBF libera aporte sem dívida e endurece regras para clubes-empresa

A CBF passa a permitir aportes milionários em clubes de futebol sem geração de novas dívidas e reforça o controle sobre negócios entre times do mesmo grupo. O presidente da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF), Caio Resende, detalha as novas regras de fair play financeiro em entrevista ao podcast “Toca e Passa”, de O Globo, nesta 12ª feira, 12 de abril de 2026.

Regras para proteger o clube, não o investidor

O novo regulamento de sustentabilidade financeira entra em cena em um momento em que o futebol brasileiro vive explosão de Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) e chegada de investidores estrangeiros. O caso Botafogo, controlado por John Textor e inserido em uma rede multiclubes com Lyon, Crystal Palace e RWD Molenbeek, vira referência prática para o debate. Resende deixa claro que o alvo das normas não é limitar o dinheiro novo, mas a forma como ele entra e aparece no balanço.

“O regulamento de sustentabilidade do fair play financeiro é um grande instrumento de proteção dos clubes brasileiros”, afirma. Na visão da ANRESF, o clube deixa de ser apenas um negócio privado e passa a ser tratado como ativo social, com peso cultural e econômico. “O clube de futebol é um ativo da sociedade brasileira”, diz. Ao assumir esse conceito, a CBF se coloca, nas palavras do dirigente, como guardiã de patrimônio coletivo que envolve bairros, cidades, estados e até a imagem do país.

A principal trava recai sobre a estratégia de crescimento baseada em endividamento acelerado. Resende descreve o comportamento que passa a ser vetado: um investidor compra um clube, assume a gestão e tenta inflar o orçamento com empréstimos sucessivos, assumidos em nome da instituição. “Não vai. Isso é proibido pelo nosso regulamento”, reforça. Presidentes de associações tradicionais e controladores de SAFs ficam sujeitos ao mesmo limite: não podem buscar salto esportivo rápido empurrando a conta para o futuro.

Em lugar disso, o regulamento abre a porta para injeções diretas de capital, desde que o dinheiro se converta em aumento do patrimônio líquido, conceito contábil que, traduzido, significa reforço real na estrutura do clube. O investidor coloca recursos sem direito de cobrar depois como credor. “A gente não tem qualquer restrição ao aporte de capital no clube de futebol desde que esse aporte venha na forma que a gente chama de aumento do patrimônio líquido”, explica Resende. O que fica vedado é o atalho comum no passado recente brasileiro: o dono empresta em nome da pessoa física, registra como dívida e mantém o clube refém do seu humor e do seu caixa.

Multiclubes sob vigilância e fim da contabilidade de fachada

O avanço das estruturas multiclubes obriga a ANRESF a mirar transações internas, que até aqui trafegam em zona cinzenta. O Botafogo é um dos exemplos de time que se vale da rede de Textor para circulação de atletas e acordos de cooperação. Com o novo fair play, a CBF passa a olhar para dentro desses conglomerados e a exigir critérios objetivos de avaliação em cada negócio entre clubes irmãos.

Resende cita diretamente casos internacionais em que o sistema foi burlado. Dirigentes, diante da ameaça de prejuízo e risco de punição em determinada liga, socorrem o clube vendendo um jogador da base por valores artificialmente altos para outro time da mesma holding. Faixas de 80, 90 ou 100 milhões de euros aparecem como se fossem fruto de mercado, quando funcionam apenas como engenharia contábil para gerar lucro de papel. “Eu não posso chutar um valor”, resume o presidente da ANRESF, ao destacar que o regulamento brasileiro define parâmetros para o preço a ser registrado nessas operações.

O foco está menos em para onde o dinheiro efetivamente vai e mais em como a transação entra nos indicadores de sustentabilidade. A nova regra determina que essas vendas internas sigam fórmulas padronizadas de registro, descritas no anexo específico do regulamento. “Essa venda, para fins de indicadores do regulamento de sustentabilidade, tem que ser registrada de forma X, Y, Z para evitar qualquer tipo de manipulação”, afirma. O objetivo declarado é bloquear o uso criativo dos balanços como escudo para maquiar déficits e escapar de punições.

O dirigente aponta um problema que se repete nos últimos anos: grupos internacionais transferem ativos e receitas para países com fiscalização rígida e deixam o clube brasileiro como ponta fraca da cadeia. Enquanto times europeus cumprem metas de rentabilidade, a equipe no Brasil acumula prejuízos sem reação institucional. “O clube brasileiro, às vezes, fica com um grande déficit no balanço, porque antes não tinha ninguém olhando”, admite. A partir de agora, o cenário muda. A CBF, por meio da ANRESF, passa a impor teto para prejuízos recorrentes e a barrar a drenagem de valor para fora do país sem contrapartida esportiva ou financeira clara.

O efeito esperado vai além de Botafogo, Vasco, Cruzeiro, Bahia e outros projetos já sob controle de investidores. Clubes associativos ainda em processo de transição, como Santos e Fluminense, precisam calibrar planos de SAF sabendo que a era do cheque em branco com dívida escondida fica para trás. Patrocinadores e bancos também ganham novo referencial de risco, com maior previsibilidade sobre a capacidade dos times de honrar contratos.

Pressão por transparência e disputa por poder regulatório

O pacote de regras fortalece o poder da CBF e da ANRESF no tabuleiro político do futebol brasileiro. A entidade passa a ter base regulatória para intervir em casos de descontrole financeiro antes que a crise exploda em salários atrasados, perda de ativos e rebaixamentos em campo. A expectativa é reduzir episódios de falência branca que marcam a história recente de clubes como Portuguesa, Figueirense e Cruzeiro pré-SAF.

Na prática, o novo fair play financeiro cria ambiente mais previsível para quem coloca dinheiro no esporte. Investidores sabem que não poderão usar o próprio clube como veículo de endividamento ilimitado, mas ganham a segurança de que concorrentes também não vão se aproveitar de atalhos arriscados. Torcedores, por sua vez, tendem a cobrar não só contratações, mas também equilíbrio entre folha salarial, receitas de bilheteria, TV, patrocínios e venda de jogadores ao longo das próximas temporadas.

A regulação nasce alinhada a modelos já testados em ligas europeias, como o antigo Financial Fair Play da Uefa e o atual sistema de controle de gastos vinculado ao faturamento. A diferença, no caso brasileiro, está na tentativa de conciliar entrada pesada de capital privado com preservação da camisa como bem cultural. “A CBF se colocou no papel de preservação desses ativos”, resume Resende, ao defender que o regulamento olha para o médio e o longo prazo, não apenas para a próxima janela de transferências.

O desafio agora é fazer as normas saírem do papel. A ANRESF promete monitorar balanços, contratos e fluxos entre clubes de um mesmo grupo já a partir da temporada 2026, com punições graduais em caso de infrações. Multas, restrições a registros de atletas e até perda de pontos entram no cardápio possível, embora a CBF ainda não divulgue escala detalhada de sanções. O sucesso do modelo vai depender da capacidade de fiscalização, da qualidade das auditorias independentes e da disposição dos clubes em abrir números e contratos.

Em meio à corrida por investidores e títulos, o fair play financeiro brasileiro começa a testar seus limites. Os próximos anos vão mostrar se o novo regulamento consegue segurar a velha tentação de empurrar dívidas para o futuro sem frear a ambição esportiva de um país que se acostuma a vender, cada vez mais cedo, seus principais talentos para o exterior.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *