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Caminhada de 240 km de Nikolas Ferreira pressiona por anistia ao 8/1

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) inicia, na terça-feira (20/1), uma caminhada de cerca de 240 quilômetros pela BR-040, de Paracatu (MG) a Brasília (DF). O ato, que envolve ao menos 25 parlamentares e aliados, protesta contra condenações ligadas aos atos de 8 de janeiro de 2023 e busca fortalecer a defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Protesto ganha corpo na estrada e nas redes

O grupo avança desde ontem pelo acostamento da BR-040 e transforma o trajeto em palanque itinerante. A cada parada, novas transmissões ao vivo, discursos contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e convocações para que apoiadores se juntem ao percurso ou organizem manifestações locais.

Entre os primeiros a aparecer nas imagens está o vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente, que chega ainda nas primeiras horas de caminhada. A presença dele sinaliza que o gesto não é apenas de um deputado em busca de visibilidade própria, mas de uma ala inteira do bolsonarismo que tenta rearticular sua base em torno da narrativa de perseguição judicial.

Ao lado de Nikolas desfilam nomes conhecidos da direita no Congresso e nas assembleias estaduais, como os deputados federais Gustavo Gayer (PL-GO), André Fernandes (PL-CE), Zé Trovão (PL-SC), Luciano Zucco (PL-RS), Carlos Jordy (PL-RJ), Junio Amaral (PL-MG) e Marcos Pollon (PL-MS). Também integram o grupo o senador Magno Malta (PL-ES), o senador José Medeiros (PL-MT), parlamentares estaduais, vereadores de diferentes capitais e o coronel da reserva da PM do DF Jorge Naime, que responde a processos relacionados ao 8 de janeiro.

A lista de adesões inclui ainda o ex-vereador paulistano Fernando Holiday (PL-SP) e o desembargador aposentado Sebastião Coelho, crítico frequente das decisões do STF. No total, ao menos 25 nomes se somam ao ato até a manhã desta quarta-feira (21/1), reforçando a leitura de que a caminhada funciona também como vitrine de unidade entre diferentes correntes do bolsonarismo.

Nas redes sociais, vídeos de trechos da rodovia alternam cenas de orações, gritos de “acorda, Brasil” e mensagens de repúdio às prisões dos condenados pelo vandalismo e invasões em Brasília há dois anos. Em pronunciamentos gravados, Nikolas diz que o objetivo é “romper a sensação de impotência” de parte do eleitorado conservador.

Disputa de narrativa sobre o 8 de janeiro

A caminhada se ancora na defesa de Bolsonaro e dos condenados pelos ataques às sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, episódio que leva à maior ofensiva judicial contra apoiadores de um ex-presidente desde a redemocratização. Até o fim de 2025, o STF condena centenas de réus, muitos a penas superiores a 10 anos de prisão, por crimes como associação criminosa e tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito.

Para Nikolas, parte dessas decisões é “injusta” e serve como recado político. Em vídeo publicado pouco antes de iniciar o trajeto, o deputado admite que decide caminhar a Brasília após um período de incômodo com o cenário atual. “É escândalo atrás de escândalo. O brasileiro tem sido colocado em uma posição de quase manipulação psicológica, em que nada mais abala”, afirma. Ele diz se sentir impotente diante das prisões de manifestantes do 8 de janeiro, da situação do ex-presidente e de “escândalos envolvendo o governo e o STF”.

Enquanto o grupo apresenta o ato como gesto pacífico de resistência, juristas e adversários políticos veem na iniciativa uma escalada na pressão sobre o Judiciário. A avaliação de interlocutores do Supremo é que movimentos desse tipo alimentam a narrativa de perseguição e podem dificultar qualquer tentativa de distensão institucional, em especial em ano pré-eleitoral.

A BR-040, que liga Minas Gerais ao Distrito Federal, vira cenário de um embate mais amplo. A cada quilômetro percorrido, a comitiva reforça a ideia de que o bolsonarismo não aceita o fechamento do capítulo judicial sobre o 8 de janeiro. Ao mesmo tempo, opositores usam as mesmas imagens para lembrar a destruição promovida nos prédios públicos e o custo estimado, à época, em milhões de reais aos cofres da União.

A disputa não se limita à memória dos atos de 2023. O movimento mira as próximas eleições municipais e gerais. A defesa pública dos condenados serve de teste para medir o apelo desse discurso junto ao eleitorado conservador fora das redes sociais, em contato direto com apoiadores ao longo da estrada.

Efeito político e próximos passos até Brasília

A caminhada de 240 quilômetros deve durar vários dias e chegar às proximidades de Brasília sob escolta de aliados e forte cobertura digital. Embora não haja, por ora, confirmação de atos oficiais no Congresso na data de chegada, parlamentares envolvidos falam em reuniões com bancadas conservadoras e tentativas de emplacar projetos ligados a anistia ou revisão das penas aos condenados.

No curto prazo, o protesto tende a acirrar a polarização nas redes e a provocar reação de partidos de esquerda e centro, que já associam o ato a uma tentativa de reabilitar politicamente o 8 de janeiro. A expectativa no meio político é que a mobilização pressione ainda mais o debate sobre o alcance das decisões do STF, o papel do Congresso na eventual revisão de penas e a própria atuação do ex-presidente nas articulações de bastidor.

O teste real ocorre nos próximos dias, conforme o grupo se aproxima do Distrito Federal. A quantidade de pessoas na chegada, o tom dos discursos e a resposta de instituições como o STF e a Procuradoria-Geral da República vão indicar se a caminhada fica restrita ao gesto simbólico ou se se converte em novo capítulo da crise que cerca o 8 de janeiro.

Enquanto Nikolas e aliados avançam quilômetro a quilômetro pela BR-040, o desconforto com o tema volta ao centro do debate nacional. A dúvida, para o mundo político e para o Judiciário, é se essa marcha abre caminho para algum tipo de trégua institucional ou se empurra o país para mais uma rodada de confronto em torno de um episódio que ainda não se encerra.

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