Ultimas

Bolsonaro pede ao STF visita de Tarcísio na cela da Papuda

O ex-presidente Jair Bolsonaro pediu nesta terça-feira (19/1/2026) autorização ao Supremo Tribunal Federal (STF) para receber a visita do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, na unidade em que cumpre prisão preventiva, conhecida como Papudinha, em Brasília.

Solicitação reacende articulação entre aliados

O pedido chega ao STF pouco mais de um mês após a Corte autorizar uma visita semelhante, em dezembro, que acaba cancelada com a decretação da prisão preventiva do ex-presidente. Bolsonaro está detido em regime de custódia provisória, e qualquer encontro com lideranças políticas precisa passar pelo crivo do Supremo. A iniciativa busca retomar um canal direto de diálogo com Tarcísio, aliado de primeira hora e hoje uma das principais vitrines da direita no país.

A última reunião presencial entre os dois ocorre em setembro de 2025, antes da escalada da crise jurídica que atinge o ex-presidente. Desde então, o governador de São Paulo evita exposição direta em agendas com Bolsonaro, mas mantém gestos públicos de lealdade. Assessores dos dois lados descrevem a relação como estratégica, especialmente após as eleições municipais de 2024 e diante da antecipação das articulações para 2026.

STF no centro da disputa política

O pedido de visita é formalizado por meio de petição protocolada pela defesa de Bolsonaro no STF, em Brasília, na mesma data. O documento solicita autorização específica para a entrada de Tarcísio na ala conhecida como Papudinha, instalada no Complexo Penitenciário da Papuda, onde estão presos de maior repercussão política. O Supremo ainda não torna pública a íntegra da petição nem define prazo para analisar o requerimento, mas decisões semelhantes costumam ser avaliadas em poucos dias.

No entorno do tribunal, ministros avaliam com cautela encontros de figuras com peso eleitoral dentro de unidades prisionais. Interlocutores do STF lembram que a Lei de Execução Penal prevê visitas de familiares, advogados e pessoas autorizadas pela Justiça, mas não detalha situações envolvendo governadores e outros ocupantes de cargos de topo. Na prática, cada caso acaba decidido de forma individual, levando em conta o estágio das investigações e o risco de interferência em provas ou testemunhas.

A prisão preventiva de Bolsonaro, decretada no fim de 2025, reorganiza o tabuleiro da direita. A presença de Tarcísio nesse cenário tem dupla função: sinaliza fidelidade a seu padrinho político e, ao mesmo tempo, o mantém na linha de frente das negociações com o bolsonarismo. Dentro do Republicanos e de partidos próximos ao ex-presidente, o governador é citado como possível cabeça de chapa ou fiador de alianças em 2026, especialmente no eixo Sudeste.

Em reservado, aliados avaliam que uma eventual negativa do STF à visita reforçaria o discurso de perseguição que Bolsonaro adota desde o início das investigações. Uma autorização, por outro lado, poderia ser explorada como gesto de normalidade institucional, em que a Corte reconhece o direito de visita, mas preserva o controle sobre horários, duração do encontro e registro de entradas na unidade prisional.

Impacto em São Paulo e nas eleições de 2026

O movimento ocorre enquanto Tarcísio administra um estado que responde por cerca de 30% do PIB brasileiro e concentra mais de 45 milhões de habitantes. Qualquer aproximação explícita com Bolsonaro tem efeito direto nas alianças regionais e no humor de investidores e setores empresariais instalados em São Paulo. Integrantes do governo paulista avaliam que o gesto de visitar o ex-presidente, se autorizado, fala mais ao núcleo duro do bolsonarismo do que ao eleitorado de centro que o governador tenta preservar.

O cálculo eleitoral é evidente. Bolsonaro mantém forte influência sobre uma parcela expressiva do eleitorado paulista, que lhe garantiu votações acima de 55% em municípios estratégicos do interior em 2022. A manutenção do laço com esse público interessa diretamente a Tarcísio, seja para uma tentativa de reeleição ao Bandeirantes, seja para um salto em direção ao Planalto. A visita na Papudinha, caso ocorra, pode funcionar como imagem-síntese dessa aliança, num momento em que o ex-presidente está fisicamente afastado do palanque.

A repercussão também alcança o Congresso. Deputados e senadores ligados ao bolsonarismo avaliam que a movimentação abre espaço para outras solicitações de visitas de governadores, parlamentares e dirigentes partidários a Bolsonaro. Um aval do STF poderia criar um padrão informal de autorização para encontros políticos em ambiente de custódia preventiva, o que tende a provocar reações de setores que defendem maior isolamento de investigados com forte capital eleitoral.

Juristas ouvidos reservadamente por partidos veem risco de uso político de qualquer decisão. Uma negativa poderia ser lida como endurecimento da Corte e alimentaria críticas de abuso de poder. Uma autorização, se ampla, poderia ser questionada por suposta desigualdade de tratamento em relação a outros presos preventivos, sem acesso a autoridades de alto escalão. A discussão escapa, assim, do caso individual de Bolsonaro e toca o debate sobre limites entre Justiça criminal e articulação política.

O que o STF decide e o que vem a seguir

Cabem agora ao relator do caso e à Presidência do STF definir se a visita será autorizada, e em que condições. A Corte pode impor restrições de duração, proibir o ingresso de aparelhos eletrônicos e até determinar relatórios internos sobre o encontro. Em decisões anteriores, o Supremo adota postura de vigilância sobre encontros com alto potencial político dentro de unidades prisionais, ainda que reconheça o direito de visita em situações específicas.

Qualquer que seja o desfecho, o gesto volta a colocar Bolsonaro e Tarcísio lado a lado no noticiário nacional. Se o encontro ocorrer, aliados pretendem explorá-lo como prova de unidade e resistência em meio às investigações. Se a visita for barrada, a narrativa de cerco judicial tende a ganhar novo fôlego junto à base bolsonarista. A decisão do STF, mais do que definir uma agenda de algumas horas na Papudinha, ajuda a desenhar até onde a Justiça está disposta a permitir que a política circule pelos corredores da prisão em um ano que já se move em ritmo de campanha.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *