Buscas por irmãos desaparecidos em Bacabal chegam ao 17º dia com reforço da Marinha
As buscas pelos irmãos Ágatha Isabelly, 6, e Allan Michael, 4, desaparecidos em Bacabal (MA), chegam ao 17º dia nesta quarta-feira. A operação ganha reforço da Marinha e mantém a esperança das famílias em uma área de mata e rios que desafia as equipes de resgate.
Desaparecimento em área quilombola mobiliza cidade
Ágatha e Allan saem de casa no dia 4 de janeiro para brincar com o primo Anderson Kauã, 8, no povoado de São Sebastião dos Pretos, área quilombola às margens do rio Merim. A comunidade, acostumada à rotina silenciosa de roça e rio, vira centro de uma operação que reúne bombeiros, policiais, militares do Exército, Marinha e dezenas de voluntários.
O trio some em uma área de mata fechada, a poucos quilômetros das casas de taipa que marcam o povoado. Três dias depois, em 7 de janeiro, equipes encontram Kauã desidratado e desorientado. Ele recebe atendimento médico, mas não consegue explicar com precisão onde se separa dos primos.
A região onde o menino aparece concentra, desde então, o grosso dos esforços. Homens percorrem trilhas, varrem brejos, usam cães farejadores e embarcações. Moradores acompanham os trabalhos, apontam caminhos, refazem trajetos diários na tentativa de indicar atalhos e esconderijos possíveis. A cada dia sem resposta, cresce a aflição na comunidade e na cidade de cerca de 104 mil habitantes.
Em 9 de janeiro, o prefeito de Bacabal, Roberto Costa, anuncia recompensa de R$ 20 mil por informações que levem ao paradeiro das crianças. A oferta tenta romper o silêncio que, para muitos, já se torna insuportável. Telefones de denúncia passam a ser divulgados em rádios locais, redes sociais e carros de som.
Tecnologia no rio e buscas em terra firme
No 16º dia de buscas, o secretário de Segurança Pública do Maranhão, Maurício Martins, detalha o que considera uma peça central do quebra-cabeça. Segundo relato de Kauã, o último local em que ele esteve com os primos é uma casa abandonada, conhecida como “Casa Caída”, às margens do rio Merim, cerca de 3,5 km da comunidade quilombola.
O menino conta que o grupo passa pelo menos uma noite ali. A informação redefine rotas e prioridades. Equipes reforçam o patrulhamento em torno da construção, vasculham margens, troncos caídos, áreas de lama e igarapés que deságuam no Merim. Helicópteros sobrevoam a região, enquanto mergulhadores se revezam na água escura do rio.
“O que nós queremos garantir é que essas buscas continuarão. Toda a estrutura montada será mantida e, se necessário, ampliada para alcançar o objetivo maior, que é encontrar Isabelly e Michael”, afirma Martins, em coletiva. A declaração tenta responder à pergunta que ecoa em Bacabal e nas redes sociais: até quando o poder público se mantém em campo?
Em 17 de janeiro, a operação ganha um novo componente. A Marinha envia 11 militares e uma lancha equipada com sonar, aparelho que, em linguagem simples, faz um escaneamento detalhado do fundo do rio. O capitão dos Portos do Maranhão, Augusto Simões, explica que a mesma tecnologia é usada em operações complexas, como a queda de uma ponte em Estreito, também no estado.
“Ele faz um escaneamento, gerando uma imagem do leito do rio, da coluna d’água e do fundo do rio, vamos dizer assim, e a gente consegue identificar algum tipo de anomalia e, assim, otimizar as buscas que estão sendo realizadas pelos bombeiros mergulhadores”, diz. O equipamento permite cobrir, em horas, trechos que antes exigiriam dias de mergulhos sucessivos, com risco para as equipes.
O caso extrapola os limites da cidade e ganha repercussão nacional. Imagens da comunidade quilombola, do rio e dos familiares em vigília circulam em jornais, telejornais e redes sociais. Internautas cobram respostas, enviam mensagens de apoio, compartilham cartazes com fotos das crianças e ajudam a pressionar autoridades por mais recursos.
Comunidade em alerta e debate sobre proteção infantil
A rotina de São Sebastião dos Pretos se altera de forma abrupta. Crianças deixam de circular sozinhas, pais e mães acompanham de perto qualquer deslocamento, reuniões improvisadas surgem na associação de moradores. O desaparecimento de Ágatha e Allan acende um alerta sobre a segurança infantil em comunidades isoladas, onde a presença do Estado costuma ser esparsa.
Lideranças quilombolas relatam preocupação antiga com ausência de iluminação pública, transporte regular e sinal de telefonia. Na prática, qualquer emergência depende de longos deslocamentos por estradas de terra e travessias de rio. O caso evidencia, de forma brutal, a vulnerabilidade de famílias que vivem distante de delegacias, conselhos tutelares e serviços especializados.
O impacto emocional recai com força sobre Anderson Kauã, o único do trio que retorna para casa. O menino segue acompanhado por médicos e psicólogos, segundo o prefeito Roberto Costa, após manifestar o desejo de voltar à comunidade. O acompanhamento tenta reduzir danos imediatos e prevenir traumas duradouros em uma criança que, além da própria experiência de sobrevivência na mata, carrega as dúvidas sobre o paradeiro dos primos.
Nas redes sociais, o caso se transforma em símbolo da luta por mais proteção à infância em territórios rurais, ribeirinhos e quilombolas. Organizações que atuam com direitos de crianças e adolescentes retomam cobranças por políticas específicas para essas áreas, com foco em prevenção, resposta rápida e apoio às famílias.
Força-tarefa mantém buscas e país acompanha desfecho
O prefeito de Bacabal reúne, na segunda-feira (19), representantes do poder público e órgãos parceiros envolvidos na operação. Ao fim do encontro, reforça que não há previsão para suspensão das buscas. A recompensa de R$ 20 mil segue valendo, e novas diligências são planejadas a partir das informações já coletadas e do mapeamento feito com o sonar no rio Merim.
A força-tarefa mantém a combinação de tecnologia, trabalho de campo e mobilização comunitária. Cada pista é checada, cada avistamento relatado é cruzado com horários e rotas possíveis. A maior parte das informações se mostra infundada, mas nenhuma é descartada sem verificação.
Autoridades evitam falar em prazos. O discurso oficial insiste em um ponto: a operação só recua quando todas as possibilidades se esgotam. Enquanto isso, familiares de Ágatha e Allan se dividem entre acompanhar as buscas, receber equipes de investigação em casa e lidar com a exposição pública em um momento de dor aguda.
Bacabal vive dias em suspenso. A cada nova movimentação de viaturas ou embarcações, renasce a expectativa por um desfecho. As próximas semanas devem indicar se o reforço de tecnologia, o trabalho articulado entre forças de segurança e a pressão da opinião pública serão suficientes para responder à pergunta que permanece aberta desde 4 de janeiro: onde estão Ágatha Isabelly e Allan Michael?
