Carney reage a provocação de Trump e reafirma soberania do Canadá
O premier canadense Mark Carney reage, nesta sexta-feira (23), a uma provocação de Donald Trump e rebate, em Davos, a ideia de que o Canadá só existe por causa dos Estados Unidos. Diante de uma plateia lotada no Fórum Econômico Mundial, na Suíça, ele afirma que o país é um ator autônomo na geopolítica e arranca aplausos imediatos. A resposta amplia o desgaste nas já tensas relações entre Ottawa e Washington.
Resposta em Davos expõe atrito bilateral
Carney fala poucas horas depois de Trump questionar, em tom de deboche, se o Canadá existiria sem a proteção e o mercado americano. No painel, o premier não cita o ex-presidente pelo nome, mas mira diretamente a provocação. “A ideia de que o Canadá não existe por causa dos Estados Unidos é simplesmente equivocada”, afirma. A frase, dita por volta das 11h locais em Davos, provoca uma salva de palmas que interrompe o debate por alguns segundos.
O Fórum Econômico Mundial, que reúne neste ano cerca de 3 mil líderes políticos e empresariais, vira mais uma vez palco de disputa narrativa entre aliados históricos. Carney lembra que o Canadá é hoje a nona maior economia do planeta, com PIB próximo de US$ 2 trilhões, participa do G7 desde 1976 e é membro fundador da Otan. “Temos história própria, instituições sólidas e responsabilidades globais que não dependem da boa vontade de ninguém”, diz, olhando para a primeira fila ocupada por chefes de governo europeus.
A reação direta em um ambiente acompanhado ao vivo por TVs e plataformas digitais amplia o alcance do recado. Em menos de uma hora, trechos da fala circulam em vídeos curtos no X, no TikTok e no Instagram, somando centenas de milhares de visualizações. Assessores canadenses exploram o momento como prova de firmeza de Carney diante de Trump, ainda figura central no cenário político americano e provável candidato em 2028.
Soberania em disputa e recado ao eleitorado interno
A fala de Trump, feita na véspera em uma conversa com empresários americanos, ecoa um discurso recorrente do republicano, que costuma retratar aliados como “dependentes” da máquina militar e econômica dos Estados Unidos. Em 2018, ele já havia descrito o Canadá como “muito esperto, mas muito injusto” na negociação de tarifas sobre aço e alumínio. Em 2020, ameaçou retirar o país de acordos de defesa conjunta caso Ottawa não elevasse gastos militares a 2% do PIB.
Carney aproveita o palco de Davos para virar o argumento contra Trump. Lembra que os dois países mantêm a maior fronteira desmilitarizada do mundo, com 8.891 quilômetros, e um fluxo comercial superior a US$ 2 bilhões por dia. Destaca ainda que mais de 75% das exportações canadenses seguem para o mercado americano, mas insiste que interdependência não significa subordinação. “Soberania não se mede pelo CEP do seu maior parceiro comercial, e sim pela capacidade de decidir o próprio destino”, afirma.
Analistas ouvidos à margem do evento veem na reação de Carney também uma mensagem para o público doméstico. O premier, que assume o cargo em meio a uma economia em desaceleração e ao avanço de populistas conservadores em províncias-chave como Alberta e Ontário, busca se firmar como contraponto liberal ao trumpismo. Sua disposição em enfrentar diretamente o ex-presidente americano, em um ambiente global, reforça essa estratégia de diferenciação.
Especialistas em relações internacionais lembram que a tensão não nasce em Davos. Nos últimos cinco anos, divergências sobre política climática, migração e defesa do Ártico se acumulam. Em 2023, o Canadá anuncia um plano de investimentos de cerca de US$ 40 bilhões em infraestrutura militar no Norte, desenhado em coordenação com a Otan, mas alvo de críticas de Trump, que acusa o país de “se esconder atrás do guarda-chuva americano”. A resposta de Carney resgata esse histórico e o transforma em linha divisória entre projetos de mundo distintos.
Repercussão global e efeitos práticos
A troca de farpas rapidamente entra na agenda de governos e mercados. Em Washington, assessores próximos a Trump tratam a fala de Carney como “ingratidão” de um país que, segundo eles, deve aos Estados Unidos a própria segurança. Parlamentares democratas, por outro lado, elogiam a defesa pública da soberania canadense e a descrevem como reação “proporcional” às provocações do ex-presidente. A Casa Branca evita comentários diretos, numa tentativa de não transformar o episódio em crise diplomática formal.
No Canadá, partidos de oposição dividem a leitura. Conservadores acusam Carney de usar Davos para ganho político interno e temem retaliações comerciais de um futuro governo Trump. Liberais e verdes enxergam na resposta um gesto necessário, num momento em que o país busca ampliar acordos com a União Europeia e países do Indo-Pacífico para reduzir a dependência do mercado americano em setores como energia, tecnologia e minerais críticos.
Empresários canadenses ligados à indústria automotiva e ao setor de energia acompanham o desenrolar do caso com cautela. Desde a renegociação do acordo de livre-comércio da América do Norte, em 2020, qualquer sinal de instabilidade política entre os dois países mexe com investimentos. Um estudo divulgado por um think tank de Ottawa estima que uma escalada tarifária poderia cortar até 1% do PIB canadense em três anos e afetar diretamente mais de 200 mil empregos de exportação.
A reação internacional também atravessa a opinião pública. Pesquisas recentes mostram que mais de 60% dos canadenses veem Trump como ameaça à estabilidade global, enquanto apenas 25% o consideram um parceiro confiável. A fala de Carney, amplificada por veículos europeus e asiáticos, reforça a imagem do Canadá como país disposto a proteger sua margem de manobra em temas como transição energética, regulação de tecnologia e acolhimento de refugiados.
Próximos movimentos e risco de escalada
Diplomatas em Davos avaliam que os próximos dias serão decisivos para medir o tamanho real do atrito. O governo canadense prepara uma nota oficial detalhando a posição de Carney e reiterando compromisso com a parceria estratégica com os Estados Unidos, responsável por mais de 70 anos de cooperação militar, comercial e científica. A expectativa é que o texto saia ainda neste fim de semana, antes do encerramento do Fórum, em 26 de janeiro.
Trump, que segue em campanha permanente, deve explorar o episódio em comícios e entrevistas nas próximas semanas, sobretudo em estados industriais como Ohio, Michigan e Pensilvânia, onde a retórica contra acordos de livre-comércio encontra eco. Assessores de Carney, por sua vez, planejam encontros com investidores europeus e asiáticos para sublinhar a mensagem de que o Canadá não é apenas apêndice do mercado americano, mas porta de entrada para cadeias de produção mais diversificadas.
O embate simbólico em Davos não encerra a história. A relação entre os dois países segue guiada por números que resistem a discursos: fronteira compartilhada, acordos de defesa, integração produtiva e milhões de famílias com laços nos dois lados. A pergunta que se impõe, a partir da reação de Carney, é até que ponto o Canadá está disposto a transformar a defesa da própria soberania em eixo permanente de sua política externa, mesmo quando isso significa contrariar, em público, o aliado mais poderoso do continente.
