Cargill diz ter sido abandonada pelo governo brasileiro, afirma advogada
A Cargill rompe o silêncio e acusa o governo brasileiro de deixá-la “sozinha” em meio a uma crise institucional. A declaração é feita nesta quarta-feira (25.fev.2026) pela advogada da companhia no país, Sandra Silva, e expõe um racha aberto entre a multinacional e Brasília.
Advogada fala em isolamento político da companhia
Em declarações públicas, Sandra Silva afirma que todas as instâncias dos Poderes nacionais, com exceção da Frente Parlamentar de Logística, a Frenlogi, se afastam da empresa. Segundo ela, o recado é claro: “A Cargill foi abandonada pelo governo brasileiro. Ficamos sozinhos, sem apoio político efetivo para manter projetos estratégicos no país”.
A fala ocorre em meio a um ambiente de maior desconfiança entre governo e grandes grupos privados. A Cargill é uma das maiores tradings de grãos do mundo, com presença no Brasil há mais de 50 anos e investimentos bilionários em portos, armazenagem e processamento. O país responde por uma parcela relevante da receita global da companhia, que supera US$ 170 bilhões por ano, segundo balanços recentes.
O tom da advogada sinaliza que o problema vai além de um desacordo pontual. “Não se trata de uma divergência técnica ou de um processo específico. O que vemos é uma retirada sistemática de apoio, em todas as esferas de poder”, diz Sandra. A exceção, segundo ela, é a Frenlogi, que segue defendendo a continuidade de projetos de infraestrutura ligados ao agronegócio e à logística de exportação.
Crise na relação público-privada acende alerta no mercado
A denúncia de isolamento político atinge um setor central da economia. A Cargill atua em cadeias que respondem por mais de 25% das exportações brasileiras, somando soja, milho, carnes e derivados. A percepção de que uma empresa desse porte se sente desamparada pelo governo provoca ruído imediato entre investidores e parceiros comerciais, no Brasil e no exterior.
Analistas ouvidos reservadamente avaliam que a queixa pública da companhia pode antecipar uma revisão de planos de investimento no país. Projetos de ampliação de terminais portuários, construção de armazéns e modernização de plantas industriais, previstos para os próximos cinco a dez anos, entram em compasso de espera. Em alguns casos, executivos já discutem destinar parte desses recursos a outros mercados emergentes, como Argentina e países da África Ocidental.
A ausência de respaldo governamental, relata Sandra, complica o cotidiano operacional. Autorizações ambientais demoram mais do que o previsto, concessões travam em disputas internas e decisões regulatórias chegam sem diálogo prévio. “A empresa não pede privilégios. Pede previsibilidade, regras claras e disposição de construir soluções conjuntas. Hoje, nada disso está garantido”, afirma.
O efeito colateral pode alcançar o emprego. A Cargill mantém milhares de trabalhadores diretos e indiretos no Brasil, distribuídos em fábricas, escritórios, terminais portuários e centros de armazenamento. Uma redução gradual de investimentos, mesmo sem anúncios imediatos de cortes, tende a frear contratações, adiar expansões e reduzir a demanda por serviços de transporte, logística e manutenção em diferentes regiões do país.
Risco de fuga de investimentos e incerteza sobre próximos passos
A crítica da advogada recai sobre o que ela descreve como “falha estrutural de cooperação” entre o Estado brasileiro e grandes empresas privadas. Em um cenário de juros mais altos no mundo e competição intensa por capital produtivo, a sensação de abandono pesa na decisão de onde investir cada dólar. Rivais da Cargill acompanham o movimento com atenção e podem usar o episódio como parâmetro para medir o grau de segurança institucional no Brasil.
Caso o afastamento se consolide, o país corre o risco de ver adiada a instalação de novas unidades industriais e a modernização de estruturas logísticas que sustentam o agronegócio. Municípios que dependem da circulação de grãos, da operação de portos secos e da atividade de esmagamento de soja sentem o impacto primeiro, em forma de menos obras, menos renda e menos arrecadação local.
Nos bastidores, integrantes do setor privado defendem uma saída negociada que envolva governo federal, estados, Congresso e órgãos de controle em uma mesa de diálogo estruturada. A leitura é que o episódio com a Cargill funciona como alerta para a necessidade de reconstruir confiança entre Estado e empresas, sob regras transparentes e com compromissos públicos de longo prazo.
Enquanto não há sinal claro de reaproximação, a fala de Sandra Silva amplia o desgaste e projeta incerteza para os próximos meses. A Frenlogi surge como único ponto de apoio mencionado pela advogada, mas não tem poder, sozinha, para redefinir a estratégia de uma multinacional que opera em dezenas de países. A dúvida que fica para o mercado é direta: o Brasil continuará sendo prioridade nos planos da Cargill ou entrará, silenciosamente, em rota de desinvestimento?
