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Cardiologista é preso após mais de 40 denúncias de abuso sexual no RS

O cardiologista Daniel Kollet, 55, é preso em Taquara, na Região Metropolitana de Porto Alegre, após mais de 40 denúncias de assédio e abuso sexual. As queixas partem de pacientes e ex-funcionárias e remontam a pelo menos duas décadas de atuação do médico na cidade.

Abusos em série em consultórios e hospitais

O caso ganha dimensão nacional em abril de 2026, depois que vítimas relatam ao programa “Fantástico”, da TV Globo, episódios que descrevem um padrão de violência e manipulação. Kollet é conhecido em Taquara como cardiologista experiente, com consultório disputado e presença em hospitais da região.

As denúncias mostram um enredo que mistura autoridade médica, intimidade de consultório e uma fachada espiritual. Segundo os depoimentos, o cardiologista afirma ser médium, diz querer “sentir a energia” das pacientes e usa esse argumento para justificar toques e abordagens que não têm relação com o exame clínico.

Uma enfermeira que trabalha com o médico em um hospital descreve ao “Fantástico” uma sucessão de investidas. “Ele tentava me beijar, e eu tentava tirar. Ele pegava com força minha mão e enfiava minha mão dentro da calça. Eu chegava a sair com os punhos vermelhos”, relata, sem se identificar. “Fiquei em choque, não sabia o que fazia.”

Outra profissional de saúde conta que é demitida após denunciar um episódio dentro do ambiente de trabalho. “Acordei com ele com as calças abaixadas em cima de mim. Tentei me desvencilhar dele, mas como eu estava com uma mão embaixo da cabeça, ele tentava levantar minha blusa, tirar minha roupa, até que comecei a gritar”, diz. Segundo ela, a chefia ignora a queixa. “Eles me demitiram mesmo assim. Sem prestar apoio nenhum.”

Os relatos de pacientes seguem a mesma lógica de invasão de confiança. Mulheres de diferentes idades contam que chegam ao consultório em busca de tratamento para dor no peito, problemas gástricos ou acompanhamento de fertilidade e saem em choque, sem saber se o que acontece é parte do exame ou um crime em curso.

Uma paciente, casada com amigo de longa data de Kollet, procura o cardiologista em 2024, em meio a tentativas de engravidar e dores no estômago. Ela relata que ele apalpa a barriga e os seios sem explicação técnica, enquanto apresenta ereção visível. Em seguida, diz ser médium e pede um abraço para transmitir “uma energia boa”. A cena se repete no ano seguinte. Ela conta ao marido, mas não registra boletim de ocorrência por medo de ser julgada.

Outra mulher narra que está sem a parte de cima da roupa para um exame de rotina. Ao fim do procedimento, ouve que ganharia um abraço. O médico se aproxima por trás, passa as mãos em seus seios e tenta prolongar o contato. Em caso semelhante, uma terceira paciente relata que permanece apenas de calcinha para exames. Ele a abraça, passa as mãos pelas costas e ombros e tenta tocar os seios. Na saída, afirma que o abraço é “um segredo que ficaria entre eles”.

O delegado Valeriano Garcia Neto, responsável pela investigação em Taquara, diz que a apuração encontra vítimas de todas as idades e relatos que somam ao menos 20 anos de condutas suspeitas. “Ele despia as vítimas e, na hora do exame, se abraçava nelas, tocando-as. Ele pedia segredo, dizendo que era uma demonstração de carinho e também sob pretexto de orientação espiritual”, afirma. “Há relatos de estupro de vulnerável, porque uma das vítimas foi sedada. Ele se dizia médium e dizia querer sentir a energia das vítimas.”

Escalada de denúncias e falhas de proteção

O inquérito começa com um fluxo menor de registros, mas cresce a cada nova reportagem. Na semana da prisão, no início de abril, 28 mulheres já tinham registrado ocorrência, segundo o delegado. Dias depois, o número passa de 40, e a polícia trabalha com a hipótese de chegar à casa da centena de vítimas em Taquara e região, onde Kollet atua há cerca de 20 anos.

Os depoimentos expõem um ambiente em que sinais de alerta se acumulam sem resposta institucional. Enfermeiras relatam que chefias ignoram denúncias internas, tratam episódios como mal-entendido e, em ao menos um caso, punem a denunciante, não o acusado. “As pessoas não acreditam na gente”, desabafa uma das profissionais que aparecem no “Fantástico”. “Precisaram 30 mulheres passarem praticamente pela mesma coisa para daí alguém dar ouvido, para realmente acreditarem que foi verdade, que realmente aconteceu.”

O caso abala a confiança em um dos espaços considerados mais protegidos da vida de uma pessoa: o consultório médico. A relação assimétrica entre médico e paciente, que já é delicada em situações comuns, se torna terreno fértil para abusos quando não há protocolos rígidos de proteção. Em muitos depoimentos, as vítimas dizem demorar dias ou meses para nomear o que viveram como violência sexual.

A defesa de Daniel Kollet afirma ao “Fantástico” que os “fatos são antigos” e que o cardiologista nega todas as acusações. Em nota, os advogados dizem que “a grande maioria dos fatos mencionados refere-se a relatos antigos, remontando a anos atrás, bem como que há menções envolvendo pessoas que, em princípio, sequer eram pacientes do profissional investigado”. Afirmam ainda que essas circunstâncias serão “devidamente apuradas no decorrer do processo”.

Os defensores destacam que o médico “mantém a negativa quanto às imputações” e que aguarda o andamento regular da ação penal para esclarecimentos. Também informam que não vão comentar casos individualizados “em razão do sigilo que envolve os procedimentos, bem como para preservar a adequada condução da apuração e o próprio exercício do direito de defesa”.

O Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers) diz em nota que já adota medidas administrativas para investigar a conduta do cardiologista. O órgão reconhece a gravidade da situação e promete rigor. “Se comprovada a denúncia, todas as ações necessárias serão tomadas para punir os responsáveis”, afirma o texto. O processo pode levar à cassação do registro profissional.

Pressão por mudanças e próximos passos da investigação

A prisão de Kollet e o volume de denúncias reacendem o debate sobre segurança de pacientes e responsabilidade de hospitais, clínicas e conselhos profissionais. Em Taquara, moradores organizam grupos de apoio e redes de escuta para mulheres que ainda hesitam em procurar a polícia. Nas redes sociais, cresce o número de relatos de assédio em ambientes médicos, muitos deles pela primeira vez narrados em público.

Especialistas em ética médica defendem a adoção de medidas simples, mas pouco difundidas no país, como a presença de acompanhantes durante consultas íntimas, a instalação de câmeras em áreas comuns de clínicas, canais internos anônimos para denúncias e resposta rápida de direções hospitalares a qualquer queixa de assédio. A avaliação é que o silêncio institucional ao longo dos anos ajuda a explicar a duração dos abusos.

Na esfera criminal, a polícia trabalha para identificar todas as vítimas em potencial e consolidar provas materiais, como prontuários, agendas e registros de atendimento. O desafio é lidar com relatos que chegam 10, 15 ou 20 anos depois dos fatos, em um sistema de Justiça que costuma ter dificuldade em apurar crimes sexuais antigos, mesmo quando há consistência nas narrativas.

O Ministério Público acompanha as investigações e deve decidir, a partir das provas reunidas, por quantos crimes o médico será denunciado, entre eles assédio sexual, importunação sexual e estupro de vulnerável. Cada novo depoimento pode alterar o enquadramento jurídico e a pena em eventual condenação.

No campo administrativo, o Cremers pode suspender cautelarmente o exercício da medicina enquanto o processo tramita, algo que pacientes e entidades de defesa dos direitos das mulheres cobram publicamente. O conselho não informa prazos, mas sinaliza que o caso corre em regime de urgência.

Entre as vítimas, a expectativa é que a visibilidade do caso ajude outras mulheres a romper o silêncio, em Taquara e em todo o país. As denúncias contra Daniel Kollet se somam a episódios recentes que envolvem médicos de diferentes especialidades e estados, num quadro que pressiona instituições de saúde a rever rotinas e a colocar, de fato, a proteção das pacientes no centro do cuidado. A principal dúvida, agora, é se a reação será pontual ou se o sistema está disposto a mudar para que histórias como essas não se arrastem por mais 20 anos.

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