Ciencia e Tecnologia

Brasileiro cria rota a Marte que reduz viagem a até 153 dias

Um físico brasileiro desenvolve uma nova rota interplanetária que pode levar humanos a Marte em 153 a 226 dias. O estudo, aceito em abril de 2026 por uma revista da Academia Internacional de Astronáutica, usa trajetórias de asteroides e inteligência artificial para encurtar pela metade o tempo tradicional de ida e volta ao planeta vermelho.

Do interior do Rio para o mapa da exploração espacial

Marcelo de Oliveira Souza trabalha longe dos grandes centros da corrida espacial. Ele é professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), em Campos dos Goytacazes, no norte do Rio, e atua em física aplicada ao espaço. De lá, sem vínculo com grandes agências, ele encontra uma forma potencialmente mais rápida e barata de sair da órbita terrestre em direção a Marte.

O estudo, intitulado “Utilizando dados orbitais iniciais de asteroides para missões rápidas a Marte” (em tradução livre), é aceito para publicação na Acta Astronautica, revista da Academia Internacional de Astronáutica. O artigo técnico, com os detalhes matemáticos, deve ser publicado nas próximas semanas. A CNN Brasil tem acesso antecipado às conclusões centrais da pesquisa.

Sousa parte de uma ideia simples e ao mesmo tempo contraintuitiva: usar o movimento natural de asteroides como guia para construir “corredores geométricos” no espaço. Esses corredores são caminhos gravitacionais que, se bem aproveitados, permitem viagens mais rápidas e com menos gasto de combustível, aproveitando o balanço entre a gravidade dos corpos celestes e o impulso dos foguetes.

“Eu sou um professor aqui na Universidade Estadual do Norte Fluminense, em Campos de Goytacazes, e consegui um resultado novo que permite uma viagem mais rápida para Marte, usando como base a trajetória de um asteroide”, afirma Souza, em entrevista. A fala contrasta com o alcance da descoberta, que pode influenciar o planejamento de missões humanas e robóticas nas próximas décadas.

Asteroides como bússola e a ajuda da inteligência artificial

A ideia nasce há anos, quando Souza estuda a trajetória específica de um asteroide. Ele percebe que aquele caminho, desenhado pela gravidade do Sistema Solar, poderia servir como referência para uma missão até Marte. Faltavam, porém, ferramentas para transformar essa intuição em simulações completas.

“Naquela época, eu não consegui obter uma trajetória porque necessitava fazer várias simulações, e eu não dominava a tecnologia, e não tinha recursos para que eu tivesse acesso que me permitisse fazer as simulações rápidas. Eu estava fazendo passo a passo as simulações”, lembra o físico, doutor em física pela UENF.

O cenário muda quando ele passa a usar ferramentas de inteligência artificial para testar milhares de combinações de órbitas em pouco tempo. A IA funciona como um acelerador de cálculos, permitindo verificar, em dias, o que antes exigiria meses ou anos de tentativas manuais. Com isso, ele valida a existência de corredores geométricos que encurtam a viagem entre a órbita da Terra e a de Marte.

“Fazendo as simulações, eu consegui um bom resultado, e uma dessas propostas é para uma posição de Marte que vai acontecer em 2031. Eu consegui um resultado muito bom que permite uma viagem para Marte em um tempo bem menor com tecnologia que a gente tem hoje”, afirma. A janela de 2031 corresponde a um alinhamento mais favorável entre a Terra e Marte, condição essencial para aproveitar ao máximo o novo trajeto.

Hoje, a rota convencional para uma missão completa, incluindo ida, permanência e retorno, costuma ser planejada para durar entre dois e três anos. A limitação não é apenas tecnológica, mas também orbital: as janelas ideais de lançamento se repetem a cada 26 meses, quando os dois planetas se aproximam. O modelo proposto por Souza reduz esse tempo total para algo entre 153 dias, em um cenário extremo, e 226 dias, cerca de sete meses, com parâmetros mais conservadores.

O que muda para missões humanas e o papel do Brasil

Reduzir pela metade, ou mais, a duração de uma viagem a Marte tem impacto direto na segurança e no custo de qualquer missão tripulada. Quanto menor o tempo no espaço, menor a exposição de astronautas à radiação cósmica, às variações extremas de temperatura e aos efeitos da microgravidade sobre ossos, músculos e sistema cardiovascular. Menos tempo também significa menos carga de comida, água e equipamentos de suporte à vida, o que reduz o peso dos foguetes e o orçamento de cada operação.

A nova rota se encaixa em um momento em que grandes programas, como o Artemis, da Nasa, começam a testar tecnologias que podem servir como ponte para Marte. A cápsula Orion, por exemplo, acaba de levar quatro astronautas a um recorde de distância da Terra, chegando a 406.777 quilômetros, em missão que mira o retorno sustentável à Lua. A própria agência americana considera o satélite natural como possível “base” futura para saltos a destinos mais distantes.

Ao propor um caminho mais rápido com a tecnologia atual, sem exigir motores revolucionários ou combustíveis exóticos, o trabalho de Souza aponta uma alternativa pragmática para o planejamento de missões nas próximas décadas. Em vez de esperar por um avanço de propulsão, agências podem explorar de forma mais sofisticada a dinâmica já conhecida do Sistema Solar, apoiadas agora por algoritmos de inteligência artificial.

O estudo também recoloca o Brasil no debate sobre exploração interplanetária. O país participa de projetos pontuais, como satélites e missões de observação, e planeja um satélite nacional para uma missão ousada ao polo sul lunar. Ainda assim, raramente aparece associado a propostas que mudam a forma de ir além da órbita baixa da Terra. Um professor de universidade estadual no interior fluminense, sem orçamento bilionário nem estrutura de agência, passa a ser citado em discussões sobre como encurtar a viagem ao planeta vizinho.

Janela de 2031, colaboração internacional e próximos passos

A próxima posição favorável entre Terra e Marte para aplicar a rota projetada por Souza ocorre em 2031. Até lá, agências espaciais e empresas privadas terão tempo para avaliar a viabilidade de adaptar seus planos de missão aos corredores geométricos sugeridos pelo estudo. Simulações adicionais, com modelos independentes, devem testar a robustez das trajetórias em diferentes cenários de massa, carga útil e tipo de propulsão.

Se as previsões se confirmam, a pesquisa pode influenciar o desenho de missões planejadas para a década de 2030, fase em que Nasa, ESA, China e outros atores cogitam enviar as primeiras tripulações a Marte. Novos investimentos em inteligência artificial aplicada à dinâmica orbital tendem a surgir, abrindo nichos para universidades e centros de pesquisa brasileiros em um campo hoje dominado por poucos países.

Souza segue trabalhando a partir de Campos dos Goytacazes, afinando modelos e discutindo colaborações. A trajetória do asteroide que inspirou o estudo ainda deve render novos cálculos, agora com mais potência computacional e interesse internacional. Enquanto o artigo técnico avança pelo crivo da comunidade científica, a pergunta passa a ser menos se o Brasil pode contribuir para a ida a Marte e mais quanto dessa nova rota o mundo estará disposto a seguir.

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