Carlos Bolsonaro se junta a Nikolas em marcha de 240 km a Brasília
Carlos Bolsonaro se junta nesta terça-feira (20/1) à caminhada de cerca de 240 km liderada por Nikolas Ferreira entre Paracatu (MG) e Brasília. O ato, previsto para durar sete dias, reforça a estratégia bolsonarista de usar as ruas para contestar o governo Lula, o Supremo Tribunal Federal e as prisões ligadas aos atos de 8 de janeiro de 2023.
Marcha vira vitrine da reação bolsonarista
A chegada de Carlos ao grupo ocorre no quarto dia de mobilização e é registrada em vídeo publicado por Nikolas Ferreira nas redes sociais, por volta das 9h30, logo após a passagem pela divisa entre Minas Gerais e Goiás. Os dois se abraçam no acostamento da BR-040, enquanto apoiadores filmam com celulares erguidos. Nikolas resume o gesto em uma frase curta, dirigida ao ex-vereador: “Pelo seu pai (Jair Bolsonaro), pelos presos do dia 8, por esse país. Apruma esse pé que tem muito quilômetro ainda”.
A cena marca a principal imagem política da caminhada até agora. Nikolas, deputado federal de 28 anos, surge como protagonista de um movimento que busca reativar a base bolsonarista após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Carlos, filho mais próximo politicamente do ex-chefe do Planalto, empresta peso simbólico à iniciativa e reforça a leitura de que o clã aposta de novo no ativismo de rua como instrumento de pressão.
A marcha começa na segunda-feira (19/1), quando Nikolas decide não voltar para casa depois de uma agenda em Minas Gerais. Em vídeo gravado ainda em Paracatu, ele diz se sentir “inquieto” com o cenário político e anuncia a “caminhada até Brasília” como forma de protesto. “Escândalo atrás de escândalo. O brasileiro tem ficado em uma posição, quase uma manipulação psicológica, onde nada abala mais a gente”, afirma, em tom de desabafo dirigido ao público que o acompanha on-line.
O trajeto previsto é de aproximadamente 240 km pela BR-040, com chegada estimada a Brasília no domingo, após sete dias de andança. A cada parada em postos de gasolina, vilas e trevos, o deputado grava vídeos, reza com apoiadores, repete críticas ao STF e ao governo Lula e volta a falar em “prisões injustas” de manifestantes dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. O roteiro combina estrada, oração, discursos curtos e transmissões ao vivo.
Disputa de narrativas em torno de 8 de janeiro
O alvo central do protesto é o que Nikolas chama de “sentimento de impotência” diante da atual conjuntura. Em seus discursos, ele cita a situação do ex-presidente Jair Bolsonaro, preso por determinação do Supremo Tribunal Federal, e afirma que decisões da Corte e do governo refletem um “abuso de poder”. “Esse sentimento de impotência não é só de vocês. É um sentimento nosso também”, diz, ao mencionar deputados e senadores que, segundo ele, compartilham a mesma leitura do momento político.
As falas sobre “prisões injustas” tocam no ponto mais sensível da narrativa bolsonarista desde os ataques de 8 de janeiro de 2023, quando prédios dos Três Poderes em Brasília são depredados por manifestantes golpistas. Para a base de apoio do ex-presidente, parte dos detidos seria vítima de perseguição política. Para o STF e órgãos de investigação, os processos resultam de envolvimento direto, financiamento ou apoio logístico a atos que buscaram derrubar o resultado das urnas de 2022.
Ao retomar o tema em uma marcha de sete dias, o grupo aposta na memória recente de outra onda de protestos de rua. Nikolas cita diretamente as manifestações que antecedem o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e diz não subestimar o “poder da rua”. A comparação mira um público que vê nas grandes passeatas daquele período um exemplo de pressão popular bem-sucedida sobre o sistema político.
Flávio Bolsonaro, senador e também filho do ex-presidente, apoia o ato à distância. Em vídeo no Instagram, ele explica que não participa da caminhada por causa de condições climáticas adversas e de uma viagem já marcada a Israel, mas endossa a mobilização. “A gente tem que fazer nossa parte. O que não está no nosso controle deixa Deus agir”, afirma, enquanto reforça que acompanha o trajeto de Nikolas e do irmão pelas redes sociais.
A dimensão digital da marcha é parte essencial da estratégia. Cada trecho percorrido vira conteúdo: treinos de corrida, bolhas de conversa em aplicativos de mensagem, lives diárias, trechos da BR-040 sob sol forte. O ato físico, de andar centenas de quilômetros, se converte em narrativa contínua que alimenta perfis no Instagram, no X e em grupos bolsonaristas no WhatsApp e no Telegram.
Impacto político e próximos passos em Brasília
A caminhada ocorre em um momento de forte tensão entre o bolsonarismo e o Supremo. A prisão do ex-presidente, as condenações de envolvidos no 8 de janeiro e as críticas da base governista ao discurso radical da direita ampliam a sensação de confronto institucional. A marcha, nesse contexto, funciona como termômetro da capacidade de mobilização do grupo, quase dois anos após o fim do mandato de Bolsonaro e três anos após os ataques às sedes dos Três Poderes.
Os organizadores esperam chegar a Brasília no domingo e encontrar apoiadores em frente ao Congresso e à Esplanada dos Ministérios. A Polícia Legislativa e as forças de segurança locais acompanham à distância o crescimento das convocações on-line, enquanto partidos de oposição monitoram o tamanho real da adesão nas ruas. A presença de figuras nacionais, como Carlos e Nikolas, tende a atrair também políticos em busca de visibilidade e de aproximação com a base bolsonarista.
Adversários veem na marcha um esforço calculado para manter acesa a chama da polarização, mesmo em um ano sem eleições gerais. Integrantes do governo Lula avaliam, reservadamente, que o movimento pode oferecer palanque antecipado para disputas municipais e federais, caso o grupo consiga manter o ritmo de mobilização. Ministros do STF, por sua vez, repetem em entrevistas recentes que críticas são legítimas, mas que decisões da Corte não se submetem à pressão das ruas.
O efeito prático da caminhada só fica claro nas próximas semanas, quando o Congresso retoma o ritmo após o recesso e volta a discutir pautas sensíveis para governo e oposição. A forma como parlamentares reagem ao gesto de Nikolas e Carlos, seja aderindo ao discurso de “prisões políticas”, seja defendendo as decisões judiciais, indica o espaço que a narrativa bolsonarista ainda ocupa no plenário.
Caminho aberto para novos atos
O desfecho da marcha em Brasília ajuda a medir não apenas o fôlego físico dos participantes, mas também a capacidade de o bolsonarismo voltar a ocupar as ruas de forma organizada. Se a chegada reunir centenas ou milhares de pessoas, o ato pode se tornar modelo para futuras mobilizações regionais, com réplicas em outros corredores rodoviários e capitais.
Se a adesão for modesta, o gesto ainda assim consolida Nikolas Ferreira como uma das principais vozes do bolsonarismo na Câmara e reafirma o papel da família Bolsonaro como eixo central da oposição ao governo Lula. A disputa, agora, passa a se dar em três frentes simultâneas: nos tribunais que julgam os casos do 8 de janeiro, no Parlamento que legisla sobre o futuro do país e nas estradas onde a direita tenta reconstruir sua narrativa a cada quilômetro percorrido.
