Banco de Vorcaro pagou R$ 27,5 mi a ex-presidente da OAB em 2025
Dados sigilosos da Receita Federal enviados à CPI do Crime Organizado mostram que a instituição financeira de Daniel Vorcaro paga, em 2025, R$ 27,5 milhões ao escritório de Marcus Vinícius Furtado Coêlho, ex-presidente da OAB. Os documentos também registram R$ 1,55 milhão a Felipe Santa Cruz, outro ex-comandante da entidade.
Repasses milionários chegam ao núcleo da advocacia de Brasília
Os números aparecem em relatórios que detalham a teia de relações de Vorcaro com o poder em Brasília. A Receita rastreia contratos e notas fiscais da instituição financeira ligada ao empresário e reúne os dados em planilhas enviadas oficialmente à comissão parlamentar. O volume de recursos chama atenção porque envolve ex-presidentes da Ordem dos Advogados do Brasil, figuras com trânsito amplo no meio jurídico e político.
No caso de Coêlho, os relatórios indicam pagamentos que somam R$ 27,5 milhões em 2025. Entre todas as bancadas contratadas pelo grupo de Vorcaro, o valor só fica abaixo do repasse a Viviane Barci de Moraes, advogada e mulher do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Os dados reforçam a percepção, já debatida entre investigadores e parlamentares, de que Vorcaro investe pesado em escritórios com acesso direto aos centros de decisão da Justiça e do Estado.
Os documentos mostram ainda dois pagamentos de R$ 776 mil ao escritório de Felipe Santa Cruz, em 2025, que totalizam R$ 1,55 milhão. A cifra é menor que a destinada a Coêlho, mas confirma a estratégia de pulverizar contratos entre nomes de alta projeção na advocacia. Ao todo, a instituição financeira de Vorcaro desembolsa cerca de R$ 304,5 milhões com bancas jurídicas ao longo do ano.
Coêlho preside a OAB entre 2013 e 2016 e se torna um dos advogados mais influentes do país. Ele chega a ser citado em conversas de bastidor como possível indicado à vaga de Joaquim Barbosa no Supremo, aberta em 2014. A então presidente Dilma Rousseff, porém, escolhe Edson Fachin para o posto. Mesmo fora do radar do STF, Coêlho mantém presença constante em debates de grande repercussão no meio jurídico, o que aumenta o interesse sobre seus contratos privados.
Santa Cruz assume a presidência nacional da OAB em 2019 e deixa o cargo em 2022, em meio a embates públicos com o então presidente Jair Bolsonaro. Ele se torna voz ativa contra ataques às instituições e à própria Ordem. Depois da passagem pela entidade, integra a gestão de Eduardo Paes na Prefeitura do Rio de Janeiro como secretário. A combinação de atuação política e liderança na advocacia reforça o peso simbólico de seus contratos com grandes grupos econômicos.
A CNN Brasil procura Coêlho e Santa Cruz para comentar os repasses, mas não recebe resposta até a conclusão deste texto. “O espaço segue aberto para manifestações”, informa a emissora ao divulgar os dados em sua programação. Nenhum dos dois se pronuncia até o início da noite, o que mantém em aberto as explicações sobre a natureza e o escopo dos serviços prestados à instituição financeira de Vorcaro.
Relação entre finanças e poder jurídico entra no foco da CPI
Os repasses reforçam a percepção de que o caso Vorcaro extrapola o universo restrito de uma instituição financeira isolada. A comissão parlamentar passa a enxergar, nos contratos com escritórios de elite, um elo direto com o coração do poder jurídico brasileiro. Ao direcionar mais de R$ 300 milhões em um único ano para bancas de advocacia, o grupo projeta influência em disputas bilionárias e processos sensíveis que tramitam em diferentes instâncias.
Parlamentares ouvidos reservadamente avaliam que os pagamentos a ex-presidentes da OAB podem acender alertas sobre conflitos de interesse e uso de prestígio institucional em benefício privado. A própria condição de ex-dirigentes da entidade, que representa a advocacia e participa de debates constitucionais relevantes, amplia o escrutínio. A discussão não se limita à legalidade formal dos contratos, mas se estende à percepção de proximidade entre uma instituição financeira sob investigação e profissionais com enorme capital político.
O fato de um dos maiores repasses ser destinado à esposa de um ministro do Supremo também pressiona o debate sobre transparência em contratos sensíveis. Investigadores ressaltam que contratações de escritórios ligados a autoridades ou seus familiares são previstas em lei, mas defendem maior clareza sobre critérios, escopo e valores. A fronteira entre serviço especializado legítimo e tentativa de influência indireta permanece no centro das preocupações, em especial quando o cliente é alvo de apurações criminais ou administrativas.
Especialistas em ética pública ouvidos pela imprensa avaliam que a presença de ex-presidentes da OAB nessa teia financeira tem efeito simbólico poderoso. “Quando figuras que já comandaram uma instituição com tanta autoridade se aproximam de grupos investigados, o impacto sobre a confiança do cidadão é imediato”, resume um professor de direito administrativo que acompanha as sessões da CPI. A avaliação reforça cobranças por regras mais rígidas de divulgação de contratos e por mecanismos eficazes de prevenção a conflitos de interesse.
CPI amplia cerco e pressiona por transparência
Os novos dados colocam a CPI do Crime Organizado diante de uma agenda mais ampla do que a simples apuração de eventuais crimes financeiros. Deputados e senadores discutem requisitar os contratos completos firmados pela instituição de Vorcaro com os principais escritórios de advocacia, inclusive os de Coêlho e Santa Cruz. O objetivo é checar o tipo de causa, a duração dos acordos, a compatibilidade dos honorários com o mercado e a eventual existência de cláusulas que indiquem atuação política ou lobby disfarçado.
Parlamentares também avaliam chamar os ex-presidentes da OAB para depor na comissão. A presença de ambos, se confirmada, tende a se transformar em um dos pontos altos da CPI, com repercussão direta entre advogados, magistrados e integrantes do Ministério Público. A expectativa é que, sob juramento, eles detalhem como são definidos valores de honorários em causas complexas, quem intermedeia os contatos com grandes grupos econômicos e quais barreiras éticas adotam para evitar o uso indevido de influência.
Organizações da sociedade civil que acompanham a CPI cobram que as revelações dos relatórios da Receita resultem em mudanças práticas. As propostas vão de regras específicas de transparência para contratos de escritórios ligados a autoridades a exigências de divulgação periódica de grandes honorários pagos por empresas reguladas pelo Estado. Em paralelo, conselhos de ética de tribunais e da própria OAB são pressionados a atualizar códigos de conduta para acompanhar a realidade de um mercado de advocacia de alto valor.
A partir de agora, o desfecho dos trabalhos da CPI tende a influenciar não apenas o futuro da instituição de Vorcaro, mas também a forma como o país regula a relação entre dinheiro e poder jurídico. As próximas semanas dirão se os pagamentos milionários a ex-presidentes da OAB serão lembrados apenas como mais um capítulo de uma grande investigação ou como o ponto de partida para um novo padrão de transparência e responsabilidade no topo da advocacia brasileira.
