Brasileiro propõe rota a Marte que reduz viagem para até 5 meses
O físico brasileiro Marcelo de Oliveira Souza, professor da UENF, publica neste sábado (11) na revista Acta Astronautica uma rota interplanetária que promete encurtar drasticamente o tempo de viagem entre a Terra e Marte. O estudo usa dados de asteroides e inteligência artificial para desenhar caminhos “geométricos” que reduzem o trajeto de anos para poucos meses.
Do interior do Rio a uma rota mais rápida para o planeta vermelho
O artigo, intitulado em tradução livre “Utilizando dados orbitais iniciais de asteroides para missões rápidas a Marte”, inaugura uma abordagem inédita para planejar viagens interplanetárias. Em vez de partir apenas das órbitas clássicas entre os dois planetas, Marcelo analisa o movimento de asteroides que já cruzam trajetórias próximas à Terra e a Marte e transforma esses percursos em uma espécie de pista de aceleração cósmica.
Os cálculos indicam que missões humanas e robóticas podem deixar de gastar entre dois e três anos, somando ida, permanência e retorno, para completar o ciclo entre os dois mundos. Na projeção mais ousada, a viagem de ida pode cair para 153 dias. No cenário mais viável com a tecnologia atual, uma missão completa, com ida, permanência em Marte e volta à Terra, se conclui em 226 dias, pouco mais de sete meses.
Marcelo reforça que se trata de uma proposta teórica, mas com base em dados reais de órbitas e em simulações numéricas refinadas. “Claro que para efetivar uma viagem, é preciso ter todo o ajuste da velocidade do foguete, para saber se alcança o que eu propus, tem a questão do que pode ser levado, a carga útil… fiz a proposta teórica”, afirma. Ele conta que simulou dois modelos: um com velocidades ainda inalcançáveis hoje e outro pensado para os limites de desempenho dos foguetes atuais.
O trabalho aparece em um momento em que a nova corrida espacial volta seus olhos para Marte. Missões privadas e agências como a Nasa e a ESA projetam janelas de lançamento para a década de 2030, enquanto o programa Artemis prepara o retorno definitivo de humanos à Lua como etapa anterior ao salto para o planeta vermelho. A publicação em uma revista da Academia Internacional de Astronáutica, por si só, já coloca o estudo brasileiro nesse debate global.
A trajetória até o artigo começa em 2015, quando o professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, em Campos dos Goytacazes, decide estudar asteroides que passam perto da Terra e de Marte. Anos depois, ele percebe que essas rochas, vistas pelos telescópios como pontos minúsculos no céu, podem guardar a chave de rotas mais curtas. A hipótese se consolida quando ele passa a usar inteligência artificial para vasculhar os dados orbitais e identificar, entre milhares de trajetórias, os “corredores geométricos” que ligam os dois planetas com menos gasto de tempo.
O que muda para as futuras missões a Marte
Encurtar a viagem a Marte de até três anos para algo em torno de sete meses redefine a equação de risco, custo e logística de qualquer missão tripulada. Quanto mais tempo uma tripulação permanece no espaço profundo, maior a exposição à radiação cósmica e solar e maior o desgaste físico e psicológico. Menos meses de voo significam menor dose acumulada de radiação, menos insumos a bordo e menores reservas de combustível para manobras de correção.
Na prática, isso pode baratear projetos inteiros. Cargas de suporte à vida, comida, água, sistemas de reciclagem de ar e equipamentos de proteção contra radiação são dimensionados em função do tempo de viagem. Reduzir esse prazo em até três vezes abre espaço para levar mais instrumentos científicos ou sistemas redundantes de segurança. Também aumenta a frequência possível de janelas de lançamento, o que torna a exploração marciana mais dinâmica, com missões de ida e volta em ritmo próximo ao de campanhas polares na Terra.
Marcelo avalia que as agências espaciais podem adaptar suas arquiteturas de missão para aproveitar esses corredores. “Simulei dois modelos, uma com a tecnologia que a gente não tem hoje, que é uma velocidade muito mais rápida, e outra, mais viável dentro da tecnologia que temos”, explica. A rota considerada mais realista prevê uma viagem de ida, um período de permanência em solo marciano e o retorno à Terra, totalizando 226 dias de operação em trânsito, sem contar o tempo de trabalho científico em Marte.
O estudo ainda não altera, por si só, cronogramas oficiais de programas como o Artemis, voltado à Lua, mas reforça o protagonismo de pesquisadores brasileiros em um debate que costuma ser dominado por Estados Unidos, Europa, Rússia e China. O Brasil é signatário dos Acordos Artemis, conjunto de princípios que orienta a exploração pacífica do espaço. Ao colocar na mesa uma solução concreta para um dos maiores gargalos da ida a Marte, o professor fluminense amplia a margem de participação científica nacional em futuras parcerias.
A pesquisa também aponta para um uso mais intenso de inteligência artificial na astrofísica e na astronáutica. Em vez de testar manualmente combinações de órbitas, o sistema automatizado identifica padrões ocultos em grandes bancos de dados de asteroides. Essa abordagem pode ser replicada para outros destinos, como missões a asteroides troianos de Júpiter ou às luas geladas de Saturno e Júpiter, onde se suspeita da existência de oceanos subterrâneos.
Um professor do interior no mapa da exploração espacial
Por trás do artigo técnico está uma trajetória de divulgação científica construída ao longo de três décadas. Marcelo de Oliveira Souza se forma em Física pela Universidade Federal Fluminense e faz doutorado em Cosmologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Começa a dar aulas na UENF em 1994, em Campos dos Goytacazes, e dois anos depois ajuda a fundar o Clube de Astronomia Louis Cruls, que hoje completa 30 anos de atividades.
O clube representa no estado do Rio de Janeiro iniciativas internacionais como Astrônomos sem Fronteiras e o Charlie Bates Solar Astronomy Project e abriga o DarkSky Rio de Janeiro, único núcleo oficial da DarkSky no país. A atuação em defesa dos céus escuros, essencial para a observação astronômica, rende ao professor o primeiro prêmio da Dark Sky International já concedido a um brasileiro, reconhecimento pelas ações que levaram o Parque Estadual do Desengano a receber o selo de International Dark Sky Park, o primeiro da América Latina.
Marcelo também se dedica a aproximar o público das figuras históricas da corrida espacial. Ele é o responsável por trazer ao Brasil o astronauta Buzz Aldrin, segundo homem a pisar na Lua, para uma palestra em Campos dos Goytacazes, organizada pelo Clube de Astronomia Louis Cruls. No dia a dia, lidera o projeto Jovens Astros do Amanhã, apoiado e financiado pelo Consulado Geral dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, voltado à formação de estudantes em astronomia e ciências espaciais.
O cientista diz que a motivação para seguir nesse caminho vem de casa. “Meu pai era químico e minha mãe professora. Desde novo sempre tive interesse pelas ciências exatas. Decidi ser físico por influência do Einstein”, relata. A combinação de pesquisa de ponta com educação e engajamento público ajuda a explicar por que um estudo sobre trajetórias de asteroides, nascido em um campus fluminense, chega às páginas de uma das principais revistas de astronáutica do mundo.
Os próximos passos dependem da reação da comunidade internacional. Agências espaciais precisarão testar, em simulações próprias, as rotas propostas e avaliar como integrá-las a seus cronogramas. Empresas privadas, interessadas em encurtar prazos e custos em missões comerciais, também podem ver vantagem em adaptar veículos e cargas a esses novos corredores. Enquanto as primeiras missões humanas a Marte continuam no horizonte da próxima década, a pergunta que ganha força é se a estrada até lá será traçada, em parte, com base nas órbitas discretas de pequenos asteroides estudados a partir do interior do Rio de Janeiro.
