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Bactéria milenar em gelo romeno traz genes de superbactéria

Uma bactéria preservada há milhares de anos em gelo na Romênia intriga cientistas em 21 de fevereiro de 2026. O microrganismo, descoberto em uma caverna de gelo, carrega genes de resistência a diversos antibióticos, incluindo medicamentos de último recurso usados hoje em hospitais.

Gelo antigo, ameaça atual

A protagonista do estudo é a cepa Psychrobacter sp. SC65A.3, isolada na Caverna de Gelo Scărișoara, um dos mais antigos depósitos subterrâneos de gelo do mundo. A equipe internacional responsável pelo trabalho sequencia o genoma da bactéria e encontra mais de 100 genes associados à resistência antimicrobiana, um arsenal inesperado em um ambiente intocado pela medicina moderna.

Os testes em laboratório mostram que a SC65A.3 resiste a diferentes classes de antibióticos usados hoje em clínicas e hospitais. Penicilinas, cefalosporinas, fluoroquinolonas e aminoglicosídeos falham em conter o crescimento da bactéria. Entre os genes detectados está o mcr-1, ligado à resistência à colistina, droga de último recurso em infecções graves por microrganismos multirresistentes.

O trabalho, publicado na revista científica Frontiers in Microbiology, reforça uma tese incômoda para a medicina: genes de resistência circulam na natureza muito antes da descoberta da penicilina em 1928. “O meio ambiente funciona como um reservatório ancestral de genes de resistência, independente do uso clínico de antibióticos”, escrevem os autores no artigo. Nesse cenário, o abuso de antibióticos pela humanidade não cria do zero a resistência, mas acelera e seleciona mecanismos que já existem.

O que a superbactéria do gelo revela sobre nós

O achado tem impacto direto no debate sobre a crise global de resistência antimicrobiana, que a Organização Mundial da Saúde já trata como uma das maiores ameaças à saúde pública neste século. A presença do gene mcr-1 em um microrganismo milenar indica que mesmo os chamados “antibióticos de última linha” enfrentam inimigos antigos e bem adaptados. Colistina, por exemplo, volta a ganhar espaço em tratamentos nos últimos anos justamente porque outros medicamentos perdem eficácia.

Em testes adicionais, a Psychrobacter sp. SC65A.3 surpreende ao exibir também atividade antimicrobiana contra patógenos hospitalares de alto risco. A cepa inibe o crescimento de bactérias do grupo ESKAPE, conjunto conhecido por escapar da ação de múltiplas drogas e causar infecções persistentes em UTIs. Esse duplo papel — resistente e, ao mesmo tempo, capaz de atacar rivais perigosos — abre uma frente de pesquisa em busca de novas moléculas com potencial terapêutico.

Os pesquisadores descrevem ainda características que ajudam a explicar a sobrevivência em um ambiente extremo. A SC65A.3 cresce em baixas temperaturas e produz enzimas que funcionam no frio intenso. Essas adaptações permitem que a bactéria permaneça viável em camadas de gelo formadas há milhares de anos, enquanto carrega e preserva genes de resistência. O passado congelado, revelado agora, dialoga com a pressão seletiva imposta pelo uso massivo de antibióticos a partir da década de 1940.

Em termos práticos, o estudo pressiona governos e sistemas de saúde a revisar políticas de uso de antibióticos. Programas de prescrição racional, hoje concentrados em hospitais, podem ter de avançar para a veterinária, a agricultura e o monitoramento ambiental. A noção de que rios, solos, esgotos e até geleiras abrigam genes de resistência amplia o escopo da vigilância e transforma a resistência antimicrobiana em um problema de ecossistema, não apenas de consultório.

Próximo capítulo da batalha contra a resistência

A descoberta da Psychrobacter sp. SC65A.3 em Scărișoara deve impulsionar novas expedições científicas a ambientes extremos. Gelo profundo, lagos subterrâneos, solos permafrost e cavernas isoladas entram no mapa de busca por genes antigos e desconhecidos. A meta é rastrear como essas sequências circulam entre bactérias ambientais e patógenos humanos, e em que momento atravessam a fronteira para hospitais e comunidades.

Laboratórios já discutem estratégias para integrar dados genômicos de microrganismos ambientais a bancos de informação usados em vigilância hospitalar. A longo prazo, esse cruzamento pode orientar o desenho de antibióticos que antecipem mecanismos de resistência, em vez de apenas reagir a eles. Também anima grupos interessados em enzimas ativas no frio, que podem ter uso industrial e farmacêutico.

O estudo, porém, não traz respostas definitivas. A idade exata do gelo que preserva a cepa ainda precisa ser delimitada, assim como as rotas pelas quais genes como o mcr-1 se espalham pelo planeta. Enquanto essas lacunas permanecem, a bactéria milenar da Romênia funciona como um alerta. A resistência não é apenas um efeito colateral da medicina moderna, mas parte da própria história da vida microbiana — e o próximo passo dessa história depende de como a humanidade escolhe usar, ou poupar, seus antibióticos.

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