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Brumadinho lembra 7 anos da tragédia e 1º ano de memorial

Brumadinho lembra neste domingo (25/1) os sete anos do rompimento da Barragem 1 da Mina Córrego do Feijão, que matou 272 pessoas. A data marca também o primeiro ano do Memorial Brumadinho, erguido no próprio território atingido para preservar a memória das vítimas e acolher familiares.

Memória fincada no lugar do desastre

O silêncio no distrito de Córrego do Feijão contrasta com as imagens exibidas dentro do memorial. Em uma das salas, visitantes assistem ao vídeo gravado no momento em que 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos avançam sobre pessoas, máquinas e plantações. Muitos evitam olhar até o fim. Outros encaram a tela como um dever, quase um ritual de testemunho.

O prédio projetado pelo arquiteto Gustavo Penna se impõe na paisagem a 15 quilômetros do Centro de Brumadinho. Concreto aparente e traços sóbrios abrigam um acervo que mistura documentos, fotografias, depoimentos e objetos resgatados na lama. Parte da própria lama do rompimento entra na construção, transformada em matéria de memória. O memorial abre as portas como espaço de luto, mas também de denúncia e formação, com atividades voltadas para escolas, pesquisadores e movimentos sociais.

Quem chega percorre os nomes das 272 vítimas, entre elas dois nascituros que se chamariam Maria Elisa e Lorenzo. Sete anos depois, ainda há dois desaparecidos, lembrados em cada celebração. Nas paredes, o rastro da lama se soma aos relatos sobre as mudanças na vida de quem morava na região e viu o cotidiano rural ser trocado por sirenes, viaturas, helicópteros e batalhas judiciais.

Romaria, missa e a disputa pela narrativa

A programação deste domingo se espalha pela cidade. Entre 8h e 14h, a Romaria pela Ecologia Integral chega à sétima edição. A caminhada parte da Praça Orides Parreiras, no Centro, e reúne familiares, moradores, religiosos e militantes de direitos humanos e do meio ambiente. O cortejo cruza ruas que ainda carregam faixas e pinturas com pedidos de justiça e de mudança nas regras da mineração.

Às 9h30, uma missa marca o ponto alto da manhã, presidida por dom Joel Maria dos Santos, bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte, e por dom Francisco Cota, bispo referencial para a Comissão de Ecologia Integral e Mineração do Regional Leste 2 da CNBB. No altar, a defesa da vida e a crítica ao modelo de exploração mineral caminham juntas. Ao recordar as vítimas, os religiosos reforçam a ideia de que a tragédia não é um acidente isolado, mas parte de um padrão de risco imposto a comunidades inteiras.

Brumadinho se converte, assim, em referência nacional no debate sobre justiça ambiental. O desastre de 25 de janeiro de 2019 atinge a Bacia do Rio Paraopeba, contamina solo e água, afeta a agricultura e a pesca, impõe restrições ao uso do rio por dezenas de municípios. Os impactos econômicos e sociais se estendem por anos. Famílias perdem renda, empresas locais fecham, propriedades se desvalorizam. As marcas ambientais seguem visíveis, mesmo após seguidas promessas de recuperação.

O memorial assume o papel de contraponto ao tempo acelerado da mineração. Em vez de apagar vestígios, o espaço insiste em preservá-los. A proposta é que estudantes, pesquisadores e visitantes entendam como uma barragem de rejeitos se rompe, quais alertas foram ignorados e por que a fiscalização falha. A intenção declarada é simples e dura: que “nunca mais” deixe de ser apenas uma frase em faixa e se transforme em política pública concreta.

Feridas abertas de Mariana e da bacia do Rio Doce

Sete anos depois de Brumadinho e mais de uma década após o rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana, a comparação entre os dois territórios é inevitável. Enquanto Brumadinho tem um memorial em funcionamento e um calendário consolidado de rituais coletivos, Mariana e outros três municípios da Zona da Mata — Barra Longa, Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado — ainda esperam o prometido Museu de Território.

O projeto prevê um equipamento cultural distribuído em áreas atingidas pelo despejo de 40 milhões de metros cúbicos de lama da Samarco na Bacia do Rio Doce, em 5 de novembro de 2015. Duzentos municípios, de Minas ao Espírito Santo, sofrem as consequências da catástrofe, que deixa 19 mortos e um rastro de destruição em comunidades ribeirinhas, áreas de pesca e patrimônio histórico. Dez anos depois, a proposta segue no papel.

No subdistrito de Bento Rodrigues, em Mariana, a arquiteta Jô Vasconcellos apresenta ainda em 2016 um anteprojeto para conservar as ruínas da Capela de São Bento. Ela descreve a ideia como “um local de abrigo, aconchego e resgate espacial daquilo que um dia existiu”. A estrutura, concebida como um “bunker” que protege o que restou do templo e do cemitério lateral, usa também a lama do desastre como elemento construtivo. A empresa responsável, segundo a arquiteta, não responde à proposta. A terra arrasada permanece, acompanhada pelo silêncio.

A ausência de um espaço de memória estruturado em Mariana contrasta com o esforço de Brumadinho para organizar sua narrativa. Em ambos os casos, comunidades lidam com dores parecidas: corpos soterrados, casas destruídas, rios contaminados, promessas de reparação que se arrastam. O que muda é a velocidade e a forma como o poder público e as empresas assumem — ou evitam — o compromisso com a lembrança e com a mudança de práticas.

Justiça, prevenção e o que ainda falta responder

A agenda deste domingo em Brumadinho não se limita às homenagens. Familiares e movimentos cobram respostas sobre a efetividade dos acordos de reparação, a transparência do monitoramento ambiental e a segurança das demais barragens em Minas. A experiência dos dois grandes rompimentos de barragens no estado aponta para um mesmo dilema: como conciliar a dependência econômica da mineração com o direito à vida e à integridade dos territórios?

Especialistas em gestão de risco lembram que, sem fiscalização rigorosa e punição exemplar, o país segue exposto a novos desastres. O caso de Brumadinho pressiona governos a rever licenças, reforçar quadros técnicos e adotar sistemas de alerta eficientes, capazes de evacuar áreas em minutos. A criação de espaços de memória, como o Memorial Brumadinho, reforça esse debate ao mostrar, de forma concreta, o que está em jogo quando essas medidas falham.

Os próximos anos dirão se as lições extraídas às margens do Rio Paraopeba e do Rio Doce se traduzem em políticas duradouras. As comunidades atingidas cobram prazos, valores e compromissos verificáveis, não apenas discursos. Enquanto isso, o memorial em Córrego do Feijão segue recebendo quem perdeu parentes, amigos e vizinhos na lama de 2019. Cada visita, cada romaria e cada celebração religiosa tenta responder, à sua maneira, a uma pergunta que ainda paira sobre Minas: quantas tragédias são necessárias para que o ciclo se encerre?

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