Bragantino multa Gustavo Marques por falas machistas e afasta zagueiro
O Red Bull Bragantino multa o zagueiro Gustavo Marques em 50% do salário e afasta o jogador da partida contra o Athletico, nesta quarta-feira (25), em Bragança Paulista. A punição vem após declarações machistas contra a árbitra Daiane Muniz, feitas em entrevista logo depois da eliminação para o São Paulo.
Entrevista em campo vira caso disciplinar
O caso explode no domingo, após a derrota que tira o Bragantino da competição estadual e expõe o time à pressão do torcedor. Ainda no gramado, Gustavo, de 24 anos, deixa a irritação com a arbitragem se transformar em ataque direto à presença de uma mulher no apito em jogos de grande apelo.
Em entrevista à TNT, o zagueiro questiona a escolha da Federação Paulista de Futebol para o clássico. “Primeiramente, eu quero falar da arbitragem porque não adianta a gente jogar contra São Paulo, Palmeiras, Corinthians e eles colocarem uma mulher para apitar um jogo desse tamanho”, dispara, atribuindo à árbitra a responsabilidade pela eliminação. “Era o sonho da gente chegar à semifinal ou até à final, mas ela acabou com o nosso jogo. Eu acho que a Federação Paulista tem que olhar para os jogos desse tamanho e não colocar uma mulher”, completa, antes de tentar suavizar o próprio discurso com o tradicional “todo respeito às mulheres do mundo”.
As imagens correm as redes sociais ainda na noite de domingo. Enquanto Daiane Muniz recebe elogios públicos pelo desempenho em campo, as falas do defensor ganham reprovação imediata de torcedores, jornalistas, entidades esportivas e movimentos de mulheres. O contraste entre a atuação segura da árbitra e o ataque de Gustavo amplia a repercussão. Em poucas horas, o caso deixa o universo do pós-jogo e entra no debate mais amplo sobre machismo estrutural no futebol brasileiro.
A direção do Bragantino reage já na segunda-feira (23) e, em comunicado nas redes sociais, anuncia a punição. “O Red Bull Bragantino informa que o zagueiro Gustavo Marques receberá uma multa de 50% do total de seus vencimentos em consequência das declarações machistas feitas contra a árbitra Daiane Muniz, após a partida contra o São Paulo. Ele também não será relacionado para o jogo contra o Athletico-PR, na quarta-feira”, diz a nota oficial.
Clube transforma punição em gesto social
A sanção financeira não fica restrita ao caixa interno do clube. O Bragantino decide destinar a totalidade do valor, equivalente a metade do salário mensal do zagueiro, para a ONG Rendar, organização que atende mulheres em situação de vulnerabilidade na região de Bragança Paulista. A direção aproveita o episódio para reforçar uma agenda de responsabilidade social que, segundo o clube, passa a ser intensificada após o caso.
“O valor da multa será destinado para a ONG Rendar, que cuida de mulheres em situação de vulnerabilidade na região bragantina. O Red Bull Bragantino mantém conversas com a própria ONG e com outras instituições de Bragança Paulista para que medidas sociais e educativas, que já acontecem ao longo do ano, sejam intensificadas e propagadas dentro do clube e em nossa sociedade”, acrescenta o comunicado. A escolha de uma entidade local, que atua diretamente com vítimas de violência e desigualdade de gênero, dá um contorno concreto à resposta do clube e distancia a medida de um mero gesto simbólico.
O afastamento de Gustavo da quarta rodada do Brasileirão de 2026, contra o Athletico, tem impacto esportivo imediato. O jogo começa às 19h desta quarta-feira (25), no estádio Cícero de Souza Marques, em Bragança Paulista, e vale pontos importantes na largada do campeonato. Sem o zagueiro, o técnico precisa reorganizar o sistema defensivo em meio à pressão por resultados e à cobrança pública por coerência disciplinar.
Os bastidores revelam uma cobrança forte também dentro de casa. O próprio jogador admite, em nova fala, que sente o peso da reprovação familiar. “Estou mal, triste. Minha esposa já me xingou, minha mãe já me xingou. Estou aqui para pedir perdão, estou sendo homem. Todo ser humano erra”, diz ele, em retratação posterior, na zona mista e nas redes sociais. O pedido de desculpas vem depois de o defensor procurar o vestiário da arbitragem para falar com Daiane e com a assistente, a quem se refere erroneamente como “Daniela”.
Machismo em campo e pressão por mudança
A repercussão nacional do episódio reacende um debate que ultrapassa o limite de Bragança Paulista. A presença feminina na arbitragem cresce no Brasil e no mundo há pelo menos duas décadas, com mulheres apitando finais de campeonatos nacionais, jogos de Libertadores e partidas de Copa do Mundo. Ainda assim, cenas de resistência e deslegitimação continuam frequentes, sobretudo quando decisões de campo contrariam interesses de grandes clubes.
No caso de Gustavo Marques, a crítica não recai sobre um lance específico, como o pênalti contestado pelo Bragantino no fim do jogo, mas sobre o simples fato de uma mulher comandar a partida. O recado implícito, de que duelos entre grandes equipes não seriam “lugar de mulher”, sintetiza o tipo de preconceito que dirigentes e federações dizem combater, enquanto tentam ampliar a participação feminina em diversas áreas do futebol.
A reação rápida do Bragantino sinaliza uma mudança de patamar na forma como clubes lidam com episódios de machismo, racismo e outras formas de discriminação. A multa de 50% do salário, somada à suspensão em um jogo de campeonato nacional, cria um precedente interno e pressiona outras instituições a abandonar respostas tímidas, baseadas apenas em notas de repúdio. A destinação do valor para uma ONG que atende mulheres reforça a tentativa de transformar um ato discriminatório em oportunidade de educação e reparação parcial.
O episódio também expõe a responsabilidade individual dos atletas em um ambiente de alta visibilidade. Jogadores que falam ao vivo para milhões de pessoas, em 2026, sabem que qualquer declaração repercute instantaneamente em múltiplas plataformas. A antiga ideia de que “no calor do jogo vale tudo” perde espaço diante do entendimento de que o discurso reproduz violências diárias contra mulheres, dentro e fora do esporte.
Pressão sobre clubes e futuro da arbitragem feminina
A partir desta semana, Gustavo Marques cumpre a suspensão interna e tenta reconstruir a própria imagem diante da torcida e dos colegas. O Bragantino, por sua vez, será cobrado para mostrar que o caso não se encerra na nota oficial. Programas educativos, ações com a base e diálogo permanente com entidades de defesa das mulheres entram no radar como forma de evitar que episódios semelhantes se repitam no elenco principal ou nas categorias inferiores.
A Federação Paulista e a CBF também entram na linha de frente do debate. A continuidade de árbitras em jogos decisivos, mesmo sob pressão e críticas machistas, vira indicador prático do compromisso das entidades com a igualdade de gênero. Enquanto Gustavo tenta transformar o pedido de perdão em mudança real de postura, o futebol brasileiro encara outra pergunta incômoda: quantos gestos firmes como o do Bragantino serão necessários até que a presença de mulheres no apito deixe de ser tratada como exceção e passe a ser apenas parte natural do jogo?
