Câmara aprova acordo Mercosul-União Europeia e destrava megazona de livre comércio
A Câmara dos Deputados aprova nesta quarta-feira (25) o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia. O texto abre caminho para a redução gradual de tarifas em um mercado combinado de cerca de 700 milhões de consumidores e segue agora para análise do Senado.
Acordo destrava negociação de mais de duas décadas
O avanço no plenário encerra um impasse que se arrasta desde o fim dos anos 1990, quando os blocos iniciam as primeiras conversas formais. A versão atual do tratado ganha corpo em 2019, mas enfrenta resistências ambientais e industriais em países europeus e sul-americanos, o que retarda a tramitação. Só agora, em 2026, o texto chega ao primeiro teste decisivo no Congresso brasileiro.
O governo trata o acordo como uma oportunidade estratégica para recolocar o país nas grandes cadeias globais de comércio. Pelas estimativas internas, a abertura total leva entre 10 e 15 anos, com fases diferentes para bens agrícolas, industriais e serviços. A expectativa é de aumento gradual das exportações brasileiras e barateamento de produtos importados, à medida que taxas hoje na casa de dois dígitos recuam para patamares próximos de zero.
Impacto em agricultura, indústria e serviços
O texto prevê corte amplo de tarifas alfandegárias entre Mercosul e União Europeia, que juntos somam um PIB acima de US$ 20 trilhões. Na prática, empresas brasileiras passam a disputar de forma mais direta um mercado de alta renda, enquanto consumidores locais ganham acesso a itens europeus com menos impostos ao longo dos próximos anos. No agronegócio, governo e setor privado falam em crescimento adicional das vendas externas, com foco em carnes, açúcar, etanol, café e frutas.
Indústrias de máquinas, autopeças, químicos e farmacêuticos avaliam que a concorrência aumenta, mas também abre chance de integrar cadeias produtivas globais e atrair investimentos. “Quem se preparar desde já vai ganhar escala, tecnologia e novos clientes”, afirma um negociador ligado ao Itamaraty. No segmento de serviços, escritórios de engenharia, tecnologia da informação e consultorias enxergam espaço para ampliar contratos na Europa, especialmente se o país conseguir elevar a segurança jurídica e simplificar regras tributárias nos próximos anos.
Debate político, prazo e próximos passos
A votação na Câmara expõe divisões. Parte da base governista defende o acordo como um passo necessário para modernizar a economia, enquanto parlamentares ligados a setores industriais sensíveis pedem salvaguardas. “O Brasil não pode ficar na periferia do comércio mundial”, diz um deputado favorável ao tratado. Críticos alertam para o risco de fechamento de fábricas que não consigam competir com produtos europeus de maior valor agregado e cobram políticas de transição.
Com a aprovação, o texto segue ao Senado, responsável pela ratificação final. Senadores já indicam que pretendem organizar audiências públicas com representantes da indústria, do agronegócio, ambientalistas e especialistas em comércio exterior antes de votar. A expectativa no governo é concluir a tramitação ainda em 2026, para que as primeiras reduções de tarifas entrem em vigor em até dois anos após a troca de instrumentos de ratificação entre os blocos. Até lá, o país tenta responder a uma pergunta central: conseguirá aproveitar a janela de abertura para ganhar competitividade ou verá a concorrência externa avançar mais rápido do que sua capacidade de se adaptar?
