Austrália concede visto humanitário a 5 jogadoras iranianas após silêncio no hino
Cinco jogadoras da seleção feminina de futebol do Irã recebem vistos humanitários da Austrália e permanecem no país após a Copa da Ásia, em março de 2026, depois de se recusarem a cantar o hino nacional. A decisão ocorre em meio ao temor de retaliações no Irã e à mobilização de torcedores, ativistas e autoridades estrangeiras.
Silêncio no hino, tensão no estádio e corrida por proteção
O gesto começa uma semana antes, em Gold Coast, quando a equipe iraniana entra em campo para enfrentar a Coreia do Sul. As jogadoras se alinham para a execução do hino nacional, mas boa parte delas permanece em silêncio. O estádio sente o incômodo imediato. Nas arquibancadas, torcedores da diáspora iraniana reagem com aplausos e lágrimas; em Teerã, comentaristas conservadores rapidamente classificam o ato como provocação política.
O episódio ganha outro peso quando um comentarista ligado ao campo conservador acusa a seleção de ser formada por “traidoras em tempo de guerra” e exige punições severas. Em um país onde protestos públicos podem resultar em prisões, o silêncio na linha do hino passa a ser lido como desafio aberto ao regime. A equipe é eliminada da Copa da Ásia, mas o torneio esportivo se transforma em crise diplomática em construção.
As jogadoras deveriam embarcar de volta para o Irã logo após a participação no torneio. Em vez disso, centenas de torcedores cercam o ônibus da equipe na noite de domingo, 8 de março, ao fim da partida contra as Filipinas, em Gold Coast, gritando “save our girls”. Alguns se deitam no asfalto na tentativa de impedir a saída do veículo e imploram para que as atletas fiquem na Austrália.
No dia seguinte, a pressão ganha contornos internacionais. O então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usa a plataforma Truth Social para cobrar uma solução. Diz que a Austrália deveria “conceder asilo” às jogadoras e afirma que os EUA as receberiam se os australianos não o fizessem. Uma hora depois, volta a publicar, relata ter falado com o primeiro-ministro Anthony Albanese e indica que “cinco já foram resolvidas, e as demais estão a caminho”.
Enquanto a opinião pública discute o futuro da equipe, o governo australiano acelera negociações discretas. O ministro da Imigração, Tony Burke, revela na manhã de terça-feira, 10 de março, que cinco atletas pedem para permanecer no país. Segundo ele, as conversas se arrastam por vários dias, até que na segunda-feira, 9 de março, “ficou claro que havia cinco mulheres que queriam poder permanecer na Austrália”.
Visto humanitário, segurança e o custo pessoal da decisão
O grupo deixa o hotel no mesmo dia, em sigilo, escoltado pela polícia. As cinco jogadoras são levadas para um endereço mantido em reserva pelo governo. Pouco depois, supervisores da delegação correm pelos corredores do hotel à procura delas, sem sucesso. Burke visita as atletas no local seguro, ouve seus relatos e aprova ainda na madrugada de terça-feira os pedidos de vistos humanitários permanentes.
Na manhã do anúncio, o ministro divulga os nomes das beneficiadas, com autorização delas: Fatemeh Pasandideh, Zahra Ghanbari, Zahra Sarbali, Atefeh Ramazanzadeh e Mona Hamoudi. As cinco ganham o direito de viver, trabalhar e estudar na Austrália, com proteção comparável à de refugiados reconhecidos. “Elas querem deixar claro que não são ativistas políticas. São atletas que querem estar seguras”, afirma Burke. “A Austrália acolheu a seleção feminina de futebol do Irã em nossos corações.”
O restante da equipe segue outro caminho. As jogadoras que não pedem proteção são levadas ao Aeroporto de Gold Coast e embarcam para Sydney no dia 9 de março, primeiro trecho da viagem de volta. No trajeto, a técnica da seleção, Marziyeh Jafari, tem o ônibus bloqueado por dezenas de ativistas que tentam convencer mais atletas a ficar. Alguns manifestantes se jogam no chão diante do veículo. As iranianas assistem à cena pelas janelas, sem descer.
Em entrevistas durante o torneio, Jafari insiste que quer voltar ao Irã. “Estamos ansiosas para voltar. Pessoalmente, gostaria de retornar ao meu país o mais rápido possível e estar com meus compatriotas e minha família”, diz. O discurso contrasta com relatos de torcedores e ativistas, que afirmam que jogadoras temem por suas famílias e evitam qualquer declaração crítica em público.
O ex-capitão da seleção masculina da Austrália Craig Foster, hoje referência em causas humanitárias, atua nos bastidores. Ele afirma à BBC que há “preocupações muito razoáveis e sérias com a segurança delas”. Lembra que, em torneios organizados pela Fifa, atletas deveriam ter “direito à segurança e ao apoio externo para expressar quaisquer preocupações que tenham sobre sua segurança agora ou no futuro”. Foster já ajudou a tirar a seleção feminina do Afeganistão do país após a volta do Talebã, em 2021.
O caso das iranianas encontra um clima internacional tenso em relação a pedidos de refúgio. Nos Estados Unidos, o governo Trump suspende no fim de 2025 todas as decisões sobre asilo e interrompe a emissão de novos vistos para cidadãos de dezenas de países, entre eles o Irã. Ainda assim, o presidente pressiona publicamente a Austrália a agir. Em sua mensagem, sugere que algumas atletas sentem que precisam voltar por temer represálias contra parentes no país de origem.
Direitos humanos, pressão internacional e incerteza no horizonte
A concessão dos vistos expõe as fraturas entre o discurso oficial iraniano e o cotidiano das mulheres atletas. Desde os protestos de 2022, motivados pela morte de Mahsa Amini sob custódia da polícia da moral, jogadoras, torcedoras e esportistas femininas tornam-se alvo de vigilância ainda mais rígida. Nas arquibancadas em Gold Coast, parte da comunidade iraniana ergue bandeiras do antigo regime, com o símbolo do leão e do Sol, proibidas desde 1979. As bandeiras entram escondidas no estádio, em desafio aos avisos de que só o emblema atual da República Islâmica é permitido.
No campo, o comportamento da equipe oscila. Após o silêncio no hino contra a Coreia do Sul, as iranianas cantam e saudam a bandeira nas partidas seguintes, diante da Austrália e das Filipinas. Críticos veem coerção. O gesto alimenta a leitura de que autoridades do governo, presentes na delegação, aumentam a pressão sobre as atletas. Nesse cenário, qualquer decisão tem custo: ficar na Austrália pode significar afastamento prolongado da família; retornar ao Irã pode trazer interrogatórios e punições silenciosas.
Organizações como a Anistia Internacional aproveitam o momento para cobrar uma postura mais ampla de Canberra. “O governo australiano deveria exercer um papel de liderança moral aqui”, afirma Zaki Haidari, defensor dos direitos dos refugiados na entidade. Ele lembra que o episódio acontece na mesma semana do Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, quando o mundo discute liberdade, igualdade e perseguição de gênero.
Nas arquibancadas, torcedores como Naz Safavi e Melika Jahanian tentam equilibrar apoio e realismo. “Elas não podem falar livremente porque estão sob ameaça”, diz Safavi. Jahanian resume o impasse: “Estamos as encorajando, esperando que fiquem aqui, mas ao mesmo tempo sabemos que a vida das famílias delas está em perigo. Qualquer decisão que tomarem será terrível, por isso elas precisam do apoio do governo australiano.”
O governo Albanese sinaliza que a porta segue aberta. Burke afirma ter dito às demais integrantes da seleção que “a mesma oportunidade existe” para quem decidir permanecer. O primeiro-ministro confirma publicamente os vistos e elogia a popularidade da equipe no país. A mensagem, porém, não elimina as zonas cinzentas do caso: não se sabe que tipo de pressão as jogadoras enfrentam ao voltar ao Irã nem quais repercussões recairão sobre suas famílias.
Para a Austrália, o episódio funciona como teste prático de sua política de proteção humanitária, que promete acolher pessoas sob risco por motivos políticos, étnicos ou de gênero. Para as cinco jogadoras, marca o início de uma vida em país novo, em idioma diferente e distante de casa por milhares de quilômetros. A próxima temporada do futebol feminino pode colocá-las em gramados australianos, mas a pergunta que permanece, tanto em Canberra quanto em Teerã, é se outras atletas terão coragem — e condições — de seguir o mesmo caminho.
