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Calderano e Bruna fazem história e vencem Smash de Singapura

Hugo Calderano e Bruna Takahashi conquistam nesta sexta-feira (27) o título do WTT Smash de Singapura, um dos grand slams do tênis de mesa mundial. A dupla brasileira vence os sul-coreanos Lim Jong-hoon e Shin Yubin, líderes do ranking, por 3 a 0 e se torna a primeira não asiática a levantar um troféu desse porte nas duplas mistas.

Virada de chave para o tênis de mesa brasileiro

O resultado em Singapura muda o patamar do tênis de mesa brasileiro e recoloca o país no mapa de um esporte historicamente dominado por China, Coreia do Sul e Japão. O triunfo em solo asiático não vale só o troféu de um dos torneios mais importantes do circuito, mas sinaliza que a dupla tem força real para brigar por medalha nas Olimpíadas de Los Angeles, em 2028.

Calderano e Bruna controlam a final desde o primeiro ponto. Impõem ritmo agressivo, variam saques e devoluções curtas e neutralizam as tentativas de aceleração de Lim e Shin, número 1 do mundo nas duplas mistas. Nem mesmo o início de reação dos sul-coreanos no terceiro set muda o roteiro. A dupla brasileira se recompõe, vira a parcial e fecha o jogo em 3 a 0, em pouco mais de meia hora.

O título em Singapura é apenas o segundo da parceria, que começa oficialmente em outubro de 2024. Em 2025, os dois já vencem um torneio do WTT em Buenos Aires, de nível mais baixo, e depois chegam à final em Liubliana, na Eslovênia. A sequência de resultados prepara o terreno para o golpe de autoridade na Ásia, agora em um grand slam.

O caminho até a taça reforça o peso da conquista. Antes da final, os brasileiros derrubam a dupla de Hong Kong formada por Wong Chun Ting e Doo Hoi Kem, então número 4 do ranking mundial. Os dois pares superados em Singapura, Hong Kong e Coreia do Sul, disputam a medalha de bronze nas Olimpíadas de Paris-2024, com vitória dos sul-coreanos. Vencer quem briga por pódio olímpico, em território asiático, é um recado direto ao circuito.

Quebra de hegemonia e janela olímpica

O Smash de Singapura integra o grupo de torneios de elite do World Table Tennis, uma espécie de grand slam da modalidade, com premiação alta, maior pontuação no ranking e presença dos principais nomes do circuito. Até agora, todas as taças em duplas mistas desse nível circulam entre países asiáticos. A entrada de uma dupla brasileira nessa lista rompe um padrão de décadas.

A vitória também chama atenção pelo contexto da carreira dos dois. Calderano, hoje referência absoluta do tênis de mesa no Hemisfério Sul, constrói sua trajetória sobretudo em competições individuais. Ele treina na Alemanha e já anuncia que vai defender o Saarbrücken na temporada 2027 da liga alemã, a mesma equipe do chinês Fan Zhendong, ouro em Paris.

Bruna vive rotina parecida na França, o que limita sessões de treino em dupla e torna a evolução conjunta mais complexa. A conquista em Singapura surge, portanto, quase como um desvio de rota bem-sucedido. Em meio a agendas diferentes, viagens constantes e foco tradicional em torneios individuais, os dois encontram sincronia em um dos palcos mais exigentes do circuito.

O resultado reacende o debate interno na confederação e entre técnicos sobre a prioridade a ser dada às duplas mistas nos próximos ciclos. O desempenho em Singapura e a vitória sobre a dupla número 1 do mundo empurram os brasileiros para o centro da conversa sobre Los Angeles-2028. A medalha olímpica segue distante, mas, pela primeira vez, a projeção deixa de parecer sonho distante e entra na conta como objetivo factível.

O impacto não se limita ao alto rendimento. Em um cenário esportivo dominado por futebol, a imagem de um casal brasileiro erguendo um troféu de grand slam em uma modalidade tipicamente asiática tende a mexer com base, clubes e patrocinadores. Escolinhas de bairro ganham argumento concreto para atrair crianças, enquanto dirigentes passam a ter um case recente para negociar apoio financeiro e espaços de treinamento.

Pressão, calendário e o que vem pela frente

O título em Singapura também altera a rotina dos próprios atletas. A partir de agora, Calderano e Bruna entram em quadra observados com outra lupa. Adversários estudam mais vídeos, técnicos montam planos específicos e torcedores passam a cobrar resultados compatíveis com o status de campeões de grand slam. A margem para atuação discreta diminui.

O desafio imediato é conciliar a nova expectativa com um calendário já pesado. Nos próximos meses, a prioridade continua sendo o circuito individual, no qual Calderano tem potencial para repetir ou superar a semifinal olímpica de 2024. Ele ainda vê espaço para avançar em grandes torneios e consolidar presença constante entre os quatro melhores do mundo.

Bruna, por sua vez, tenta aproveitar o impulso da campanha em Singapura para subir degraus no ranking de simples e ampliar ritmo de jogo contra asiáticas, que seguem como referência técnica da modalidade. Cada etapa do circuito vira laboratório para testar variações que possam migrar depois para as duplas mistas.

Nos bastidores, a discussão agora passa por algo bem menos glamouroso que o troféu erguido em Singapura: logística. Se quiser transformar o resultado em projeto olímpico consistente, a comissão técnica brasileira precisa desenhar um calendário que preveja períodos fixos de treino em dupla, possivelmente na Europa, conciliando ligas, viagens e limitações de patrocínio.

O Smash de Singapura não garante medalha em Los Angeles, mas altera a régua pela qual o tênis de mesa brasileiro será medido até 2028. Resta saber se o país vai tratar esta noite histórica apenas como exceção brilhante ou como ponto de partida para um projeto duradouro em um esporte que, pela primeira vez, olha para o Brasil não como coadjuvante, mas como ameaça real.

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