Ciencia e Tecnologia

Brasileiro descobre rota mais rápida para Marte e corta viagem para 7 meses

O físico brasileiro Marcelo de Oliveira Souza publica neste sábado (11) um estudo que propõe uma nova rota para missões rápidas a Marte. A trajetória encurta a viagem de até três anos para menos de um ano e reposiciona a ciência brasileira no mapa da exploração espacial.

Uma nova estrada no espaço traçada no interior do Rio

O artigo, aceito pela revista Acta Astronautica e disponível na plataforma Science Direct, nasce longe dos grandes centros espaciais. Marcelo é professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), em Campos dos Goytacazes, no norte do Rio de Janeiro. A partir de um campus público, ele entra em um debate dominado por agências como Nasa e ESA ao sugerir um atalho matemático entre a Terra e Marte.

O estudo usa dados orbitais iniciais de asteroides e inteligência artificial para encontrar o que o pesquisador chama de “corredores geométricos” no Sistema Solar. Esses corredores são faixas de trajetória nas quais a gravidade dos planetas e do Sol colabora para acelerar a nave, reduzindo o tempo de viagem sem exigir, em teoria, um consumo impossível de combustível. A proposta mexe em um ponto sensível da exploração de Marte: o calendário das missões tripuladas.

Do estudo de asteroides a um atalho para Marte

O projeto começa em 2015, quando Marcelo passa a estudar asteroides com órbitas que se aproximam tanto da Terra quanto de Marte. A curiosidade inicial era entender como esses corpos pequenos aproveitam as forças gravitacionais para cruzar o Sistema Solar. Anos depois, o físico percebe que essas rotas naturais podem servir de base para planejar caminhos mais eficientes para espaçonaves.

Com ajuda de ferramentas de inteligência artificial, o pesquisador testa milhares de trajetórias a partir desses dados orbitais. O objetivo é identificar padrões que encurtem a distância prática entre os planetas, sem violar as limitações de velocidade e energia dos foguetes atuais. “Os resultados mostram que dados iniciais podem revelar corredores geométricos para missões interplanetárias muito mais rápidas”, explica Marcelo, em entrevista à CNN Brasil.

A comparação com o modelo tradicional expõe o salto. Hoje, uma missão a Marte considerada viável, com ida, permanência e retorno, pode levar de dois a três anos, somando viagem e tempo de espera pela melhor janela de volta. Com a rota proposta, esse ciclo completo pode cair para 226 dias, pouco mais de sete meses. Em um cenário limite, apenas de ida, a viagem poderia ser feita em 153 dias, cerca de cinco meses.

Marcelo deixa claro que o artigo apresenta uma proposta teórica. “Claro que para efetivar uma viagem, é preciso ter todo o ajuste da velocidade do foguete, para saber se alcança o que eu propus, tem a questão do que pode ser levado, a carga útil… fiz a proposta teórica”, afirma. Ele diz ter simulado dois modelos: um com uma velocidade ainda fora do alcance da tecnologia atual e outro compatível com os sistemas de propulsão disponíveis hoje.

Impacto nas futuras missões a Marte

A diferença de tempo não é apenas um ganho de agenda. Reduzir a permanência no espaço de três anos para menos de um pode significar menos exposição à radiação cósmica, menor desgaste físico e psicológico da tripulação e cortes expressivos de custos operacionais. Uma missão mais curta exige menos alimentos, água e insumos, o que permite repensar o desenho de foguetes, módulos habitáveis e sistemas de suporte à vida.

Os números interessam diretamente a programas que miram Marte nas próximas décadas. A Nasa discute enviar astronautas ao planeta vermelho após consolidar as missões Artemis à Lua, das quais o Brasil é signatário. Uma rota mais rápida pode alterar cronogramas, janelas de lançamento e o próprio desenho dessas missões. Na prática, trajetórias otimizadas podem aumentar a frequência de voos robóticos e, no futuro, tripulados, abrindo espaço para mais países e empresas privadas participarem do esforço interplanetário.

Essa perspectiva se soma a um momento em que o setor espacial passa por transformação. Foguetes reutilizáveis, empresas privadas disputando contratos e parcerias internacionais em programas como Artemis redesenham o equilíbrio de forças. A contribuição de um pesquisador brasileiro, a partir de uma universidade estadual, funciona como vitrine da capacidade científica nacional em um campo dominado por poucos países.

O cientista que leva o céu escuro e Marte para a sala de aula

O trabalho em Marte é mais um capítulo de uma trajetória marcada pela divulgação científica. Marcelo é graduado em Física e doutor em Cosmologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Começa a carreira docente na UENF em 1994, dois anos antes de ajudar a fundar o Clube de Astronomia Louis Cruls, em Campos dos Goytacazes.

Ele conta que a escolha pela física nasce em casa. “Meu pai era químico e minha mãe professora. Desde novo sempre tive interesse pelas ciências exatas. Decidi ser físico por influência do Einstein”, diz. Ainda na graduação, na Universidade Federal Fluminense, tem acesso a um telescópio pela primeira vez, experiência que o leva a investir na formação de novos astrônomos amadores e estudantes.

O clube que ajudou a criar completa 30 anos em 2026 e hoje representa no Rio de Janeiro grupos internacionais como Astrônomos sem Fronteiras e Charlie Bates Solar Astronomy Project. A entidade também coordena o DarkSky Rio de Janeiro, único núcleo oficial da organização internacional dedicado à preservação do céu escuro no país.

Marcelo é o primeiro brasileiro a receber o prêmio da Dark Sky International por ações de proteção contra a poluição luminosa. A instituição destaca a transformação do Parque Estadual do Desengano em International Dark Sky Park, o primeiro da América Latina com certificação de céu escuro. Ele também articula, pelo clube, a vinda do astronauta Buzz Aldrin, segundo homem a pisar na Lua, para sua primeira palestra no Brasil, em Campos.

O professor coordena ainda o projeto Jovens Astros do Amanhã, apoiado e financiado pelo Consulado Geral dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, voltado a aproximar estudantes de escolas públicas da astronomia e das carreiras científicas. A descoberta da nova rota para Marte alimenta esse trabalho cotidiano de sala de aula, oferecendo um exemplo concreto de pesquisa de ponta feita no interior do estado.

O que vem depois da rota teórica

O artigo publicado neste 11 de abril é um ponto de partida, não de chegada. Para que os corredores geométricos saiam do papel, agências espaciais e empresas privadas precisam testar as trajetórias em simulações próprias e em missões robóticas. As contas de engenharia vão definir quanta economia de combustível é possível e quais adaptações de foguetes e naves são exigidas.

Marcelo aposta na colaboração internacional como próximo passo natural. A visibilidade trazida pela publicação em uma revista da Academia Internacional de Astronáutica tende a atrair grupos de pesquisa interessados em refinar o modelo. Se a rota se provar viável, a redução de até três anos para menos de um ano de viagem pode acelerar não só a chegada do ser humano a Marte, mas também a forma como o Brasil participa dessa jornada. A pergunta agora é quando, e não se, essa nova estrada interplanetária será usada pela primeira vez.

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