Brumadinho: Bombeiros encerram buscas sete anos após tragédia
O Corpo de Bombeiros de Minas Gerais encerra, neste domingo (25), as buscas pelas vítimas do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho. A decisão ocorre exatamente sete anos após a lama engolir a Mina Córrego do Feijão e matar 272 pessoas.
Sete anos, 11 milhões de metros cúbicos e um ciclo que se fecha
A confirmação do fim das operações vem no mesmo dia em que Brumadinho para para lembrar a manhã de 25 de janeiro de 2019. Às 12h28, o mar de rejeitos rompe a Barragem 1, arrasta funcionários, moradores, turistas e destrói comunidades inteiras ao longo do Córrego do Feijão.
Desde então, o município de pouco mais de 40 mil habitantes convive com sirenes, perícias, audiências e luto prolongado. Neste domingo, o anúncio dos bombeiros se mistura às orações dos familiares, que se reúnem em missa e romaria pelas ruas da cidade.
O tenente Henrique Barcelos, porta-voz do Corpo de Bombeiros, afirma que todo o volume de lama foi revistado. “Nós atingimos 100% de vistoria no rejeito, um parâmetro que era muito importante para nós”, diz. Segundo ele, os mais de 11 milhões de metros cúbicos de rejeitos gerados pelo rompimento já passam por uma varredura completa, ponto que permite o encerramento formal das buscas.
O anúncio não significa o fim do trabalho com as vítimas. A Polícia Civil segue com a análise pericial dos segmentos corpóreos recolhidos ao longo desses sete anos. “Agora a gente tem a continuidade de um trabalho muito importante da Polícia Civil, que é seguir com a análise pericial nos segmentos corpóreos encontrados pela nossa corporação”, completa Barcelos.
Entre as 272 mortes confirmadas estão funcionários da Vale, moradores de comunidades próximas, visitantes que passavam o fim de semana na região e dois nascituros, que receberiam os nomes de Maria Elisa e Lorenzo. Duas vítimas seguem sem identificação oficial, mesmo após anos de cruzamento de dados genéticos.
Luto que permanece e cobrança por justiça
Na manhã deste domingo, a cidade volta a repetir rituais que se tornam parte do calendário local. Uma missa reúne familiares das vítimas em uma igreja de Brumadinho. Depois, uma romaria segue pelas ruas até a Praça das Jóias, espaço criado para homenagear cada uma das 272 pessoas mortas no desastre.
No local, cruzes exibem os nomes de quem teve a vida interrompida pelo rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão. Familiares se dão as mãos e formam um abraço simbólico. Às 12h28, horário exato do rompimento, o grupo faz um minuto de silêncio. O gesto, repetido ano após ano, se torna ainda mais carregado de sentido agora que a fase de buscas chega ao fim.
Ao final do ato, 272 balões são soltos no céu de Brumadinho, um para cada vítima. O nome de cada “joia”, como os parentes chamam os mortos, é lido em voz alta. Para muitas famílias, o encerramento das operações de resgate traz uma espécie de marco, mas não um sentimento de conclusão.
Malvina Firmina Nunes, mãe de Peterson Firmino Nunes, morto aos 34 anos, fala em impunidade. “Todo ano eu venho participar da missa, para rezar e clamar por justiça. Até hoje não houve justiça, não houve nada, está impune”, afirma. O filho, pai de três crianças, trabalhava para sustentar a família quando é levado pela lama.
Em meio às homenagens, Malvina volta a apontar a responsabilidade da mineradora. “A Vale é assassina, ela matou 272 pessoas. Todos eles trabalhando para levar o pão para dentro de casa. Eu perdi o meu Peterson e foi a mesma coisa de perder eu mesma. Meu tempo parou, eu não vivo mais, todo dia eu peço a Deus por ele, chamo por ele”, desabafa.
O rompimento da barragem em Brumadinho se soma a um histórico de tragédias ligadas à mineração em Minas Gerais e alimenta o debate sobre segurança de barragens no país. Sete anos depois, o caso ainda provoca embates em tribunais, pressiona órgãos ambientais e desafia as promessas de mudanças estruturais feitas após o desastre.
Investigações seguem e memória continua a pressionar o Estado
Com o fim das buscas em campo, o foco se desloca de vez para os inquéritos, ações criminais e processos cíveis que tentam responsabilizar empresas e dirigentes. A Polícia Civil mantém as perícias para identificar restos humanos encontrados em diferentes pontos da área atingida, trabalho que depende de tecnologia, cruzamento de dados e tempo.
As famílias cobram prazos e resultados concretos. Querem saber quem responderá criminalmente pelas 272 mortes e pelo impacto duradouro sobre o Rio Paraopeba, as comunidades rurais e a economia local. A tragédia afeta diretamente trabalhadores da mineração, pequenos comerciantes e produtores rurais que viviam da paisagem e do turismo na região.
O encerramento das operações dos bombeiros também marca uma transição simbólica. O protagonismo sai das equipes de resgate, que atuam ininterruptamente desde 2019, e se concentra em delegados, promotores, juízes e autoridades reguladoras. A partir de agora, cada atraso e cada decisão judicial se tornam mais visíveis para uma população que espera respostas há sete anos.
Brumadinho tenta reconstruir sua rotina, mas a presença constante de cruzes, memoriais e placas lembrando rotas de fuga impede o esquecimento. As cerimônias deste 25 de janeiro reforçam a mensagem dos familiares: não basta encerrar as buscas, é preciso garantir que nenhuma outra comunidade enfrente um mar de lama semelhante.
As investigações e ações judiciais devem se arrastar por mais alguns anos, em diferentes instâncias no Brasil e no exterior, onde investidores e órgãos internacionais acompanham o caso. Enquanto isso, a lembrança dos 272 nomes lidos na Praça das Jóias segue como lembrete diário de uma pergunta que ainda não encontra resposta clara: quem, de fato, pagará pela tragédia de Brumadinho?
