Buraco negro mantém jato recorde seis anos após devorar estrela
Um buraco negro supermassivo a 665 milhões de anos-luz mantém, há seis anos seguidos, um jato de material em alta velocidade após destruir uma estrela anã vermelha. As observações, detalhadas em estudo publicado em 5 de fevereiro de 2026 no Astrophysical Journal, desafiam o que a astrofísica entende hoje sobre esses objetos extremos.
Um banquete cósmico que não termina
O fenômeno começa há cerca de oito anos, quando uma anã vermelha com cerca de um décimo da massa do Sol cruza o ponto sem retorno do buraco negro. A estrela se aproxima demais do horizonte de eventos, é despedaçada pela gravidade e transformada em um fluxo de gás quente, num processo que os cientistas chamam de evento de ruptura por maré.
O que surpreende não é a morte da estrela, comum em centros galácticos, mas a digestão desordenada que se segue. O material estelar não some de imediato. Em vez disso, dois anos após o despedaçamento, parte desse gás começa a ser lançado de volta ao espaço em forma de jatos estreitos e colimados, conhecidos como jatos relativísticos, que viajam a velocidades próximas à da luz.
Esses jatos, que deveriam ser breves, seguem ativos há seis anos, sem sinal de enfraquecimento. Eles já se tornam um dos eventos isolados mais energéticos já detectados no universo em ondas de rádio, transformando um único buraco negro em laboratório cósmico para equipes de radioastronomia espalhadas pelo mundo.
“O aumento exponencial na luminosidade dessa fonte não tem precedentes. Agora está cerca de 50 vezes mais brilhante do que quando foi descoberta pela primeira vez, e está incrivelmente brilhante para um objeto em ondas de rádio”, afirma a astrofísica Yvette Cendes, da Universidade de Oregon, autora principal do estudo. “Isso está acontecendo há anos, sem sinal de parar. Isso é super incomum.”
Como cientistas enxergam um jato a 665 milhões de anos-luz
O buraco negro estudado tem cerca de 5 milhões de vezes a massa do Sol, valor comparável ao buraco negro supermassivo no centro da Via Láctea, medido em 4 milhões de massas solares. A diferença é que, ao contrário do nosso, este está em plena atividade, exibindo um comportamento que lembra uma refeição que nunca termina.
A equipe monitora o evento principalmente a partir de radiotelescópios instalados no Novo México, nos Estados Unidos, e na África do Sul. Esses instrumentos captam a luz de rádio emitida pelo material estelar aquecido, arremessado para fora antes de cruzar o horizonte de eventos. Em termos simples, telescópios ouvem o eco violento da estrela que quase foi engolida por completo.
“Depois que a estrela foi despedaçada, parte desse gás caiu em direção ao buraco negro e se aqueceu, e o buraco negro começou a consumir a estrela”, explica a astrofísica Kate Alexander, da Universidade do Arizona, coautora do estudo. “A luz de rádio brilhante que vemos com nossos telescópios é produzida por material estelar que chegou perto, mas nunca realmente cruzou o horizonte de eventos —como um bebê exigente mastigando sua comida e cuspindo-a violentamente de volta, em vez de engoli-la.”
A imagem de espaguetificação, usada por físicos para descrever o processo, não é apenas uma metáfora. Qualquer objeto que se aproxime demais é esticado em um fio de detritos pela diferença de gravidade entre as partes mais próximas e as mais distantes do buraco negro. O resultado é uma corrente de gás que alimenta o disco de acreção, a estrutura giratória de matéria quente em torno do monstro gravitacional.
O que ainda falta entender é por que, neste caso, o disco e os campos magnéticos associados são capazes de sustentar um jato tão duradouro e intenso. “Quanto ao que causa o jato relativístico em primeiro lugar —na verdade não sabemos, e é uma área ativa de pesquisa”, admite Cendes. “Provavelmente tem algo a ver com campos magnéticos ao redor do buraco negro, mas também claramente tem que ser algo incomum, senão veríamos mais deles.”
O que esse caso muda na ciência dos buracos negros
A duração de seis anos e o aumento de cerca de 50 vezes na luminosidade em rádio colocam esse evento fora da curva dos chamados eventos de ruptura por maré já observados. Em geral, os jatos associados a essas situações surgem mais cedo, duram menos e perdem força com o tempo. Aqui ocorre o contrário: o brilho cresce, desafia previsões e força cientistas a revisitar modelos de como buracos negros se alimentam.
Esse comportamento indica que a física dos discos de acreção e dos campos magnéticos ao redor de buracos negros supermassivos pode ser mais complexa do que sugerem as equações usadas hoje. Modelos que funcionam bem para explicar a maioria dos eventos parecem insuficientes para dar conta de um jato que persiste e se intensifica por anos. Isso tem impacto direto em teorias sobre como esses objetos afetam a galáxia em que vivem.
Buracos negros supermassivos influenciam o nascimento e a morte de estrelas ao redor, aquecem o gás interestelar e podem até interromper a formação de novas estrelas quando liberam energia em excesso. Entender por que um único evento produz um jato tão poderoso por tanto tempo ajuda a medir até que ponto esses gigantes moldam a evolução das galáxias ao longo de bilhões de anos.
Radiotelescópios distribuídos em diferentes continentes ganham protagonismo nesse cenário. A combinação de instrumentos no Novo México e na África do Sul oferece uma visão mais nítida e detalhada do jato, o que valoriza projetos internacionais de radioastronomia. O caso acontece às vésperas da consolidação de redes ainda maiores, como o Square Kilometre Array, e serve como demonstração concreta do tipo de fenômeno que esses observatórios podem desvendar.
Os próximos anos do jato que não quer apagar
Os pesquisadores estimam que o jato deve atingir seu pico de brilho ainda em 2026 ou, no máximo, em 2027. A partir daí, a tendência prevista é de queda lenta e prolongada, com uma cauda observável em ondas de rádio por cerca de uma década. Cada mês de monitoramento adiciona dados sobre a energia liberada, a estrutura do jato e o ritmo da alimentação do buraco negro.
A história, porém, está longe de concluída. Enquanto o jato continua a disparar material estelar a velocidades extremas, modelos teóricos seguem em ajuste fino, e novas observações em outros comprimentos de onda, como raios X e infravermelho, entram na fila. A pergunta que move os grupos de pesquisa é direta: este é um caso raro ou o primeiro exemplo bem documentado de um tipo inteiro de comportamento que os telescópios só agora começam a enxergar?
