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Caiado critica Enamed e diz que faculdades de medicina viraram “bets”

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (UB), critica duramente, nesta terça-feira (20/1), o resultado do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes de Medicina (Enamed), que reprova 107 cursos no país. Médico e gestor, ele afirma que a formação médica no Brasil “virou um jogo de azar” e defende regras mais duras para abrir e manter faculdades de medicina.

Enamed expõe falhas na formação médica

O Ministério da Educação divulga, nesta semana, os dados mais recentes do Enamed. Dos 351 cursos avaliados em todo o país, 107 recebem notas 1 e 2, os conceitos mais baixos da escala oficial. Esses cursos ficam sujeitos a sanções, que incluem suspensão de vagas, restrições para novos ingressos e acompanhamento mais rígido.

Os demais 243 cursos obtêm desempenho regular ou bom, com notas entre 3 e 5. Um curso não pontua e fica sem conceito. O exame, aplicado anualmente pelo MEC por meio do Inep, mede o que os estudantes que estão concluindo medicina sabem em áreas básicas e práticas da profissão. Na prática, o resultado indica se o recém-formado está minimamente preparado para atender pacientes.

Esse recorte, segundo Caiado, é suficiente para acender um sinal de alerta. “São bets travestidas de faculdades. O resultado do Enamed escancara um estelionato educacional. A formação médica virou um jogo de azar, e quem perde é o paciente”, afirma o governador em publicações nas redes sociais.

As declarações vêm à tona em um ambiente de expansão acelerada de cursos de medicina no Brasil nas últimas décadas. O país ultrapassa a marca de 370 escolas médicas, uma das maiores ofertas do mundo. Especialistas em educação e entidades médicas alertam há anos que a abertura de vagas avança mais rápido do que a capacidade de garantir estrutura, professores qualificados e campos de prática adequados.

Segurança do paciente no centro da disputa

Caiado escolhe o caminho da confrontação direta com o modelo atual. Ele afirma que parte das instituições transforma o diploma em aposta de risco, em que o prejuízo aparece só quando o médico já está no consultório ou no plantão. “A baixa qualidade não atinge só o estudante. Afeta a segurança do paciente atendido por profissionais mal formados”, diz.

A crítica parte de alguém que conhece o outro lado do balcão. Antes de chegar ao governo de Goiás, Caiado constrói carreira como médico e dirigente de entidades da categoria. Agora, usa o cargo para defender critérios mais rígidos para a abertura e a manutenção de cursos. Segundo ele, instituições que não comprovam qualidade não deveriam seguir funcionando.

Em sete anos à frente do Palácio das Esmeraldas, o governador destaca que não autoriza nenhuma nova faculdade de medicina no estado, mesmo diante de lobby político e econômico. O recado é dirigido a grupos educacionais privados, que veem nos cursos de saúde um filão lucrativo, com mensalidades elevadas e alta procura, mesmo em cidades sem estrutura hospitalar complexa.

A discussão não é apenas acadêmica. Um curso mal avaliado pode formar turmas inteiras com lacunas graves em disciplinas básicas, como clínica médica, cirurgia, pediatria ou saúde pública. Quando esses estudantes chegam ao internato, etapa de prática intensiva, o sistema público de saúde acaba absorvendo o custo da formação incompleta. No fim da linha, o paciente se torna o teste vivo da qualidade do ensino.

As notas do Enamed funcionam, nesse cenário, como radiografia incômoda. O exame não fecha curso nem impede o registro profissional, mas serve de insumo para decisões de supervisão, suspensão de vagas e revisão de autorizações. Ao chamar o quadro de “estelionato educacional”, Caiado pressiona o MEC e órgãos reguladores a traduzirem os resultados em medidas concretas.

Pressão por regras mais duras e próximos passos

As declarações do governador têm potencial de ampliar o debate entre educação e saúde. Na prática, governadores não controlam diretamente a abertura de cursos superiores, competência do MEC, mas podem influenciar a oferta de campos de estágio na rede pública e a articulação com hospitais de ensino. Ao expor o tema em redes sociais e entrevistas, Caiado busca deslocar a discussão do número de vagas para a qualidade real da formação.

No curto prazo, o Ministério da Educação precisa definir quais sanções efetivas serão aplicadas aos 107 cursos com notas mais baixas. Também terá de responder à pressão de governos estaduais, entidades médicas e estudantes por critérios mais exigentes na autorização de novas faculdades. Entre as possibilidades estão congelamento de vagas, exigência de melhorias estruturais em prazos definidos e, em último caso, fechamento de cursos que não se ajustarem.

Para além das medidas imediatas, o resultado do Enamed reacende uma pergunta central: o país está preparado para equilibrar acesso à faculdade, qualidade de ensino e segurança do paciente? Enquanto o governo federal decide como agir diante dos dados, estados como Goiás usam a própria experiência para defender freios na expansão desordenada. A reação de Caiado indica que o embate sobre o futuro da formação médica brasileira está apenas no começo.

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