Ultimas

Buscas por irmãos desaparecidos no Maranhão entram em fase com sonar

As buscas pelos irmãos Ágatha Isabelly, 6 anos, e Allan Michael, 4, entram na terceira semana com uma nova frente no rio Mearim, em Bacabal (MA). A Marinha passa a usar sonar para varrer o leito do rio, depois que cães farejadores indicam vestígios na margem próxima ao povoado São Sebastião dos Pretos.

Buscas se concentram no rio após rastreamento na mata

O caso muda de fase em janeiro de 2026, quando as equipes que atuam em terra chegam pela segunda vez ao limite possível na mata fechada. O perímetro ao redor do povoado, na zona rural de Bacabal, já foi vasculhado em duas ocasiões, com apoio de cães farejadores e de moradores que conhecem cada trilha da região.

Ao refazer o caminho das crianças, os cães indicam um ponto específico às margens do Mearim, um dos principais rios do Maranhão, com cerca de 930 quilômetros de extensão. A partir desse vestígio, a força-tarefa decide deslocar parte dos esforços para a água. “Nós fizemos o perímetro na mata por duas vezes. Os cães encontraram os últimos vestígios, que os levaram ao rio. Por isso, a equipe da Marinha reforça esse trabalho nas águas”, afirma o prefeito de Bacabal, Roberto Costa (MDB).

O sonar, até então restrito a operações militares e de navegação, passa a ser a principal aposta para avançar nas buscas em um ambiente de baixa visibilidade. O equipamento emite ondas sonoras que permitem desenhar o fundo do rio e identificar objetos ou alterações no relevo submerso, recurso considerado crucial em águas turvas como as do Mearim.

O clima no povoado é de espera silenciosa. Moradores acompanham de longe o movimento das embarcações da Marinha e das equipes do Corpo de Bombeiros, que se revezam ao longo do dia. A cada dia sem notícia concreta, a pressão sobre as autoridades aumenta, mas a orientação oficial é manter o trabalho técnico, sem alimentar especulações.

Força-tarefa se amplia e caso escancara vulnerabilidade infantil

O desaparecimento de Ágatha e Allan, que saem de casa para brincar e não retornam, expõe a rotina de comunidades rurais onde a infância se mistura à floresta e ao rio sem muitas barreiras. Em São Sebastião dos Pretos, a maioria das casas é simples, e áreas de mata e cursos d’água ficam a poucos metros dos quintais. A ausência de cercas e de equipamentos públicos de lazer deixa crianças e adolescentes mais expostos.

Desde o início de janeiro, a mobilização envolve policiais civis e militares, bombeiros, equipes da prefeitura e agentes da assistência social. Marinha e Exército se somam à operação, em um esforço raro de integração entre forças civis e militares em um município do interior maranhense. Veículos oficiais, barcos, cães e drones entram na rotina de uma comunidade que, até o desaparecimento, vivia em relativo anonimato.

O impacto ultrapassa Bacabal e alcança o estado inteiro. A repercussão nas redes sociais e na imprensa pressiona por respostas rápidas e por transparência nas decisões. A cada novo movimento — da varredura na mata ao início do uso do sonar — familiares e vizinhos se organizam para acompanhar as novidades, enquanto tentam manter alguma normalidade nas atividades diárias.

O caso também evidencia as lacunas na proteção de crianças em áreas rurais. Faltam políticas permanentes de acompanhamento familiar, espaços seguros para brincar e estruturas de apoio psicológico quando algo foge do controle. A tragédia em curso funciona como um espelho incômodo de riscos conhecidos, mas muitas vezes negligenciados pelo poder público.

No meio dessa tensão, a história de Wanderson Kauã, 8 anos, primo dos irmãos desaparecidos, ganha relevo. Ele é encontrado em 7 de janeiro, após também desaparecer, e permanece internado desde então. A previsão de alta, segundo a prefeitura, é para os próximos dias, o que exige uma rede de proteção reforçada para recebê-lo de volta ao povoado.

“Nós orientamos a comunidade para o recebimento do Kauã, para que essa proteção seja feita e evitar perguntas ou situações que o abalem ainda mais”, afirma Roberto Costa. Equipes de assistência social procuram uma nova casa para o menino, em condições consideradas mais seguras, em um esforço que mistura cuidado emergencial e tentativa de reconstrução de laços.

Tecnologia, apoio psicológico e incerteza sobre os próximos dias

O uso do sonar no Mearim marca uma aposta na tecnologia em um contexto que, até aqui, depende sobretudo de força humana e conhecimento local. As imagens geradas pelo equipamento podem indicar pontos de interesse ao longo do curso d’água, que atravessa municípios como Formosa da Serra Negra, Grajaú, Bacabal e Arari antes de desaguar na baía de São Marcos, na altura da Ilha do Caranguejo.

O resultado desse mapeamento define os próximos passos da operação, seja para aprofundar buscas em áreas específicas, seja para reavaliar hipóteses trabalhadas pela polícia. Qualquer novo indício tem peso desproporcional em uma investigação que chega à terceira semana sem pista concreta sobre o paradeiro das crianças.

Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com o impacto emocional sobre familiares e moradores, especialmente as crianças que convivem com Ágatha, Allan e Kauã. A chegada de psicólogos e assistentes sociais ao povoado, prevista para esta semana, tenta romper o ciclo de medo, boatos e ansiedade que se instala em ambientes marcados pela incerteza.

Para além da resposta imediata, o caso tende a alimentar o debate sobre protocolos de atuação em desaparecimentos infantis em áreas rurais. A integração entre forças de segurança, uso planejado de tecnologia, comunicação clara com a comunidade e atenção psicossocial devem entrar no centro dessa discussão, que envolve governos estaduais, prefeituras e União.

Enquanto o Mearim é rastreado metro a metro, o que se impõe é uma espera sem data para terminar. As buscas seguem, a rotina do povoado se reorganiza em torno da ausência das duas crianças e a pergunta que mobiliza Bacabal, o Maranhão e o país continua sem resposta: onde estão Ágatha e Allan?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *