Brasileira testa em humanos molécula que faz medula voltar a se conectar
A bióloga Tatiana Sampaio, da UFRJ, inicia em janeiro de 2026 os primeiros testes clínicos em humanos com a polilaminina, molécula sintética que estimula a regeneração de conexões nervosas em lesões de medula. O estudo tenta transformar em tratamento uma pesquisa iniciada em 1998 e reacende a esperança de pacientes paralisados.
Da bancada à beira do leito
A polilaminina nasce de um lugar improvável: a placenta humana, material que costuma ir para o lixo após o parto. A equipe de Tatiana extrai da placenta uma proteína chamada laminina, presente naturalmente no organismo, responsável por ajudar neurônios a se fixarem e criarem conexões. Em laboratório, esse modelo ganha uma versão sintética, estável e padronizada, batizada de polilaminina.
O que hoje chega ao estágio de teste em humanos começa há 28 anos, em 1998, quando a jovem pesquisadora carioca assume o desafio de entender como o tecido que envolve e protege células nervosas pode ser usado a favor da regeneração. Na época, lesão na medula espinhal significa, na prática, uma sentença quase definitiva de paralisia. Tratamentos existentes limitam-se a estabilizar o quadro e prevenir novas complicações, sem devolver movimentos perdidos.
Ao longo de duas décadas, o grupo do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ testa combinações, dosagens e formatos de aplicação da nova molécula em diferentes modelos experimentais. A aposta é simples de explicar e difícil de executar: criar um “andaime” químico que incentive nervos lesionados a se reconectarem, restabelecendo a comunicação entre cérebro e músculos.
As primeiras evidências em humanos surgem com um estudo pioneiro em oito pacientes paraplégicos e tetraplégicos. A aplicação da polilaminina, diretamente na região lesionada da medula, resulta em recuperação de movimentos em seis deles. Um caso chama atenção da comunidade médica: um paciente paralisado do ombro para baixo volta a andar sozinho após o tratamento, depois de anos sem qualquer perspectiva de melhora.
O resultado, ainda experimental, rompe a ideia de que o dano medular é sempre irreversível. A partir daí, Tatiana torna-se referência nacional em medicina regenerativa e passa a conviver com uma rotina em que a fila de pedidos de ajuda cresce mais rápido que os recursos disponíveis para pesquisa.
Impacto clínico e disputa por futuro
A autorização da Anvisa, em janeiro de 2026, destrava a etapa decisiva: o ensaio clínico formal para avaliar a segurança do uso da polilaminina em lesões de medula espinhal ou coluna vertebral. Na primeira fase, o estudo inclui cinco pacientes voluntários, com diferentes graus de paralisia. Neles, os médicos aplicam o medicamento na área lesionada e acompanham, por meses, qualquer sinal de ganho motor, sensitivo ou de controle de esfíncteres, além de efeitos adversos.
O desenho do estudo é mais prudente do que a euforia que cerca o tema. A prioridade inicial é mostrar que a molécula pode ser usada com segurança em humanos, antes de medir com precisão o quanto cada paciente recupera de movimento. Ainda assim, o histórico dos oito casos anteriores, fora do protocolo regulatório atual, pesa nas expectativas de pacientes e de equipes médicas.
Em 2023, a descoberta já rende frutos financeiros concretos. De acordo com a Agência Brasil, a UFRJ recebe R$ 3 milhões em royalties pela tecnologia, valor dividido entre os inventores, a universidade e o Instituto de Ciências Biomédicas. É o maior montante em royalties já registrado pela instituição até então e se torna exemplo raro de pesquisa de base que chega à etapa de inovação com impacto econômico mensurável dentro de uma universidade pública.
O dinheiro contrasta com os cortes que marcam a trajetória do projeto. Tatiana relata que, no caminho, o Brasil perde a patente internacional da polilaminina, justamente em um momento de aperto orçamentário. A lacuna abre espaço para que outros países tentem desenvolver moléculas semelhantes e disputar um mercado global bilionário em terapias regenerativas.
A parceria com o laboratório farmacêutico Cristália e o apoio da FAPERJ ajudam a manter a pesquisa de pé. O arranjo ilustra um movimento crescente em que empresas apostam mais cedo em projetos universitários, em troca de participação na exploração comercial de futuros medicamentos. Nesse modelo, o país ganha em transferência de tecnologia e formação de mão de obra especializada, mas corre o risco de ver descobertas estratégicas escaparem para fora se o financiamento público não acompanha.
A trajetória de Tatiana também simboliza um processo mais lento, porém consistente, de construção de autoridade científica feminina no Brasil. Apaixonada por ciência desde criança, ela escolhe Ciências Biológicas na UFRJ, faz mestrado, doutorado e dois pós-doutorados, na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, e na Universidade de Erlangen-Nuremberg, na Alemanha. Aos 27 anos, volta como professora da casa onde se formou e passa a orientar novas gerações de pesquisadores, em um ambiente ainda marcado pela falta de recursos e pela predominância masculina em cargos de maior prestígio.
O que pode mudar para pacientes e para a ciência brasileira
Se os estudos com a polilaminina confirmam segurança e eficácia, o impacto sobre a vida de pessoas com lesões medulares é direto. No Brasil, acidentes de trânsito, quedas e ferimentos por arma de fogo respondem por milhares de novos casos de lesão de medula por ano. A maioria atinge adultos jovens, muitas vezes únicos provedores de renda na família, que passam a depender de cadeiras de rodas, adaptações de casa e sistemas de apoio social que raramente dão conta de toda a demanda.
Um medicamento capaz de restaurar parte dos movimentos muda não só a rotina física desses pacientes, mas também o custo social e econômico da paralisia. Ganhar a capacidade de ficar em pé, mover as mãos ou recuperar algum controle sobre bexiga e intestino significa mais autonomia, menos internações, menos complicações e maior chance de retorno ao trabalho. Para o sistema de saúde, isso representa menos gastos de longo prazo com infecções recorrentes, úlceras de pressão e reabilitação interminável.
O alcance da pesquisa de Tatiana já começa a extrapolar o campo da neurologia humana. Aos 59 anos, ela lidera também um estudo com cães para avaliar os efeitos da polilaminina em lesões crônicas, em parceria com a Cellen, empresa da qual é sócia e consultora científica e que produz células-tronco para uso veterinário. Em clínicas especializadas, tutores de animais com hérnias de disco e paralisias de membros traseiros acompanham com atenção cada novo dado divulgado.
O avanço da polilaminina cria ainda um efeito colateral positivo: fortalece a ideia de que pesquisa de longo prazo, iniciada sem garantia de aplicação imediata, pode virar inovação concreta dentro do país. Em vez de importar soluções prontas a preços altos, o Brasil passa a disputar espaço em um campo de fronteira da biotecnologia, com potencial de atrair parcerias internacionais e investimentos em novos centros de pesquisa.
O contraste entre os R$ 3 milhões em royalties e a perda da patente internacional expõe um dilema conhecido da ciência brasileira. O país forma pesquisadores capazes de produzir conhecimento de ponta, mas oscila no compromisso de proteger e escalar essas descobertas. A história da polilaminina tende a se tornar estudo de caso sobre como políticas de propriedade intelectual, financiamento estável e planejamento de longo prazo podem determinar se uma inovação permanece como orgulho nacional ou se dilui em laboratórios estrangeiros.
Enquanto os cinco primeiros voluntários recebem a molécula em ambiente controlado, a pergunta que ecoa fora dos hospitais é quanto tempo esse possível tratamento leva para sair do campo experimental e chegar à rede pública. Nesse intervalo, Tatiana segue entre a bancada, o centro cirúrgico e reuniões com agências de fomento, tentando garantir que a molécula que reconecta neurônios também ajude a religar o Brasil a um projeto consistente de ciência e tecnologia.
