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Bebê é achada em bueiro em Ibirité após segundo abandono da mãe

A bebê Luara, de um mês e meio, é resgatada na manhã de 19 de fevereiro de 2026 de dentro de um bueiro no Bairro Cascata, em Ibirité, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. É a segunda vez que a criança é abandonada pela própria mãe, usuária de drogas, que havia se recusado a entregá-la de forma definitiva à irmã mais nova, Luana.

Um resgate que expõe uma história repetida

Moradores do Bairro Cascata se assustam ao ver a movimentação de viaturas e equipes de resgate em uma rua estreita de Ibirité. Policiais militares encontram a recém-nascida sozinha em um bueiro, com pouco mais de 45 dias de vida, exposta ao frio, à umidade e ao risco de contaminação. O choro fraco da criança chama a atenção e acelera o trabalho de remoção.

A cena choca quem acompanha o resgate, mas, para a família da menina, a tragédia não vem do nada. Luara já tinha sido deixada pela mãe aos cuidados da tia Luana semanas antes. A jovem conta à Polícia Militar que pede para ficar com a menina em definitivo, diante do descontrole da irmã com o uso de drogas. “Eu tinha pedido isso, mas ela não quis, pois disse que não a devolveria mais. Eu falei que iria cuidar da menina, da Luara, mas ela não deixou e, hoje, acordamos com essa história, que é uma tragédia”, relata.

A fala resume o conflito que se arrasta dentro de casa. De um lado, uma mãe mergulhada na dependência química, incapaz de garantir cuidados mínimos. De outro, parentes que tentam, como podem, proteger as crianças. O resgate de Luara, desta vez em um bueiro, cristaliza uma disputa silenciosa que se torna caso de polícia e de Justiça.

Família em disputa e crianças em risco

Luana não fala apenas como tia de Luara. Ela também é tia de Pietra, outra criança da família, hoje sob os cuidados da avó materna. A menina mais velha, filha de um primeiro relacionamento da mãe de Luara, está na escolinha e depende da ajuda combinada da avó e da tia para manter uma rotina minimamente estável. A família tenta, há meses, transformar esse arranjo informal em proteção formal.

“Eu e minha mãe, inclusive, já procuramos o pai e falamos com ele que entrasse na Justiça pedindo a guarda da Pietra, pois minha irmã não cuidaria dela”, afirma Luana. O relato evidencia uma tentativa de reação antes que o pior aconteça. A insistência para que o pai da menina busque a guarda na Justiça expõe a percepção de que o ambiente materno deixou de ser seguro, tanto para Pietra quanto, agora, para Luara.

No meio dessa história, surge ainda o atual namorado da mãe, apontado por Luana como pai de Luara e também ligado ao uso de drogas. A tia afirma que a irmã conhece o companheiro nesse mesmo contexto de dependência química, o que agrava a vulnerabilidade das crianças. Sem renda estável, sem rede de apoio estruturada e sob a influência constante das drogas, a jovem mãe se afasta, na prática, de qualquer condição de cuidado responsável.

Casos como o de Luara não são isolados em cidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Conselhos tutelares, delegacias de infância e varas da família lidam, ano após ano, com situações em que o uso de crack, cocaína ou outras drogas corrói laços familiares e coloca bebês e crianças em risco direto. O abandono em espaços públicos, como bueiros, lixões ou terrenos baldios, é uma das faces mais extremas desse quadro.

Rede de proteção pressionada e impacto social

O resgate de uma recém-nascida em um bueiro expõe os limites da rede de proteção à infância. Quando uma criança com apenas um mês e meio passa por dois abandonos em tão pouco tempo, a pergunta inevitável é como o sistema de saúde, assistência social e segurança pública atua entre um episódio e outro. A família relata pedidos de ajuda e tentativas de buscar a Justiça, mas ainda assim a situação chega ao extremo.

A definição sobre o futuro de Luara agora envolve uma corrida contra o tempo. A criança deve passar por exames médicos detalhados para avaliar possíveis infecções, lesões e consequências da exposição a esgoto e sujeira. Em seguida, o caso entra na rotina do Conselho Tutelar e da Vara da Infância, que podem encaminhar a menina para uma família extensa, como tia ou avó, ou para acolhimento institucional. Cada decisão precisa equilibrar laços afetivos e segurança, sob o peso de um histórico de violência e negligência.

Pietra, a irmã mais velha, também entra nesse tabuleiro. Embora viva com a avó e mantenha frequência em escolinha, sua situação jurídica continua frágil enquanto não houver definição formal de guarda. Sem essa segurança, qualquer mudança brusca na rotina da mãe pode repercutir sobre a menina. O risco é que a instabilidade de uma geração seja transmitida à seguinte, em um ciclo que mistura pobreza, dependência química e ausência do Estado em momentos decisivos.

O caso de Ibirité recoloca no centro do debate políticas públicas de prevenção. A intervenção costuma chegar quando o dano já está consumado: depois do abandono, depois da violência, depois da denúncia. Programas de acompanhamento de gestantes usuárias de drogas, equipes de saúde da família bem estruturadas e proteção social continuada poderiam reduzir o caminho até o ponto de ruptura. No entanto, essas iniciativas, quando existem, sofrem com cortes de orçamento e equipes reduzidas.

O que vem a seguir para Luara e para o sistema

As próximas semanas serão decisivas para o destino de Luara. A Justiça deve ouvir familiares, analisar o histórico da mãe e avaliar se a família extensa oferece um ambiente minimamente estável. A tia Luana já manifesta disposição em assumir o cuidado da sobrinha, como fez antes de o bebê voltar para a mãe e desaparecer. A avó, que hoje acolhe Pietra, também entra no radar das autoridades como possível guardiã.

A polícia investiga em que circunstâncias a criança vai parar dentro de um bueiro no Bairro Cascata e qual a participação efetiva da mãe e do companheiro nesse segundo abandono. O Ministério Público pode ser acionado para propor medidas de proteção mais amplas e, se for o caso, responsabilização criminal. A partir desse caso, gestores municipais e estaduais têm diante de si a oportunidade e o desafio de rever protocolos, identificar falhas e fortalecer equipes que atuam na linha de frente da proteção à infância.

O futuro de Luara, com pouco mais de 45 dias de vida e dois abandonos nas costas, passa a depender de decisões que vão muito além do quintal da família. As perguntas que se impõem não dizem respeito apenas a quem ficará com a guarda, mas a que tipo de rede a cidade e o Estado oferecem para impedir que o próximo bebê chegue ao mesmo lugar: sozinho, dentro de um bueiro.

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