Brasil e França esvaziam Conselho de Paz de Trump em Davos
Brasil, França e outros governos recusam ou adiam, nesta quinta-feira (22), em Davos, o convite para integrar o Conselho de Paz idealizado por Donald Trump. A iniciativa nasce sob questionamentos jurídicos, políticos e de legitimidade internacional.
Conselho nasce sob desconfiança
O movimento de resistência se forma no mesmo dia em que Trump apresenta o conselho ao empresariado e a autoridades reunidas no Fórum Econômico Mundial, na Suíça. O republicano tenta projetar o grupo como nova plataforma de mediação para a guerra na Faixa de Gaza, mas encontra, já no lançamento, barreiras entre atores centrais da diplomacia global.
Governos como o brasileiro e o francês apontam duas linhas principais de preocupação. A primeira é o possível choque entre as atribuições do conselho e a Carta das Nações Unidas, que rege desde 1945 a ordem internacional e estabelece que o Conselho de Segurança da ONU é o foro máximo para decisões sobre guerra e paz. A segunda é a própria composição do grupo, que inclui o presidente russo, Vladimir Putin, isolado em boa parte das capitais ocidentais desde a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022.
A França indica de forma explícita que a carta constitutiva do Conselho de Paz não corresponde a nenhuma resolução aprovada em Nova York para a crise em Gaza. Nos bastidores, diplomatas franceses argumentam que aderir ao mecanismo significaria legitimar um atalho político liderado por Washington, por fora dos canais multilaterais, num momento em que a ONU tenta aprovar novas medidas humanitárias para a região. O governo Emmanuel Macron reforça que qualquer arranjo duradouro precisa ter lastro jurídico claro e aval coletivo.
No Brasil, o Planalto posterga a resposta. Segundo apuração de bastidores, a avaliação é que não há urgência em se comprometer com um desenho institucional ainda nebuloso. Assessores presidenciais relatam que o Itamaraty, a Secretaria de Assuntos Estratégicos e a equipe jurídica da Presidência cruzam, há dias, minutas do estatuto do conselho com dispositivos da Carta da ONU e com a Constituição brasileira, que impõe princípios como solução pacífica de controvérsias e respeito à autodeterminação dos povos.
Disputa por legitimidade em meio à guerra
O embate em torno do Conselho de Paz ocorre enquanto a guerra em Gaza se prolonga, com sucessivas denúncias de violações de direitos humanos e pressão por um cessar-fogo duradouro. Trump tenta ocupar esse vazio com uma estrutura paralela que, segundo ele, já “funciona maravilhosamente bem” e reúne um “ótimo grupo de pessoas”, como declarou durante cerimônia em Davos. Até agora, no entanto, o núcleo do conselho se apoia em um conjunto limitado de adesões.
A lista de países que aceitam integrar o grupo inclui Argentina, Arábia Saudita, Catar, Egito e Israel, todos com interesses diretos ou indiretos na equação política do Oriente Médio. A escolha dessa composição, centrada em aliados estratégicos dos Estados Unidos, reforça a percepção de que o organismo nasce mais como extensão da diplomacia americana do que como espaço plural de negociação. A presença de Israel, parte diretamente envolvida no conflito em Gaza, aumenta ainda mais a sensibilidade do desenho.
A logomarca do conselho, que lembra o emblema azul da ONU, mas coloca os Estados Unidos no centro do globo, alimenta o desconforto entre diplomatas acostumados à liturgia multilateral. Alguns veem na estética um recado político: a tentativa de reposicionar Washington como árbitro incontornável de crises internacionais, num momento em que sua influência é abertamente contestada por potências como China e Rússia. A associação visual com a ONU é interpretada, em parte, como apropriação simbólica de um capital de legitimidade que o novo organismo ainda não conquistou.
Ao recusar ou adiar o convite, países como Brasil e França sinalizam que não pretendem reforçar iniciativas que possam fragilizar o sistema multilateral já existente. O gesto tem peso especial porque ambas as nações se vendem, há décadas, como defensoras de reformas na governança global, e não de sua substituição por estruturas ad hoc, criadas sob liderança exclusiva de uma potência. Nessa leitura, aderir ao conselho significaria convalidar uma rota alternativa sem garantias mínimas de transparência, prestacão de contas ou representatividade.
Reações, riscos e próximos passos
A controvérsia em torno do Conselho de Paz deve repercutir nas próximas semanas em ao menos três frentes. A primeira é a diplomática, com possíveis pressões bilaterais para que governos hesitantes revejam sua posição. O Brasil, que em 2025 ocupou assento rotativo no Conselho de Segurança da ONU, volta a ser cortejado como peça-chave para conferir peso político a qualquer arranjo de paz. A decisão de adiar a resposta funciona, na prática, como forma de ganhar tempo e medir o custo de imagem de cada escolha.
A segunda frente é jurídica. Especialistas em direito internacional alertam que a coexistência de múltiplos fóruns de negociação não é, por si só, ilegal. O problema surge quando acordos firmados em estruturas paralelas colidem com resoluções em vigor ou esvaziam instrumentos como sanções, embargos ou investigações autorizadas pela ONU. Em linguagem simples, o risco é que conselhos autônomos se tornem atalhos para driblar regras comuns, criando um mosaico de decisões conflitantes e alimentando insegurança para Estados e empresas que operam em zonas de guerra.
A terceira frente é a política. Ao colocar Vladimir Putin na mesma mesa de negociações de países aliados dos EUA, o conselho cristaliza uma foto diplomática que muitos governos ainda evitam. Desde 2022, mais de 140 países na Assembleia-Geral da ONU condenam, ao menos em duas resoluções, a invasão russa da Ucrânia. Manter distância de fóruns que dão protagonismo a Moscou é, para várias capitais, questão de coerência com essas posições já registradas em voto aberto.
A reação ao Conselho de Paz também reabre o debate sobre o papel dos Estados Unidos na mediação de conflitos internacionais. O país segue com peso militar e econômico sem paralelo, mas enfrenta competição intensa na arena diplomática. Iniciativas como a do ex-presidente americano são vistas, por diferentes analistas, como tentativa de reocupar esse espaço por fora das estruturas tradicionais, criando formatos em que Washington define a pauta, escolhe os participantes e controla a narrativa.
Nos bastidores de Davos, a avaliação de diplomatas ouvidos sob condição de anonimato é que o conselho só ganhará tração real se conseguir ampliar o número de membros para além do círculo imediato de aliados e parceiros estratégicos. Sem a adesão de atores como Brasil, França, Índia, África do Sul ou Indonésia, tende a ser percebido mais como coalizão de conveniência do que como instância ampla de negociação. A ausência de chancela da ONU, por enquanto, mantém a iniciativa no campo da diplomacia paralela, com capacidade limitada de impor acordos duradouros.
As próximas semanas devem ser decisivas para definir o tamanho político do Conselho de Paz. Se mais países seguirem o caminho de Brasil e França, recusando ou postergando o convite, o organismo corre o risco de nascer esvaziado, com impacto restrito à retórica. Caso Trump consiga atrair novas adesões e aproximar o conselho de decisões concretas sobre Gaza, a pressão para que governos hoje reticentes revejam sua posição tende a crescer. O impasse expõe uma pergunta central: quem tem legitimidade, em 2026, para falar em nome da paz quando as próprias regras do jogo global seguem em disputa?
