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Bap explica demissão de Filipe Luís e diz não ver futuro vencedor

O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, demite o técnico Filipe Luís na madrugada de terça-feira, após a semifinal do Carioca, e rompe a aposta no ídolo. Dias depois, diante de conselheiros, ele assume divergências internas e diz que já não enxergava um futuro vencedor com o treinador.

Decisão madura em reunião que tinha outro tema

A queda de Filipe Luís não nasce em um rompante depois do jogo. Bap insiste, diante de dezenas de conselheiros reunidos na Gávea nesta quinta-feira, que a decisão é resultado de semanas de debate interno, ao menos duas reuniões de avaliação por semana e uma tentativa de correção de rota que, segundo ele, falha. A reunião, que entra na pauta do clube para discutir e aprovar um novo patrocínio de camisa para a temporada de 2026, acaba dominada pelo assunto que mobiliza o futebol rubro-negro desde a madrugada de terça.

No discurso, o presidente admite o peso simbólico de afastar um ídolo recente, campeão em 2019 e 2020 como jogador, transformado em treinador pouco mais de três anos depois de pendurar as chuteiras. “Algumas decisões difíceis, se você tomá-las às 3h da manhã, ao meio-dia de terça-feira, às 9h da noite de uma quinta-feira, não tem hora boa”, afirma, em tom de justificativa, ao explicar por que a comunicação da saída ocorre poucas horas após a classificação para a final do Campeonato Carioca.

O dirigente descreve uma rotina de análise quase industrial do desempenho. Ele fala em reuniões duas vezes por semana, sempre depois dos jogos, para revisar plano, execução e resultado. É nesse ambiente, relata, que as divergências com Filipe Luís começam a se acumular. “Quando você tem divergências num processo desse, estruturado, as divergências e as explicações estão ali contidas no dia a dia”, diz Bap. O recado é de que a ruptura não surpreende quem acompanha de perto o vestiário.

Relação desgastada, renovação arrastada e vestiário afetado

A queda do treinador sela uma relação que se desgasta a olhos vistos desde o fim de 2024. A renovação de contrato, costurada ao longo de meses e concluída sob pressão da torcida e de líderes do elenco, deixa marcas em ambas as partes. A diretoria vê resistência em aceitar novos termos e metas de desempenho; o estafe de Filipe entende que o clube demora a reconhecer seu trabalho na transição do time, que passa por trocas importantes desde a metade do ano passado.

No discurso aos conselheiros, Bap evita detalhar quais pontos específicos do trabalho o desagradam. Ele se limita a citar uma “tentativa de correção de rumo”, feita em conversas diretas com o técnico, após uma sequência de atuações irregulares no início de temporada. “A tentativa de correção de rumo foi feita. Em algum momento, nós entendemos que isso não era possível e nós tomamos a decisão que tínhamos tomado”, afirma. A frase marca o momento em que a diretoria conclui que, sob o comando de Filipe, o Flamengo não alcançaria o padrão de desempenho projetado para 2025, ano em que o orçamento de futebol supera a marca de R$ 1 bilhão.

A demissão é comunicada na madrugada de terça, em conversa rápida do diretor de futebol, José Boto, com o treinador, ainda no ambiente interno do estádio. A decisão nasce de entendimento conjunto entre Boto e Bap e é chancelada pelo restante da cúpula do futebol. A forma como o anúncio chega ao elenco, horas depois, provoca incômodo em jogadores que vinham a público defender o trabalho do técnico. Parte do grupo se manifesta nas redes sociais, com mensagens de apoio ao ex-comandante e agradecimentos pela oportunidade.

Bap tenta conter a reação ao reforçar a dimensão histórica de Filipe no clube. “As mudanças no futebol do Flamengo não apagam ou desabonam de maneira nenhuma o que o Filipe Luís fez pelo clube”, diz o presidente, ao lembrar os quatro títulos de expressão conquistados como jogador entre 2019 e 2021. “Eu compreendo perfeitamente a reação de parte da torcida”, completa, diante de um auditório que mistura aplausos tímidos e olhares de desconfiança.

Mudança de rota com Leonardo Jardim e impacto nas competições

A saída de Filipe Luís vem acompanhada de uma resposta imediata no mercado. Em menos de 24 horas, o Flamengo acerta com Leonardo Jardim, técnico português campeão nacional em Portugal e com passagem recente pelo futebol árabe. As conversas, confirmam dirigentes em reserva, começam antes mesmo da semifinal do Carioca e avançam em ritmo acelerado após a decisão de demissão. A assinatura é fechada com contrato até o fim de 2026, alinhado ao ciclo do atual mandato presidencial.

O movimento deixa claro que a troca de comando não se limita a uma reação ao estadual. O clube enxerga risco em levar a incerteza para o Campeonato Brasileiro, que começa em abril, e para a fase de grupos da Libertadores, prevista para se estender até maio. A leitura da diretoria é de que um mês de atraso na mudança de treinador poderia comprometer o planejamento da temporada e, por consequência, a meta de faturamento esportivo, hoje atrelada a premiações que superam R$ 200 milhões em caso de títulos nacionais e continentais.

Filipe deixa o cargo com aproveitamento considerado aceitável em números, mas abaixo do patamar esperado para um elenco avaliado em cerca de R$ 1,5 bilhão. Em campo, o Flamengo oscila entre boas apresentações e noites de pouca criação, mesmo contra adversários de orçamento bem menor no estadual. A crítica interna, relatam pessoas próximas à diretoria, se concentra menos nos resultados imediatos e mais na falta de perspectiva de evolução tática e física para os próximos meses.

A mudança de comando expõe também a tensão permanente entre campo e gabinete. Parte do elenco vê em Filipe um elo entre gerações, alguém que conhece o vestiário como ex-jogador e sabe lidar com medalhões e jovens promovidos da base. A diretoria, por sua vez, cobra um projeto de jogo mais contundente, capaz de sustentar o clube em maratona de até 70 partidas ao longo do ano. A demissão, nesse cenário, simboliza a escolha por um modelo mais distante emocionalmente do grupo, mas, em tese, mais alinhado a metas de performance.

Pressão, calendário cheio e dúvidas sobre o futuro

Leonardo Jardim assume com o desafio imediato de conquistar o título do Campeonato Carioca, previsto para ser decidido em dois jogos ainda neste mês, e de organizar a equipe para a estreia na Libertadores. O português terá poucas semanas de trabalho até a largada do Brasileiro, em abril, e enfrentará um calendário que mal oferece períodos de treino entre viagens e partidas a cada três dias. A curva de adaptação, admitem conselheiros, será curta e avaliada sob microscópio.

A forma como Bap conduz a transição também entra no cálculo político do clube. O presidente tenta se equilibrar entre a defesa de decisões técnicas, baseadas em análise de desempenho, e a necessidade de responder à pressão de arquibancada e redes sociais. Um novo tropeço em mata-matas ou um início ruim de Brasileiro pode reacender o debate sobre planejamento de longo prazo, hoje questionado por grupos internos desde a demissão do treinador anterior, ainda em 2024.

Filipe, por sua vez, sai pela porta lateral, sem entrevista coletiva e sem despedida pública em campo, mas com a imagem de ídolo preservada no discurso oficial. O próximo passo de sua carreira, se será uma nova experiência como técnico ou um afastamento temporário, permanece em aberto. No Flamengo, a aposta agora se desloca para Leonardo Jardim. O resultado dessa escolha, que começa a ser medido já nas próximas semanas, dirá se a ruptura feita na madrugada de terça-feira antecipa um ciclo vencedor ou aprofunda a sensação de instabilidade no clube mais rico do país.

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