Buracos negros são realidade; buracos brancos e de minhoca seguem no papel
Buracos negros já são parte do mapa confirmado do Universo. Buracos brancos e de minhoca, não. Em 24 de janeiro de 2026, o astrofísico Rodrigo Nemmen, do IAG-USP, explica onde termina a evidência e começa a especulação matemática.
O que já é certo no céu
Nemmen não fala em metáforas vagas. Ele parte de imagens, dados e contas que hoje sustentam os buracos negros como objetos reais, e não mais como ideia ousada do século 20. “Eles se tornam uma verdadeira prisão gravitacional”, resume. A definição é precisa: trata-se de uma quantidade enorme de matéria comprimida em uma região minúscula, com uma gravidade tão intensa que nem a luz escapa.
A virada definitiva ocorre em 2019, quando o consórcio internacional Event Horizon Telescope divulga a primeira imagem da “sombra” de um buraco negro. A foto, construída com dados de oito radiotelescópios espalhados pelo planeta, revela um anel brilhante de gás aquecido em torno de uma região escura central. Em 2023, o mesmo projeto refina a técnica e publica novos retratos, consolidando um marco histórico: a fronteira do não retorno, antes apenas calculada, ganha contorno observável.
A segunda prova vem de outro tipo de registro, menos fotogênico, mas tão ou mais contundente. Desde 2015, detectores como o LIGO, nos Estados Unidos, captam ondas gravitacionais produzidas pela colisão de buracos negros em diferentes regiões do cosmos. A cada sinal confirmado, astrônomos medem massas, rotações e distâncias, e comparam tudo com as previsões da teoria da relatividade geral. Os números fecham a conta. “Há ampla comprovação científica e experimental da existência dos buracos negros”, reforça Nemmen.
Esse consenso não surge do nada. Nos anos 1970, físicos já montam um “manual de instruções” desses objetos: como crescem, como giram, como aquecem o gás ao redor. Meio século depois, telescópios espaciais como o Hubble e o James Webb, além de observatórios em solo, passam a testar ponto a ponto esse roteiro teórico. A cada nova medida, de galáxias a bilhões de anos-luz até o centro da Via Láctea, os buracos negros se comportam como a matemática previa.
Quando a matemática corre na frente
O mesmo não vale para os chamados buracos brancos. Apesar do nome sedutor, eles não passam daquilo que Nemmen chama de “curiosidade matemática”. “Chamar buraco branco de hipótese é até um elogio”, ironiza. Não há registro, indício ou pista observacional de sua existência, nem no Universo próximo, nem em galáxias distantes.
Em linguagem simples, um buraco branco seria o oposto de um buraco negro. Em vez de trancar tudo o que atravessa seu horizonte de eventos, ele só expulsaria matéria e energia, sem deixar nada entrar. Essa figura não nasce de telescópios, mas de extensões extremas das equações que também descrevem os buracos negros. São soluções exóticas, consistentes no papel, mas órfãs de qualquer confirmação no céu. “É simplesmente uma curiosidade matemática de soluções exóticas, não sabemos se eles existem”, afirma o pesquisador.
Algo parecido acontece com os buracos de minhoca. Eles aparecem nas mesmas equações da relatividade geral e ganham fama na cultura pop. Séries como “Dark” e “Stranger Things” usam a imagem de túneis ligando pontos distantes do espaço-tempo ou até realidades paralelas. A ilustração é clara: um plano em cima, outro embaixo, e um túnel no meio conectando os dois mundos.
Na linguagem da física, um buraco de minhoca seria um atalho cósmico ligando duas regiões distantes, permitindo em tese uma viagem mais rápida do que a luz faria pelo caminho convencional. A ideia, admite Nemmen, é fascinante. “É uma ótima ideia que roteiristas e escritores usam para fazer os personagens viajarem rapidamente entre dois pontos do universo”, diz. Fica na ficção. Até agora, nenhum telescópio, radiotelescópio ou detector gravitacional encontrou qualquer assinatura confiável de buracos de minhoca.
A diferença central entre esses conceitos, pontua o professor, está justamente na ponte com a realidade. Buracos negros já aparecem em imagens, em ondas gravitacionais e nos efeitos sobre estrelas e gás. Buracos brancos e de minhoca permanecem trancados nas equações. São possibilidades lógicas, não descobertas.
Por que isso importa para além da ficção
A distinção entre o que é comprovado e o que continua no campo teórico não é apenas uma disputa de rótulos. Ela afeta a forma como o público entende ciência, influencia currículos escolares e orienta investimentos de pesquisa. A confirmação dos buracos negros como objetos reais, no fim do século 20 e início do 21, remodela a física moderna. Obriga a rever a maneira como galáxias se formam, como estrelas morrem e como a própria gravidade atua em escalas extremas.
Os impactos são mensuráveis. Em pouco mais de dez anos, desde a primeira detecção de ondas gravitacionais em 2015, observatórios no hemisfério Norte e Sul registram dezenas de fusões de buracos negros, alguns com massas superiores a 50 vezes a do Sol. Esses dados alimentam modelos usados em supercomputadores, refinam simulações de formação de estruturas cósmicas e estimulam o desenvolvimento de tecnologias avançadas de detecção, de espelhos de altíssima precisão a sistemas de isolamento sísmico.
Ao mesmo tempo, o fascínio popular pelos buracos de minhoca se transforma em porta de entrada para a astronomia, mas também abre espaço para confusões. Quando filmes e séries borram fronteiras entre teoria e realidade, cresce o risco de que conceitos ainda especulativos sejam tratados como fatos. A fala direta de Nemmen tenta frear esse atalho. Buracos brancos e de minhoca, reforça o pesquisador, não passam hoje de produtos elegantes da matemática, sem qualquer apoio observacional.
O esclarecimento interessa também à própria comunidade científica. Em um cenário de recursos limitados, a fronteira entre o plausível e o meramente exótico ajuda a definir prioridades. Projetos bilionários de telescópios espaciais, como o James Webb, ou futuros observatórios gravitacionais no espaço, dependem de escolhas claras: testar previsões consolidadas, como as propriedades de buracos negros, ou perseguir sinais ainda altamente improváveis de estruturas mais exóticas.
As próximas fronteiras da gravidade extrema
A narrativa dos buracos negros, porém, está longe de encerrada. Se a descrição gravitacional básica pouco muda desde os anos 1970, a fronteira atual se concentra em regiões microscópicas, muito próximas do horizonte de eventos. É onde a relatividade geral, que descreve bem o cosmos em grande escala, encontra a mecânica quântica, que rege partículas subatômicas. Essa costura permanece em aberto e ocupa laboratórios e grupos de pesquisa no Brasil e no exterior.
Instrumentos atuais já conseguem medir massa, rotação e efeitos de maré exercidos por buracos negros sobre estrelas vizinhas e nuvens de gás. Em 2024 e 2025, novas campanhas do Event Horizon Telescope aprimoram a nitidez das imagens e tentam flagrar variações rápidas em torno do horizonte de eventos, em escalas de minutos. Cada avanço desse tipo fornece pistas sobre como campos magnéticos, partículas carregadas e radiação se comportam na borda do abismo gravitacional.
No horizonte da próxima década, missões espaciais planejadas por agências na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia pretendem abrir outra janela, com detectores de ondas gravitacionais em órbita capazes de registrar colisões ainda mais distantes e massivas. O Brasil, por meio de universidades e centros como o IAG-USP, participa de colaborações internacionais e forma especialistas em relatividade, astrofísica de altas energias e instrumentação.
Enquanto buracos brancos e de minhoca seguem confinados ao papel e às telas, buracos negros continuam a ditar a agenda de telescópios, supercomputadores e salas de aula. A diferença entre realidade observada e hipótese elegante é o tipo de fronteira que a ciência insiste em traçar, mesmo quando o imaginário insiste em apagá-la. A próxima grande descoberta pode vir de um novo retrato de um horizonte de eventos ou de um sinal gravitacional inédito. A pergunta que resta é se, algum dia, o Universo decidirá mostrar algo que hoje existe apenas nas equações.
