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Carney reage a provocação de Trump e reafirma peso do Canadá em Davos

Mark Carney responde em Davos, em janeiro de 2026, à provocação de Donald Trump sobre a existência do Canadá e transforma a ironia em manifesto de independência política. Diante de líderes de mais de 100 países, o premier canadense usa o palco do Fórum Econômico Mundial para reposicionar o país no centro do debate geopolítico.

Uma frase em Davos, um recado para Washington

A plateia ainda se acomoda no auditório principal de Davos quando Carney decide abordar, logo nos primeiros minutos, a frase que circula há dias nas redes. “Para alguns, o Canadá é quase uma nota de rodapé da história norte-americana. Para nós, e para o mundo, é um país inteiro, com voz própria”, afirma, em referência direta à provocação de Trump sobre se o Canadá “ainda conta” na política global.

A fala vem após semanas de tensão verbal. Em dezembro, durante um comício no Meio-Oeste americano, Trump questiona, em tom de deboche, a relevância do vizinho do Norte e minimiza o peso econômico do país, que responde por cerca de 2% do PIB global, segundo dados de 2025 do FMI. A frase viraliza, gera críticas em Ottawa e pressiona o novo governo canadense a reagir. Em Davos, Carney escolhe fazer isso sob os holofotes da elite política e financeira mundial.

O premier não cita Trump pelo nome, mas não deixa dúvidas sobre o alvo. “Ninguém precisa de autorização para existir como nação soberana. Muito menos de um ex-presidente estrangeiro”, diz, arrancando aplausos que se estendem por quase 20 segundos. Em seguida, emenda números: lembra que o Canadá é o nono maior PIB do planeta, com uma economia de aproximadamente US$ 2,3 trilhões, e o terceiro maior território do mundo, com fronteiras que se estendem por mais de 8,8 mil quilômetros com os Estados Unidos.

Carney também acena ao público doméstico. “Construí minha carreira no sistema financeiro internacional, mas meu compromisso é com 40 milhões de canadenses que querem respeito, segurança e prosperidade”, declara, em referência à população estimada do país em 2026. O discurso, transmitido ao vivo por canais públicos e plataformas de streaming, atinge milhões de espectadores na América do Norte em menos de uma hora.

Independência política, comércio e a disputa pelo protagonismo

O recado em Davos vai além da troca de farpas. Carney usa a provocação para demarcar distância da Casa Branca e reforçar a ideia de um Canadá menos dependente de Washington, num momento em que o comércio norte-americano passa por revisão. Mais de 70% das exportações canadenses ainda seguem para os Estados Unidos, segundo dados oficiais de 2024. Em Davos, o premier promete reduzir essa dependência em dez pontos percentuais até 2030, por meio de novos acordos com a União Europeia e países da Ásia.

Ao falar para uma plateia que acompanha de perto as incertezas eleitorais nos Estados Unidos, Carney apresenta o Canadá como parceiro previsível. “Enquanto alguns países flertam com o isolamento e o confronto, o Canadá escolhe cooperação, regras claras e estabilidade de longo prazo”, afirma. O comentário é lido por analistas presentes como uma crítica direta ao estilo de Trump, que, entre 2017 e 2021, ameaça por diversas vezes rever o acordo comercial norte-americano e chega a impor tarifas sobre aço e alumínio canadenses.

Especialistas veem no gesto um movimento calculado. Ao reforçar a imagem de um Canadá autônomo, Carney tenta reposicionar o país em mesas de negociação globais sobre clima, energia e tecnologia. Em 2025, o Canadá compromete-se a reduzir em 45% suas emissões de gases de efeito estufa até 2030, tomando 2005 como base. Em Davos, o premier reafirma a meta e sugere que a transição energética pode se tornar “o novo petróleo” da economia canadense, com investimentos públicos e privados que, segundo ele, podem superar US$ 150 bilhões na próxima década.

No campo militar e de segurança, a mensagem também pesa. O Canadá destina cerca de 1,4% do PIB para defesa, abaixo da meta de 2% da Otan, mas aumenta esse percentual gradualmente desde 2022. Carney sinaliza disposição para discutir novas responsabilidades na aliança, desde que o país fortaleça sua autonomia estratégica. “Quem duvida da nossa capacidade de defender nossos interesses ainda não entendeu a nova realidade da América do Norte”, diz, em tom firme.

A reação de Washington é contida nas primeiras horas. Assessores próximos a Trump, hoje uma das principais vozes da oposição republicana, ironizam o discurso nas redes sociais, acusam Carney de “ingratidão” e lembram que os Estados Unidos seguem como principal destino dos investimentos canadenses. Em Ottawa, a fala do premier é recebida como gesto de afirmação. Parlamentares governistas destacam a necessidade de “recalibrar” a relação com o vizinho, enquanto membros da oposição pedem cautela para não transformar um embate retórico em crise diplomática duradoura.

O que pode mudar na relação Canadá–EUA

No curto prazo, o impacto mais visível é simbólico. A frase de Carney circula em manchetes de grandes jornais europeus e asiáticos, reforçando a imagem do Canadá como país maduro, disposto a confrontar narrativas que o colocam como coadjuvante. O governo vê nessa exposição uma oportunidade para acelerar negociações comerciais em curso com pelo menos cinco países da Ásia-Pacífico e com blocos como a União Europeia, que já responde por quase 10% do comércio exterior canadense.

A médio prazo, diplomatas esperam ajustes concretos. Negociações sobre energia, mineração crítica e tecnologia 5G tendem a ganhar nova camada de sensibilidade, já que o Canadá é fornecedor estratégico de minerais usados em baterias e semicondutores. Ao declarar que o país não aceitará mais “tratamentos preferenciais condicionados à obediência política”, Carney envia um aviso a Washington e também a Pequim, ambas interessadas nas reservas canadenses de lítio, níquel e cobalto.

Internamente, o discurso alimenta o sentimento nacionalista. Pesquisas iniciais, divulgadas por institutos locais nas 48 horas seguintes, indicam aumento de até 8 pontos percentuais na aprovação pessoal do premier entre eleitores que valorizam uma postura mais firme diante dos Estados Unidos. O movimento, porém, traz riscos. Setores exportadores temem retaliações comerciais americanas, sobretudo na área de produtos agrícolas e automotivos, que movimentam dezenas de bilhões de dólares por ano na fronteira.

Analistas lembram que embates retóricos entre líderes dos dois países não são novidade. Em 2018, Justin Trudeau e o então presidente Trump trocam acusações públicas após uma cúpula do G7 no Canadá, em disputa sobre tarifas e comércio. A diferença, agora, está no contexto: o avanço de políticas protecionistas, a guerra comercial entre grandes potências e a transição energética elevam o custo de qualquer ruído diplomático na América do Norte.

Próximos capítulos na disputa por voz própria

O discurso em Davos não encerra o assunto. Carney indica que pretende levar a mesma mensagem a encontros bilaterais previstos para fevereiro, em Ottawa e Bruxelas, e a uma possível visita a Washington ainda no primeiro semestre de 2026. A equipe do premier trabalha em uma agenda que combina anúncios de novos investimentos em tecnologia limpa com propostas de cooperação em segurança de fronteira, numa tentativa de mostrar que autonomia política não significa ruptura.

No Fórum Econômico Mundial, assessores de líderes europeus e asiáticos comentam, nos bastidores, que a fala do canadense ecoa um sentimento mais amplo de países médios que buscam ampliar espaço entre grandes potências. O Canadá se oferece como laboratório dessa estratégia, mas ainda precisa demonstrar, na prática, que consegue diversificar parcerias sem perder acesso privilegiado ao mercado americano. As próximas rodadas de negociação comercial e a reação de Trump, caso volte ao poder ou mantenha influência decisiva no Partido Republicano, dirão se a resposta de Davos é ponto de virada ou apenas um momento de afirmação retórica em meio à disputa por atenção global.

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