Brasil destrava exportação de carne bovina e amplia venda de suínos à Coreia do Sul
O governo Lula destrava em fevereiro de 2026 o processo para liberar a exportação de carne bovina e amplia a autorização para carne suína à Coreia do Sul. A decisão sai durante a visita oficial do presidente ao país asiático e abre uma nova frente para o agronegócio brasileiro em um dos mercados mais disputados do mundo.
Mercado asiático no centro da agenda
A ofensiva ocorre em Seul, durante a viagem presidencial que busca reforçar os laços comerciais entre Brasil e Coreia do Sul. A abertura da carne bovina e a ampliação da carne suína entram como ponto central da pauta econômica, ao lado de negociações em tecnologia e energia. A Coreia importa anualmente bilhões de dólares em proteína animal e se torna alvo estratégico do governo brasileiro.
Ao destravar o processo de licença sanitária para a carne bovina, o Brasil se aproxima de um mercado que, só em 2025, compra mais de 600 mil toneladas da proteína no exterior, com forte presença de Estados Unidos, Austrália e União Europeia. A ampliação da autorização para a carne suína reforça a tentativa de aumentar a fatia brasileira num segmento em que a Ásia já responde por mais de 60% do consumo global.
Impacto no agronegócio e na balança comercial
Nos cálculos do Planalto, a combinação de carne bovina e suína pode adicionar, em alguns anos, bilhões de dólares por ano às exportações do agronegócio, a depender da velocidade de credenciamento de frigoríficos e da reação dos importadores coreanos. Integrantes da comitiva avaliam que o novo acesso ao mercado asiático tende a reduzir a dependência de compradores tradicionais, como China e União Europeia, e a espalhar o risco comercial por diferentes destinos.
O impacto não se limita à pauta de exportações. A perspectiva de aumento da demanda externa pressiona o setor a investir em produtividade, rastreabilidade e certificações ambientais. O governo tenta associar a expansão a uma agenda de produção sustentável na Amazônia e no Cerrado, numa tentativa de blindar o país de críticas ambientais que travaram, em outros momentos, negociações com mercados exigentes.
Disputa por espaço e efeito em cadeia
No campo, a expectativa é de que o novo canal com a Coreia do Sul estimule a adoção de tecnologia, desde o manejo de pastagens até sistemas de monitoramento de emissões de carbono. Frigoríficos de médio e grande porte miram a habilitação para atender o mercado coreano, que paga prêmios por cortes padronizados e por garantia sanitária rigorosa. A cadeia de grãos também sente o movimento, já que a suinocultura depende diretamente de milho e soja para ração, o que pode impulsionar preços em regiões exportadoras.
A abertura tende a favorecer, sobretudo, estados já estruturados para exportação de proteína animal, como Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Produtores que conseguem comprovar boas práticas ambientais e sanitárias largam na frente. Pequenos e médios pecuaristas, por outro lado, podem enfrentar maior pressão para se adequar a exigências de controle de rebanho, bem-estar animal e documentação fundiária, sob risco de ficarem fora da nova rota comercial.
Relação bilateral ganha fôlego
A decisão de Seul de avançar com a carne bovina brasileira indica, também, uma mudança no patamar da relação bilateral. A Coreia do Sul já figura entre os dez maiores parceiros comerciais do Brasil, com corrente de comércio próxima de US$ 13 bilhões recentes, concentrada em minério de ferro, petróleo, celulose e produtos industriais. A entrada da carne abre espaço para novos acordos setoriais, inclusive em áreas de tecnologia para o campo e insumos agroindustriais.
Diplomatas envolvidos nas conversas apontam que a sinalização positiva da Coreia pode influenciar vizinhos na região a reavaliar barreiras sanitárias e tarifárias impostas a produtos brasileiros. No agronegócio, a leitura é que o movimento fortalece o país em uma disputa global por mercados que deve se intensificar na próxima década, com aumento da demanda por proteína de renda média asiática em expansão.
Próximos passos e desafios
Os acordos fechados em fevereiro de 2026 abrem a porta, mas não garantem o volume. O próximo passo é o credenciamento de plantas frigoríficas, inspeções técnicas e a negociação de cotas e tarifas. O Itamaraty e o Ministério da Agricultura trabalham com um horizonte de meses para que os primeiros embarques de carne bovina sejam concretizados, enquanto a carne suína, já autorizada, deve ampliar gradualmente sua participação nas compras coreanas.
Os desdobramentos internos dependem da capacidade do governo de alinhar discurso ambiental, previsibilidade regulatória e competitividade de custos. Agricultores e industriais sabem que a janela de oportunidade não é infinita: outros grandes exportadores também disputam espaço no prato do consumidor asiático. A viagem de Lula à Coreia do Sul marca um avanço, mas deixa uma pergunta em aberto: o Brasil conseguirá transformar a nova vitrine em presença duradoura e de alto valor agregado nas gôndolas coreanas?
