Bolsonarista planeja caminhada com pedra de 25 kg pelo “retorno” de Bolsonaro
Um homem que diz morar em Petrolina (PE) anuncia que vai caminhar rumo a Brasília com uma pedra de 25 quilos pendurada no pescoço, a partir de 22 de janeiro de 2026. O gesto, divulgado em vídeo nas redes sociais, é apresentado como “sacrifício” pela libertação e volta ao poder do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A ação pretende se somar à marcha liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).
Vídeo viraliza e associa fé, sacrifício e política
O homem surge no vídeo com uma pedra presa ao pescoço por uma corrente e afirma que saiu da chamada Serra da Santa, ponto de peregrinação em Petrolina. Ele explica que primeiro pretende viajar de moto ou carro até o local onde Nikolas Ferreira se encontra em seu trajeto até Brasília. A partir desse encontro, diz que seguirá a pé, mantendo o peso de cerca de 25 quilos apoiado sobre o peito e os ombros.
Nas imagens, o simpatizante bolsonarista declara que a pedra deveria trazer o nome de Jair Bolsonaro escrito na superfície e descreve o ato como oferta pessoal. “É um sacrifício, já estou acordando torto, mas é um sacrifício em prol da liberdade do nosso presidente Jair Bolsonaro”, afirma. Ele diz ter recebido a orientação durante uma vigília religiosa, quando um pastor teria pedido que fiéis carregassem pedras de 20 a 25 quilos com o nome do ex-presidente, presas ao pescoço.
O vídeo circula em grupos bolsonaristas e perfis políticos desde a noite de quarta-feira e ajuda a reforçar o clima de devoção em torno da figura de Bolsonaro. No registro, o homem também se dirige diretamente a Nikolas Ferreira. “Estou muito satisfeito com sua atitude, Nikolas. Uma atitude brilhante. Me manda sua localização para me encontrar com você”, diz. Até agora não há confirmação se ele já deixou Petrolina nem se o deputado respondeu ao pedido.
Bolsonaro cumpre pena de 27 anos e três meses de prisão na Papudinha, presídio do Distrito Federal, condenado por tentativa de golpe de Estado. Desde a sentença, em 2025, grupos de apoiadores organizam vigílias, carreatas, jejum coletivo e correntes de oração pela libertação do ex-mandatário. O gesto da pedra acrescenta um novo símbolo a esse repertório, mesclando elementos de penitência religiosa e mobilização política.
Caminhada de Nikolas reacende memória do 8 de Janeiro
Nikolas Ferreira decide ir a pé de Paracatu, no Triângulo Mineiro, até Brasília, em um percurso estimado em cerca de 240 quilômetros. O deputado descreve a iniciativa como ato pacífico, batizado de “Acorda, Brasil”, e a apresenta como forma de pressionar pela soltura de Bolsonaro e pela “reversão das injustiças” que, segundo ele, atingem a direita no país. O grupo já ultrapassa 100 quilômetros de estrada percorridos e na noite desta quarta-feira, 21 de janeiro, dorme em Cristalina (GO).
Ao longo do trajeto, apoiadores, influenciadores e outros políticos se somam à comitiva. Parlamentares como Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) anunciam presença para, nas palavras dele, “fortalecer e deixar recado”. Do outro lado, críticos como o ex-deputado Alexandre Frota usam as redes para ironizar a mobilização; ele chama o percurso de “caminhada do Flamengo”, numa tentativa de associá-lo a torcidas organizadas e espetáculos de massa.
O ato final está marcado para o domingo, 25 de janeiro, em Brasília. Organizações bolsonaristas convocam concentração às 12h na Praça do Cruzeiro, a cerca de 6 quilômetros da Praça dos Três Poderes. O local fica próximo ao Memorial JK, dedicado ao ex-presidente Juscelino Kubitschek, e já recebe, desde os últimos anos, eventos cívicos e religiosos de grande porte. A escolha da área, distante dos prédios dos três Poderes, tenta afastar qualquer associação direta com a depredação de 8 de janeiro de 2023, mas a memória daquele dia segue como pano de fundo das convocatórias.
Nos vídeos de convocação, frases como “Acorda, Brasil” e “Liberdade para Bolsonaro” aparecem lado a lado com referências religiosas e convites à “batalha espiritual”. A proposta do homem de Petrolina de multiplicar o gesto da pedra em larga escala, com “milhões de apoiadores”, ecoa esse mesmo tom. “Com reza não dá jeito, oração não dá jeito, caminhada, sem a pedra, não dá jeito”, diz ele, defendendo que o sacrifício físico seria condição para o retorno do ex-presidente ao Planalto.
Símbolo de sacrifício amplia tensão e uso da fé na política
Especialistas em religião e política apontam que atos de sacrifício corporal, como jejuns prolongados ou caminhadas penosas, não são novos no cenário brasileiro. A diferença agora está na associação explícita entre penitência pessoal e defesa de um político específico, condenado por tentativa de golpe. No caso da pedra de 25 quilos, a orientação parte de um pastor durante uma vigília e se conecta diretamente a uma agenda de pressão institucional.
A presença desse tipo de gesto em manifestações bolsonaristas indica um patamar mais profundo de engajamento, em que o sofrimento físico é apresentado como ferramenta de mobilização. Em vez de apenas orar, o homem de Petrolina exibe o próprio corpo como palco do protesto e sugere que só um ato coletivo semelhante, “com milhões de apoiadores”, teria força para reverter a situação jurídica de Bolsonaro. O discurso mistura linguagem religiosa, promessa de milagre político e desafio à ordem institucional consolidada após 8 de Janeiro.
Para grupos alinhados ao ex-presidente, a caminhada de Nikolas e o sacrifício da pedra funcionam como resposta simbólica às condenações impostas pelo Judiciário desde 2023. A cada nova decisão judicial, cresce a retórica de perseguição e injustiça, frequentemente reforçada em cultos e lives. A peça central dessa narrativa é a figura de Bolsonaro como mártir político, alguém que, na visão de seus apoiadores, paga com a liberdade por ter enfrentado o sistema.
Para críticos e autoridades, gestos como o da pedra reacendem alertas. O cruzamento entre fé, culto à personalidade e contestação de decisões judiciais lembra o clima que antecedeu as invasões e depredações de 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes golpistas atacaram o Congresso, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto. A diferença é que agora o discurso busca se amparar em símbolos de penitência, numa tentativa de afastar a imagem de violência aberta e substituir tanques imaginários por rituais de sacrifício.
Próximos passos e disputa pelo imaginário bolsonarista
Até o momento, o próprio Nikolas Ferreira não comenta publicamente o vídeo do homem de Petrolina nem incentiva explicitamente a reprodução do gesto. A ausência de resposta não impede, porém, que o caso circule como exemplo de “compromisso máximo” nas redes alinhadas ao deputado. Se a imagem do apoiador caminhando com a pedra chegar à cobertura ao vivo da chegada da marcha a Brasília, ganhará novo patamar e pode incentivar atos semelhantes em outros estados.
As próximas semanas devem mostrar se o sacrifício da pedra permanece como episódio isolado ou se vira ritual de massa nas manifestações em defesa de Bolsonaro. O cenário eleitoral de 2026, com a direita dividida entre diferentes lideranças e partidos, tende a transformar símbolos fortes em moeda política rara. A forma como o bolsonarismo vai lidar com esse gesto, se o incorpora ou se tenta moderar a narrativa, ajuda a indicar até onde o movimento está disposto a ir na fusão entre fé, política e desafio às instituições.
