Augusto Cury propõe drones com sirenes contra feminicídio no Brasil
O escritor e pré-candidato à Presidência Augusto Cury defende, nesta quarta-feira (8 de abril de 2026), o uso de drones com sirenes para reagir a casos de violência contra mulheres. A proposta prevê aeronaves acionadas em situações de emergência para proteger vítimas e apoiar a polícia em ocorrências de feminicídio.
Tecnologia como sirene voadora em casos de emergência
Cury apresenta a ideia em meio ao avanço dos índices de violência de gênero no país. Em 2024, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública registra mais de 1,4 mil feminicídios, quase quatro por dia. O pré-candidato afirma que o uso de tecnologia precisa sair do discurso abstrato e chegar às portas das casas onde mulheres vivem sob ameaça.
Pelo desenho preliminar, drones equipados com sirenes potentes e sistemas de localização sobrevoam áreas de risco após acionamento por aplicativo, botão de pânico ou chamado telefônico. A aeronave emite alerta sonoro intenso, grava imagens da ocorrência e envia dados em tempo real às centrais de segurança, para orientar patrulhas e acelerar a resposta policial.
Como funcionaria o sistema de drones
A proposta prevê que cada grande município mantenha uma frota de drones em pontos estratégicos, prontos para decolar em poucos minutos. Uma mulher com medida protetiva ou registro de violência recente poderia ser cadastrada no sistema, com endereço, rotinas básicas e contatos de emergência. Ao sinal de risco, o equipamento decola automaticamente, guiado por coordenadas de GPS, e passa a atuar como uma sirene voadora e uma câmera de alta altitude.
O plano de Cury mira sobretudo a fase mais crítica dos ciclos de agressão, quando ameaças verbais e agressões físicas se aproximam do desfecho fatal. O ruído da sirene funciona como mecanismo de dissuasão, ao expor o agressor ao entorno e chamar atenção de vizinhos. As imagens registradas ajudam a produzir prova criminal, em um país onde boa parte dos casos termina arquivada por falta de testemunhas ou de evidências robustas.
Debate sobre lei, privacidade e custo
A ideia chega a um ambiente jurídico sensível. A Constituição limita sobrevoos sobre áreas residenciais, e o Código Brasileiro de Aeronáutica impõe regras rígidas para aeronaves não tripuladas. Especialistas em direito digital alertam que o uso de câmeras em áreas privadas precisa respeitar a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), em vigor desde 2020, e evitar qualquer forma de vigilância indiscriminada.
Cury admite que o modelo depende de um arcabouço legal específico. “Nenhuma tecnologia vale mais do que a liberdade. O sistema só faz sentido se for bem regulado, focado em situações de emergência e acionado com consentimento das vítimas”, afirma, em nota enviada à reportagem. A regulamentação teria de definir, por exemplo, por quanto tempo as imagens são armazenadas, quem acessa os dados e quais punições se aplicam em caso de uso indevido.
Polícia, orçamento e capacidade operacional
A adoção em larga escala exigiria integração com delegacias da mulher, centrais 190 e patrulhas especializadas. Um cenário inicial discutido por assessores de Cury prevê projetos-piloto em capitais com altos índices de feminicídio, com foco em bairros onde a polícia leva mais de 20 minutos para atender chamados de violência doméstica. O tempo de resposta é um dos fatores decisivos para evitar mortes, segundo estudos de secretarias de segurança estaduais.
O desafio orçamentário não é menor. Um drone profissional, com câmeras de alta definição e sistemas de transmissão segura, pode custar entre R$ 20 mil e R$ 60 mil, sem contar manutenção, seguro e treinamento de operadores. Um programa com 500 unidades, distribuídas por diferentes cidades, ultrapassaria R$ 25 milhões apenas em equipamentos. A equipe de Cury sustenta que o gasto deve ser comparado ao custo social e econômico da violência contra a mulher, que envolve gastos médicos, previdenciários e perda de produtividade.
Reações de movimentos de mulheres e especialistas
Organizações feministas veem com cautela o entusiasmo com soluções tecnológicas. Entidades lembram que, desde a Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, o país ainda falha na base: delegacias fecham à noite, medidas protetivas demoram dias e abrigos de emergência seguem insuficientes. Para essas vozes, drones com sirenes podem ajudar, mas não substituem políticas de prevenção, educação e apoio psicológico às vítimas.
Especialistas em segurança pública destacam que o uso de aeronaves não tripuladas em operações policiais cresce desde pelo menos 2018, sobretudo em monitoramento de fronteiras e grandes eventos. A novidade proposta por Cury está no foco exclusivo na proteção de mulheres em situação de risco imediato. Se bem desenhado e testado em projetos-piloto com avaliação independente, o sistema pode reduzir o tempo entre a ameaça e a chegada da viatura, hoje um gargalo reconhecido por gestores estaduais.
Próximos passos e disputa eleitoral
Cury sinaliza que o projeto entra em seu programa de governo como uma das vitrines da área de segurança pública. A ideia deve ser detalhada nas próximas semanas, com estimativas de custo por cidade, fontes de financiamento federais e modelo de cooperação com estados e municípios. Técnicos ligados ao pré-candidato defendem a criação de um fundo específico, alimentado por recursos de loterias e emendas parlamentares, para bancar testes e expansão.
A proposta tende a acirrar o debate eleitoral em 2026. Adversários devem cobrar garantias de que drones não se transformarão em ferramenta de vigilância generalizada, nem em promessa de campanha sem lastro técnico. A discussão sobre como usar tecnologia para salvar mulheres sem abrir mão de direitos civis se impõe como uma das perguntas centrais da próxima disputa presidencial.
