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Bodo/Glimt atropela City, faz história e ameaça vaga inglesa

O Bodo/Glimt vence o Manchester City por 3 a 1 nesta terça (20), na Noruega, e conquista a primeira vitória de sua história na fase principal da Champions League. O resultado, pela 7ª rodada da fase de liga, expõe uma defesa inglesa desfalcada, a expulsão do capitão Rodri e deixa o time de Pep Guardiola sob risco na briga por vaga no mata-mata.

Uma noite gelada que entra para a história

O Estádio Aspmyra, com menos de 10 mil lugares e gramado sintético para enfrentar o inverno norueguês, vira o centro do futebol europeu por 90 minutos. Ali, um clube que encerra o Campeonato Norueguês no início de dezembro, tem elenco em férias e volta a treinar apenas para encarar o atual campeão inglês derruba o favorito e reescreve a própria história continental.

Hogh, camisa 9, marca duas vezes em dois minutos, ainda no primeiro tempo, e abre o caminho da vitória. Hauge, em chute no ângulo aos 12 do segundo tempo, amplia e transforma a noite em façanha. Cherki, em finalização de fora da área, desconta logo depois, mas não altera o roteiro de um City nervoso, pouco criativo e incapaz de reagir com um jogador a menos após a expulsão de Rodri.

O placar de 3 a 1 impulsiona o Bodo a 6 pontos e à 26ª posição na tabela da fase de liga, mantendo vivo o sonho de playoffs. O Napoli, com 7 pontos, fecha hoje a zona de classificação ao mata-mata. Do outro lado, o City estaciona em 13 pontos, em 4º lugar, ameaçado por uma combinação de resultados que pode tirá-lo da zona de oitavas de final a uma rodada do fim.

O impacto supera os números. Um time com orçamento modesto, fora de ritmo competitivo e acostumado a invernos rigorosos encurra-la um dos elencos mais caros do planeta. A vitória vira símbolo de um campeonato em que a distância entre gigantes e emergentes parece encolher, sobretudo quando os favoritos vacilam.

Erros em série, defesa remendada e ataque travado

Guardiola chega a Bodo com uma defesa remendada. Stones, Rúben Dias e Gvardiol estão no departamento médico, e o City ainda não pode escalar Marc Guéhi, recém-contratado do Crystal Palace e não inscrito na Champions. A zaga desta terça tem Khusanov e o jovem Max Alleyne no miolo, cercados por Rico Lewis e Aït-Nouri nas laterais. A estrutura, na prática, não resiste à primeira pressão norueguesa.

O City controla a posse de bola desde o início, como costuma fazer, mas produz pouco. Até metade do primeiro tempo, cria apenas uma grande chance, em chute forte de Cherki defendido com a perna esquerda por Haikin. Haaland também tenta por cobertura, sem direção. O domínio territorial não se converte em finalizações claras, e o castigo vem rápido.

Aos 21, após bola afastada pela defesa do Bodo, Alleyne erra a antecipação no meio-campo. Em contra-ataque veloz, Blomberg dispara pela direita e cruza na medida. Hogh se antecipa e cabeceia entre as pernas de Donnarumma: 1 a 0. Dois minutos depois, o zagueiro volta a falhar, se complica na saída de bola e abre espaço para que Hogh apareça de novo cara a cara com o goleiro italiano. O 2 a 0, aos 23, desestabiliza de vez o City.

O Bodo ainda tem um gol anulado por impedimento após nova participação de Hogh. Haaland, que volta a jogar em sua terra natal, responde com uma chance rara: se antecipa à marcação em cruzamento rasteiro da esquerda e finaliza forte, rente à trave. O intervalo chega com o retrato de um City atordoado, sem coordenação entre defesa e meio-campo, e de um Bodo confortável para baixar as linhas e explorar cada erro inglês.

O segundo tempo começa com o City tentando retomar o controle, mas a iniciativa dura pouco. Aos 12, Hauge recebe aberto pela esquerda, corta para dentro e acerta o ângulo de Donnarumma. O chute, preciso, sela o 3 a 0 e transforma o jogo em pesadelo. Dois minutos depois, Cherki desconta em chute de fora da área, 3 a 1, reacendendo por instantes a esperança inglesa, que se apaga de vez com Rodri.

O capitão comete duas faltas em sequência no meio-campo, leva dois cartões amarelos e é expulso, deixando o City com dez. Sem seu principal meio-campista de equilíbrio, o time se desorganiza. O Bodo sente o momento e continua agressivo. Hauge acerta o travessão em lance quase idêntico ao do gol, e Hogh chega a marcar o que seria o hat-trick, novamente anulado por impedimento. Com o relógio a favor, o time norueguês fecha linhas, gasta o tempo e impede qualquer reação consistente do adversário.

Pressão sobre o City e novo fôlego ao futebol nórdico

A derrota na Noruega não é apenas um tropeço isolado para o Manchester City. O resultado expõe a fragilidade de um elenco que, mesmo recheado de estrelas, sente o acúmulo de lesões na defesa e a dependência de Rodri para dar sustentação ao time. Sem o espanhol em campo, os buracos entre as linhas se multiplicam, e o Bodo encontra espaço para atacar em velocidade e confiança.

Haaland, Foden e Cherki vivem noite discreta, travados por uma marcação compacta e pela própria falta de criatividade coletiva. O norueguês tem ao menos duas boas chances no primeiro tempo, mas desperdiça. A cena do artilheiro furando uma finalização na pequena área, diante da torcida de seu país, resume o desencontro ofensivo do City em Bodo.

Na tabela, o recado é direto. Com 13 pontos e em 4º lugar, o City já não tem margem para novo erro. Uma derrota para o Galatasaray, em Manchester, na última rodada, somada a uma combinação desfavorável em outros jogos, pode derrubar um dos grandes favoritos da Champions ainda na fase de liga. A distância entre o conforto dos líderes e o risco da eliminação se estreita em apenas 90 minutos.

No lado norueguês, a vitória histórica coloca o Bodo em uma posição inédita de protagonismo. Com 6 pontos e salto à 26ª colocação, o time chega vivo à rodada final na disputa por um lugar nos playoffs. Uma vitória sobre o Atlético de Madrid, em 28 de janeiro, às 17h (de Brasília), em solo espanhol, pode significar a primeira classificação do clube ao mata-mata europeu. O Napoli, hoje com 7 pontos, é o primeiro alvo a ser superado.

O feito também alimenta um debate mais amplo sobre a força crescente dos clubes nórdicos em competições europeias. O Bodo, com estádio pequeno, calendário adaptado ao inverno e elenco em reconstrução anual, mostra que organização tática e leitura de contexto compensam limitações financeiras. O resultado ecoa nas redes sociais, na imprensa internacional e no próprio vestiário, onde a confiança para encarar gigantes aumenta de forma proporcional ao susto que causa no continente.

Última rodada define destinos e pressiona Guardiola

O calendário reserva pouco tempo para digestão da derrota. Antes de reencontrar a Champions, o City volta a campo pelo Campeonato Inglês contra o lanterna Wolverhampton, no sábado. A partida, em tese acessível, ganha peso de teste para uma equipe sob desconfiança e pressionada a responder de imediato em desempenho e resultado.

Na Champions, a decisão vem em 28 de janeiro, às 17h, com todos os jogos da fase de liga marcados para o mesmo horário. O City recebe o Galatasaray, sabendo que qualquer novo vacilo pode custar a vaga nos mata-matas e reabrir o debate sobre a capacidade de um elenco caro, mas vulnerável, de sustentar o favoritismo em torneios de tiro curto. O Bodo, por sua vez, viaja a Madri com a sensação de que já mudou o próprio patamar, mas com a chance concreta de transformar uma noite histórica em um capítulo duradouro de sua trajetória europeia.

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