Esportes

Austrália concede visto humanitário a 5 jogadoras da seleção do Irã

Cinco jogadoras da seleção feminina de futebol do Irã recebem vistos humanitários e proteção na Austrália após se recusarem a cantar o hino nacional iraniano na Copa da Ásia de 2026. A decisão ocorre entre alertas de perseguição política e pressão internacional por garantias de segurança às atletas.

Do silêncio no hino ao abrigo sob proteção policial

O ponto de ruptura vem na semana anterior, na partida contra a Coreia do Sul, pela Copa da Ásia disputada na Austrália. Diante das câmeras de TV e de autoridades iranianas na arquibancada, parte da equipe permanece em silêncio durante a execução do hino nacional. O gesto, de poucos segundos, basta para desencadear uma reação em cadeia que extrapola o gramado.

O episódio provoca ataques ferozes na imprensa conservadora iraniana. Um comentarista chama as atletas de “traidoras em tempo de guerra” e exige punições severas. Torcedores e ativistas de direitos humanos, dentro e fora do Irã, passam a temer o que pode acontecer quando a delegação retornar a Teerã.

Enquanto a seleção joga mais duas partidas, a tensão cresce. Nas duas últimas apresentações, contra a anfitriã Austrália e depois diante das Filipinas, as jogadoras voltam a cantar e a saudar o hino, o que leva críticos a suspeitar de coerção por parte de autoridades que acompanham a delegação. Elas seguem sob vigilância constante e falam pouco em público.

A pressão transborda dos estádios. Na noite de domingo, 8 de março, centenas de torcedores cercam o ônibus da equipe iraniana ao final do jogo em Gold Coast, no Estado de Queensland. Gritam “save our girls” e exibem bandeiras com o leão e o Sol, símbolo derrubado pela Revolução Islâmica de 1979 e proibido hoje no Irã. Algumas dessas bandeiras entram escondidas no estádio, apesar do aviso de que só a bandeira oficial é permitida.

Dentro do ônibus, as jogadoras veem o cerco sem sair do veículo. Do lado de fora, ativistas como o ex-capitão da seleção australiana, Craig Foster, alertam para riscos concretos. “Os ativistas têm preocupações muito razoáveis e sérias com a segurança delas”, diz ele à BBC. Segundo Foster, qualquer equipe que disputa um torneio sob regras da Fifa deve ter garantido o direito à segurança e ao apoio necessário para denunciar ameaças.

Decisão política, risco pessoal e pressão internacional

No dia seguinte, segunda-feira 9 de março, as conversas de bastidor se aceleram. O ministro da Imigração da Austrália, Tony Burke, afirma que negociações com o grupo ocorrem havia “vários dias”. Naquela manhã, segundo ele, fica claro que cinco atletas querem permanecer no país. Os nomes são divulgados com autorização delas: Fatemeh Pasandideh, Zahra Ghanbari, Zahra Sarbali, Atefeh Ramazanzadeh e Mona Hamoudi.

Ainda na segunda, as cinco deixam discretamente o hotel onde a delegação está hospedada. A polícia australiana as escolta até um local seguro. Pouco depois, supervisores iranianos correm pelos corredores, tentando encontrá-las. As atletas já não estão mais lá. “Elas querem deixar claro que não são ativistas políticas. São atletas que querem estar seguras”, afirma Burke, que se encontra com o grupo no abrigo.

Na madrugada de terça-feira, 10 de março, o ministro aprova os pedidos de visto humanitário. O programa australiano de proteção permanente garante a elas o direito de viver, trabalhar e estudar no país. O primeiro-ministro Anthony Albanese confirma a decisão e ressalta que outras jogadoras são bem-vindas caso peçam o mesmo tipo de proteção. “A mesma oportunidade existe”, diz Burke. “Sabemos que elas estão em uma situação extremamente difícil com as decisões que estão tomando.”

A movimentação não passa despercebida em Washington. No dia 9, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pressiona publicamente a Austrália. Em sua rede Truth Social, escreve que o governo australiano deve “conceder asilo” às jogadoras e acrescenta: “Os EUA as receberão se vocês não o fizerem”. Cerca de uma hora depois, publica outro texto dizendo ter falado com Albanese e afirma que “cinco já foram resolvidas, e as demais estão a caminho”.

A oferta americana contrasta com a política migratória adotada por sua própria administração. No fim do ano anterior, o governo Trump suspende decisões de asilo e reduz drasticamente vistos de imigração para dezenas de nacionalidades, entre elas cidadãos iranianos. Grupos de iranianos, incluindo integrantes da comunidade LGBT, já haviam sido deportados de volta ao Irã em 2025, sob risco comprovado de perseguição.

Na Austrália, o debate assume contornos simbólicos. O impasse se intensifica justamente no Dia Internacional da Mulher, 8 de março, enquanto torcedores iranianos nas arquibancadas vaiam o hino oficial e levantam bandeiras pré-revolução. “Elas não podem falar livremente porque estão sob ameaça”, resume a torcedora Naz Safavi. “Nós estamos aqui para mostrar que as apoiamos totalmente.”

Direitos das mulheres, futebol e um futuro em aberto

A concessão dos vistos abre um novo capítulo para as cinco jogadoras, mas deixa muitas perguntas sem resposta. Não está claro que tipo de represália suas famílias podem enfrentar no Irã. Também não se sabe se parte do elenco, que embarca de Gold Coast para Sydney no dia 9 e segue viagem depois, decidirá recorrer ao mesmo caminho e pedir proteção à Austrália.

Organizações como a Anistia Internacional veem no episódio um teste para a atuação de governos diante de denúncias de repressão de gênero em regimes autoritários. “O governo australiano deveria exercer um papel de liderança moral aqui”, afirma Zaki Haidari, defensor dos direitos dos refugiados na entidade. Ele lembra que a discussão ocorre enquanto o mundo celebra a igualdade de gênero e denuncia a violência contra mulheres.

O caso se soma a outros episódios recentes em que atletas iranianas desafiam, de forma sutil ou aberta, normas impostas por Teerã. No futebol, a seleção feminina convive há anos com restrições de vestimenta, limitações de estrutura e vigilância política. Dentro do país, o gesto de permanecer em silêncio durante o hino é lido por muitos como um ato ligado às manifestações que tomam as ruas desde 2022, após a morte de Mahsa Amini sob custódia policial.

No estádio em Gold Coast, a distância entre campo e arquibancada simboliza esse dilema. Houve pouco contato entre jogadoras e torcedores durante o torneio. Em um raro momento, uma atleta lesionada manda um beijo para o público e recebe uma ovação. Logo depois, a equipe deixa o gramado rapidamente, sem se aproximar dos fãs, enquanto as filipinas permanecem para agradecer à torcida.

Nos bastidores, ativistas correm contra o tempo. Alguns se deitam em frente ao ônibus da delegação no aeroporto, tentando convencer outras jogadoras a ficar. A técnica Marziyeh Jafari, que afirma em entrevista estar “ansiosa para voltar” ao Irã, vê o protesto de perto. As atletas seguem dentro do veículo, em silêncio.

Para as cinco que agora se instalam sob proteção em território australiano, a prioridade imediata é simples: segurança física, estabilidade e possibilidade de seguir a carreira esportiva longe do controle de Teerã. O programa de vistos humanitários oferece essa base, mas não elimina o peso emocional de deixar para trás família, amigos e uma seleção nacional construída ao longo de anos.

O episódio expõe, com nitidez rara, o ponto em que política, esporte e direitos humanos se cruzam. Mostra também como um gesto de poucos segundos, diante de um hino nacional, pode redefinir toda uma vida. Resta saber quantas outras atletas, dentro e fora do Irã, decidirão seguir o mesmo caminho quando tiverem a chance de escolher entre o silêncio imposto e o risco de falar sem medo.

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