Ciencia e Tecnologia

Brasil confirma raro campo de tectitos criado por impacto há 6,3 mi de anos

Um estudo liderado pelo geólogo Álvaro Crósta, da Unicamp, confirma em janeiro de 2026 a existência de um raro campo de tectitos no norte de Minas Gerais. Os vidros naturais, batizados de geraisitos, se formam após o impacto de um meteorito há 6,3 milhões de anos e hoje se espalham por uma faixa de cerca de 900 quilômetros.

Do quintal à Geology: a história de uma colisão esquecida

A confirmação científica não nasce em um grande observatório, mas no quintal de um morador da zona rural, perto da divisa entre Minas Gerais e Bahia. Ele recolhe pedras escuras, brilhantes, de formas arredondadas, e estranha a aparência. Pesquisa na internet, encontra imagens de tectitos, nota a semelhança e decide escrever para a Unicamp.

O e-mail chega ao grupo de pesquisa de crateras de impacto da universidade, chefiado por Crósta. A reação é cautelosa. Em tempos de comércio online, o risco de material comprado em outro país não é pequeno. “A nossa primeira reação aqui foi ficar um pouco desconfiado… hoje com internet tem muita história falsa”, relata o pesquisador em entrevista à TV Unicamp.

A dúvida começa a ruir quando, semanas depois, um segundo morador da região, que vive a cerca de 40 quilômetros do primeiro, entra em contato com o mesmo tipo de relato. Ele também encontra vidros estranhos em sua propriedade e procura a equipe. Dois achados independentes, em locais diferentes, já não parecem coincidência.

Os geólogos saem a campo com sacos, martelos e GPS. Recolhem amostras, anotam coordenadas, conversam com famílias rurais. O que volta para o laboratório não é souvenir exótico. São fragmentos de vidro natural, formados pelo derretimento de rochas locais sob temperatura de milhares de graus, lançados na atmosfera e resfriados em queda livre.

O trabalho segue por meses, com análises químicas e estruturais detalhadas, em parceria com laboratórios internacionais. A composição dos vidros, sua textura e o formato aerodinâmico — em gotas, discos e halteres — apontam para um mesmo cenário: o impacto violento de um grande asteroide em solo brasileiro. Em dezembro de 2025, a equipe publica os resultados na revista científica Geology e define oficialmente o sétimo campo de tectitos conhecido no planeta.

Os tectitos brasileiros recebem um nome que ancora a descoberta no território. São os geraisitos, referência ao Cerrado dos Gerais. Crósta compara o material aos moldavitos da Europa, formados a partir da cratera Ries, na Alemanha, há cerca de 15 milhões de anos. Como eles, os geraisitos são vitrificados, leves, resistentes e guardam a assinatura química da rocha original.

Impacto geológico e defesa planetária em foco

O campo de geraisitos se estende por aproximadamente 900 quilômetros, com registros já confirmados em Minas Gerais, Bahia e Piauí. Para lançar fragmentos a distâncias tão grandes, o asteroide precisa liberar energia comparável a dezenas de bombas nucleares. A cratera associada a esse evento deve ter vários quilômetros de diâmetro.

Até agora, essa cicatriz não aparece nos mapas. As nove crateras de impacto reconhecidas no Brasil são muito mais antigas que os 6,3 milhões de anos calculados para os geraisitos. A hipótese mais provável é que a estrutura esteja soterrada por sedimentos mais jovens ou tão erodida que não se destaca mais na superfície. A ausência de uma cratera visível transforma o interior do país em um quebra-cabeça geológico.

A descoberta vai além da curiosidade científica. Campos de tectitos funcionam como testemunhos de antigas colisões cósmicas e ajudam a estimar a frequência e a intensidade desses eventos. Esse tipo de dado interessa não só a geólogos, mas também a equipes que pensam defesa planetária e monitoramento de asteroides potencialmente perigosos.

O Brasil, muitas vezes visto apenas como observador nesse debate, entra no mapa global do tema com um caso concreto. Ao reconstruir um impacto relativamente recente em termos geológicos, a comunidade científica ganha parâmetros sobre como a crosta continental responde a choques de grande escala em latitudes tropicais. A informação alimenta modelos usados para prever danos em eventuais colisões futuras.

A repercussão da pesquisa já gera desdobramentos. O diretor do Serviço Geológico do Brasil procura a equipe da Unicamp depois de reconhecer um tectito similar encontrado na Bahia. O contato amplia a área de busca e mobiliza estruturas oficiais do Estado para apoiar a investigação. Na prática, órgãos de mapeamento geológico passam a olhar com mais atenção para anomalias de relevo e de subsuperfície no norte de Minas e arredores.

O achado também corrige expectativas. Quem imagina ter esbarrado em um bilhete premiado se decepciona. “A riqueza é muito mais científica do que financeira”, destaca Crósta. Ao contrário dos diamantes e de alguns meteoritos metálicos raros, tectitos não costumam alcançar valores capazes de mudar a vida de um proprietário rural. Em vez disso, viram peças de museu, material de tese e base para entender a evolução do planeta.

A caça à cratera perdida

O trabalho de campo agora entra em uma nova fase. A equipe planeja usar métodos geofísicos, como levantamentos gravimétricos e magnéticos, para sondar o subsolo em busca de uma estrutura circular enterrada. Dados de satélite, já comuns em mapeamentos agrícolas, ganham outra função: identificar depressões sutis ou arranjos de drenagem que possam trair a presença da cratera.

Moradores do norte de Minas, do oeste baiano e do sul do Piauí passam a integrar a linha de frente da pesquisa. Cada pedra incomum que chega às mãos dos cientistas ajuda a delimitar a extensão real do campo de geraisitos. A interação entre comunidade e universidade, que já inicia a história, tende a se intensificar com a repercussão da descoberta e com o interesse despertado pela reportagem da TV Unicamp.

Se a cratera for enfim localizada, o Brasil ganha um laboratório natural único, com idade, área de dispersão e preservação bem documentadas. Esse conjunto de dados pode atrair projetos internacionais, financiamento para infraestrutura científica e novos programas de formação em geociências e defesa planetária.

Enquanto a cicatriz do impacto permanece oculta, os vidros espalhados pelo Cerrado lembram que grandes colisões não são exclusividade de desertos remotos ou de outros continentes. A pergunta que move os pesquisadores agora é simples e ambiciosa: onde exatamente a Terra sangra, em silêncio, por um choque que muda para sempre a história geológica da região?

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