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Brasil e México mantêm apoio a Bachelet para chefiar a ONU

Brasil e México decidem manter, neste sábado (28), o apoio à candidatura de Michelle Bachelet ao comando da ONU, apesar do recuo do novo governo chileno. A ex-presidente segue na disputa para se tornar a primeira mulher latino-americana à frente da organização.

Lula e Sheinbaum endurecem posição após recuo de Kast

O gesto conjunto de Brasília e Cidade do México vem depois que o presidente do Chile, José Antonio Kast, retira o patrocínio oficial à compatriota. O movimento chileno expõe a mudança de rumo diplomático em Santiago, agora sob um governo conservador, e força Bachelet a se descolar politicamente de seu país de origem.

Lula usa as redes sociais para cravar a posição brasileira. No fim da manhã deste sábado, o presidente afirma que o país “continuará a apoiar, em conjunto com o México, a candidatura de Michelle Bachelet ao cargo de Secretária-Geral da ONU”. Ele descreve a ex-presidenta como “altamente qualificada” e com “o melhor currículo para a função”.

O petista destaca a trajetória da chilena, que governa o país duas vezes, chefiando o Palácio de La Moneda entre 2006 e 2010 e de 2014 a 2018. Lula também lembra a passagem de Bachelet por dois dos cargos mais sensíveis do sistema multilateral: alta comissária da ONU para os direitos humanos, em Genebra, e diretora executiva da ONU Mulheres, em Nova York.

No México, a chefe de governo Claudia Sheinbaum confirma, na quarta-feira (25), que não recua. Em coletiva no Palácio Nacional, ela declara que considera Bachelet “a pessoa ideal para liderar as Nações Unidas” e ressalta que a chilena tem “uma visão para a reconstrução das Nações Unidas como um órgão internacional de resolução de conflitos”.

Bachelet segue candidatura independente e testa liderança regional

O recuo chileno ocorre poucas semanas após a posse de Kast, que critica o fato de a candidatura ter sido lançada no fim do governo Gabriel Boric, sem negociação prévia com a nova gestão. A equipe do presidente conservador vinha pedindo uma conversa presencial com Lula e Sheinbaum para discutir o quadro, como relatado nos bastidores da diplomacia sul-americana.

Bachelet reage na terça-feira (24) e avisa que permanece na corrida, agora em condição mais autônoma em relação a Santiago. “Continuarei o trabalho conjunto com os governos do Brasil e do México, que postularam meu nome, reafirmando a natureza coletiva deste projeto”, afirma a ex-presidente, em nota. A declaração tenta blindar a campanha de disputas domésticas chilenas e reforça a aposta em uma coalizão regional ampliada.

A candidatura de Bachelet nasce como símbolo de duas agendas que o Itamaraty tenta projetar desde o retorno de Lula ao Planalto, em 2023: maior protagonismo do Sul Global na governança internacional e defesa da igualdade de gênero em cargos de comando. Caso vença a disputa que se define no Conselho de Segurança até o fim do primeiro semestre de 2026, a chilena assumirá o cargo em 1º de janeiro de 2027, no lugar do português António Guterres.

A movimentação ocorre em meio a uma corrida fragmentada. A Assembleia-Geral informa, na quinta-feira (26), que o governo das Maldivas retira o apoio à diplomata argentina Virginia Gamba, reduzindo a quatro o número de candidaturas ativas. Interlocutores do governo brasileiro, porém, avaliam que a lista deve crescer “até a última hora”, com novas postulações surgindo antes do primeiro debate oficial.

A ONU agenda para 20 de abril, em Nova York, o primeiro encontro público entre os candidatos. O debate funciona como vitrine global e como termômetro interno para membros permanentes e rotativos do Conselho de Segurança, que concentram o poder de bloquear ou destravar nomes. A expectativa em Brasília é que, até essa data, Brasil e México consigam costurar apoios na África, na Ásia e em parte da União Europeia.

Disputa expõe redes de alianças e o papel do Brasil na ONU

A decisão de Lula e Sheinbaum de sustentar a mesma candidata, mesmo após a saída de cena do Chile, redesenha o mapa de forças da América Latina na ONU. Brasil e México, as duas maiores economias da região, se colocam como fiadores de uma ex-presidente que já não fala em nome de seu governo nacional. O gesto projeta a imagem de uma candidatura “latino-americana” sem ser estritamente chilena.

A aposta também tem efeitos internos. Lula tenta cultivar uma relação pragmática com Kast depois de um início áspero, marcado pela ausência do brasileiro na posse do chileno, em março, e pelo convite estendido a Flávio Bolsonaro, seu provável adversário nas eleições presidenciais. Em carta posterior, o petista convida Kast a visitar Brasília e tenta baixar a temperatura, mesmo mantendo a divergência em torno de Bachelet.

Para o governo brasileiro, a retirada de Santiago deixa um vácuo que pode ser ocupado por outras potências interessadas em testar sua capacidade de influência no processo de escolha. A leitura em Brasília é que a manutenção do apoio funciona como credencial de liderança para o país em temas globais, da reforma do Conselho de Segurança à defesa dos direitos humanos.

Os desdobramentos vão além do simbolismo. Se Bachelet vence, Brasil e México passam a ter linha direta com a cúpula da ONU pelos próximos cinco anos, período padrão do mandato. A presença de uma mulher latino-americana no posto, pela primeira vez em quase 80 anos de história da organização, tende a fortalecer agendas de combate à desigualdade, à violência de gênero e à militarização de conflitos em áreas periféricas.

O recuo chileno, por sua vez, serve como alerta para a fragilidade dos consensos regionais. A guinada conservadora em Santiago rompe a frente original em torno da candidatura e sinaliza que mudanças de governo podem redesenhar alianças em questão de meses. Em outras capitais, possíveis concorrentes avaliam se vale a pena lançar novos nomes e transformar a sucessão de Guterres em uma prova de força entre diferentes blocos.

Corrida até o Conselho de Segurança e incertezas no horizonte

Diplomatas em Nova York e Brasília projetam um primeiro semestre de 2026 marcado por negociações discretas de bastidor. A meta de Bachelet é chegar a abril com uma rede sólida de apoios declarados e, até junho, consolidar uma maioria confortável no Conselho de Segurança, onde cinco países têm poder de veto. Até lá, cada declaração pública de líderes como Lula e Sheinbaum entra no cálculo dos demais integrantes.

A campanha também depende da disposição de Bachelet em se expor mais. Até aqui, a ex-presidenta aposta em pronunciamentos escritos e em aparições pontuais. Com o primeiro debate marcado para 20 de abril, ela será cobrada a detalhar como pretende lidar com guerras prolongadas, crises climáticas e contestação crescente ao multilateralismo. A forma como responderá a essas questões definirá se o apoio de Brasil e México será suficiente para levá-la ao topo da ONU ou se a região assistirá, mais uma vez, à vitória de um nome de fora do continente.

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