Brasil perde da França com um a mais e liga alerta para 2026
A seleção brasileira perde da França por 2 a 1, em amistoso em Boston, nesta noite, mesmo com um jogador a mais por 41 minutos. O resultado expõe desorganização tática, vaias da torcida e pressão imediata sobre o trabalho de Carlo Ancelotti às vésperas da Copa de 2026.
Fracasso em teste de luxo às vésperas do Mundial
O Gillette Stadium, em Boston, recebe 66 mil torcedores e clima de Copa do Mundo. A Nike, fornecedora de material esportivo de Brasil e França, transforma o amistoso em vitrine global a 76 dias do início do Mundial de 2026. Em campo, porém, a seleção de Ancelotti falha no principal objetivo da noite: mostrar que está pronta para competir com as potências europeias.
A França, mesmo sem quatro titulares — Koundé, Barcola, Saliba e Koné, todos lesionados — domina a maior parte do jogo. Controla o meio-campo, dita o ritmo e expõe o desentrosamento brasileiro. O Brasil, que não conta com Bruno Guimarães, Estêvão, Alisson, Alex Sandro, Gabriel Magalhães e Marquinhos, sofre para trocar passes sob pressão e perde o setor em que as grandes seleções decidem partidas.
Ancelotti tenta ser ousado. Escala quatro jogadores ofensivos de início: Raphinha, Matheus Cunha, Martinelli e Vinicius Júnior. A aposta deixa o time leve no papel, mas vazio no miolo. As intermediárias passam a ser território francês. A marcação alta de Didier Deschamps aperta a saída de bola brasileira, força erros sucessivos e abre espaços para Dembélé, Mbappé e Olise circularem com liberdade.
O castigo chega aos 31 minutos do primeiro tempo. Casemiro, pressionado perto da área, tenta um giro arriscado, perde a bola para Dembélé e vê Mbappé disparar em profundidade. O craque francês entra na área e toca por cobertura sobre Ederson, que salta desesperado. O 1 a 0 traduz o que se vê até ali: uma França formada, segura, contra um Brasil que ainda procura sua identidade.
Um a mais em campo, um a menos em ideias
O cenário parece mudar logo no início da segunda etapa. Aos nove minutos, Upamecano, zagueiro do Bayern de Munique, comete falta em Wesley como último homem. Infantil na dividida, chega atrasado e derruba o brasileiro. O árbitro mostra o cartão vermelho, corretamente. A França fica com dez, o Brasil tem 41 minutos com um jogador a mais para reagir.
A vantagem numérica não se traduz em controle. Em vez de atacar com paciência e amplitude, o Brasil se desorganiza. A França, mesmo desfalcada e em inferioridade, segue trocando passes com tranquilidade. Em determinado momento, chega a ter 73% de posse de bola, contra 27% da seleção brasileira, um dado que beira o inaceitável para o futebol atual. Com um a menos, os franceses finalizam melhor, ocupam os espaços e ditam o ritmo.
O domínio se confirma no placar aos 19 minutos do segundo tempo. Em jogada que simboliza a diferença de entrosamento, a França costura uma troca de passes rápida até a entrada da área. Olise, o melhor em campo, encontra Ekitiké com um passe preciso. O atacante, também com uma cavadinha, vence Ederson e faz 2 a 0. Aplaudidos, os franceses parecem disputar final de torneio, não um amistoso de meio de ano.
Do outro lado, a torcida brasileira se impacienta. Vaias ecoam das arquibancadas enquanto o coro por Neymar cresce. O atacante, em recuperação e ainda cercado de dúvidas físicas, não entra em campo, mas é personagem indireto da noite. A seleção que tenta aprender a jogar sem ele mostra pouca criatividade. Vinicius Júnior se isola, bem marcado e mais individualista. Martinelli e Matheus Cunha quase não participam. Raphinha sai machucado. Luiz Henrique entra, causa alguma preocupação à defesa rival por dez minutos, depois se apaga.
O gol brasileiro nasce de onde o time menos constrói: da bola parada. Aos 32 minutos, Bremer aproveita falha de posicionamento da defesa francesa e diminui para 2 a 1. O placar fica menos duro, mas não muda a sensação de superioridade da França. Com dez em campo, os europeus recuam de forma organizada, preenchem os espaços e travam um Brasil ansioso e pouco consciente com a bola.
Ancelotti minimiza, França se afirma e pressão aumenta
O apito final traz imagens opostas. Os jogadores brasileiros deixam o gramado cabisbaixos, sob vaias. Do outro lado, os companheiros de Mbappé sorriem e se abraçam. A terceira derrota de Ancelotti no comando da seleção não é só um tropeço em amistoso. É um choque de realidade contra um adversário direto na briga pelo título de 2026.
Na entrevista após o jogo, Ancelotti surpreende ao equilibrar autocrítica e complacência. “Quando se perde um jogo, nunca se está contente. O resultado não mostra o que fizemos bem”, afirma. Em seguida, solta a frase que incomoda parte da torcida: “No contexto geral do jogo, estou satisfeito, porque a equipe competiu, lutou, com boas jogadas, teve boas oportunidades, bola parada, que é importante”.
O técnico destaca o caráter experimental da equipe. “A equipe era bastante nova, com jogadores que não têm costume de jogar juntos. Faltavam muitos jogadores de defesa. Acho que a nível defensivo, Bremer e Léo jogaram muito bem. Com bola, temos que trabalhar as combinações”, reconhece. Em nenhum momento, porém, menciona de forma direta a vantagem numérica após a expulsão de Upamecano.
Ao projetar o Mundial, mantém o discurso confiante. “Acho que o jogo de hoje deixa muito claro para mim: podemos competir com as melhores equipes do mundo. Não tenho nenhuma dúvida. Olhando o jogo de hoje, jogamos contra uma equipe muito forte, de muita qualidade, competimos até o último minuto para tentar ganhar o jogo. Estou convencido que vamos brigar pela Copa do Mundo com toda a nossa energia…”, garante.
Mbappé tem leitura bem diferente para o lado francês. “Para nós, estava claro que não era um amistoso. Jogar contra o Brasil é uma oportunidade para qualquer seleção. Nós os respeitamos muito. E foi uma oportunidade para vermos onde estávamos, em termos de nível tático, técnico e até mesmo na intensidade de uma partida de alto nível”, diz o atacante. “Então, é ótimo jogar partidas como essa.”
O resultado alimenta a confiança francesa às vésperas do Mundial e amplia o debate interno no Brasil. A seleção volta para casa com mais perguntas do que respostas: como um time com um jogador a mais troca menos passes que o rival e passa boa parte do tempo sem a bola? Como corrigir, em pouco mais de dois meses, a distância de entrosamento mostrada em Boston?
O amistoso, vendido como teste de fogo, termina como alerta em letras grandes para a comissão técnica. A resposta virá nos próximos compromissos pré-Copa, quando Ancelotti precisará transformar discurso em desempenho. A derrota para uma França em dez reforça a sensação de que o tempo até 2026 parece mais curto do que indicam os calendários.
