Ataques russos cortam energia externa da central nuclear de Chernobyl
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) alerta nesta quarta-feira (21/1/2026) que a central nuclear de Chernobyl perdeu toda a sua energia externa. O corte ocorre após uma nova onda de ataques de drones russos contra a infraestrutura energética da Ucrânia e reacende temores de segurança em uma das áreas nucleares mais sensíveis do planeta.
Chernobyl volta ao centro das preocupações globais
O alerta da AIEA coloca Chernobyl novamente no foco da comunidade internacional, 40 anos após o acidente de 1986 que espalha radiação por boa parte da Europa. A agência informa que a interrupção da energia externa atinge os sistemas que garantem a refrigeração e o monitoramento das estruturas que ainda concentram material radioativo na usina desativada.
A AIEA descreve a situação como “grave” e de “elevado risco operacional”. Em comunicado, técnicos da organização explicam que, sem fornecimento elétrico estável vindo de fora, a central depende de fontes alternativas para manter equipamentos vitais funcionando. “A perda prolongada de energia externa aumenta o perigo de falhas em sistemas de segurança e, por consequência, o risco de vazamentos”, afirma um especialista ligado à agência.
Infraestrutura sob ataque e risco ampliado
A nova série de ataques de drones da Rússia mira subestações, linhas de transmissão e instalações de geração na região norte da Ucrânia. Autoridades ucranianas relatam que, em menos de 24 horas, mais de 20 alvos energéticos são atingidos, incluindo trechos de rede que alimentam diretamente a área de Chernobyl, a cerca de 110 quilômetros de Kiev.
O sistema elétrico ao redor da central já opera sob forte pressão desde 2022, quando tropas russas ocupam temporariamente a zona de exclusão. Agora, com o corte total de energia externa, equipes locais recorrem a geradores a diesel e sistemas de backup, que têm autonomia limitada. Cada hora sem restauração plena da rede aumenta a tensão entre técnicos, moradores da região e autoridades internacionais.
Risco nuclear em zona de conflito
Especialistas lembram que Chernobyl não tem reatores em operação comercial desde o ano 2000, mas ainda concentra centenas de toneladas de combustível nuclear usado e uma estrutura frágil de contenção. A estabilidade elétrica é essencial para manter bombas, sensores, sistemas de ventilação e equipamentos de monitoramento funcionando de forma contínua.
“Uma instalação nuclear nunca deve se tornar dano colateral de um conflito armado”, afirma um analista em segurança nuclear ouvido pela reportagem. Ele destaca que a perda de energia não significa um desastre imediato, mas eleva significativamente o risco de incidentes. “Quanto mais tempo os sistemas dependerem de geradores, maior a chance de falhas técnicas, erros humanos e atrasos em respostas de emergência”, diz.
Impacto para a região e para a guerra
A interrupção afeta não apenas a segurança da usina, mas também o fornecimento elétrico de cidades próximas e de instalações estratégicas na fronteira com Belarus. Hospitais, estações de tratamento de água e centros logísticos enfrentam quedas de energia e racionamento, segundo autoridades locais. A rede já fragilizada pelas ofensivas anteriores da Rússia agora opera com margens mínimas de segurança.
Organizações ambientais alertam para o impacto potencial de qualquer novo vazamento na região, que abriga cerca de 3 milhões de pessoas num raio de 200 quilômetros. “O trauma de 1986 permanece vivo na memória coletiva da Ucrânia”, lembra uma pesquisadora de políticas energéticas em Kiev. “Cada ataque à infraestrutura elétrica perto de Chernobyl é percebido como um teste aos limites do aceitável na condução desta guerra.”
Pressão diplomática e revisão de protocolos
O episódio intensifica a pressão de governos europeus e de organismos multilaterais por garantias adicionais de proteção às instalações nucleares em zonas de conflito. Em reuniões recentes, diplomatas discutem a criação de zonas de segurança específicas ao redor de usinas e depósitos de material radioativo na Ucrânia, com compromissos formais de não ataque.
Na prática, a situação em Chernobyl alimenta debates sobre novos protocolos globais de segurança nuclear. Países da União Europeia e membros do G7 defendem que a AIEA receba poderes ampliados para monitorar, em tempo real, instalações sensíveis em áreas de guerra. A agência estuda ainda recomendar que centrais e depósitos estratégicos mantenham reservas de combustível e redundâncias elétricas suficientes para pelo menos 72 horas de operação autônoma.
O que vem a seguir para Chernobyl e para a segurança nuclear
Autoridades ucranianas correm para restabelecer o fornecimento externo de energia à zona de Chernobyl e prometem reparos emergenciais em linhas de transmissão até o fim da semana. Técnicos da AIEA seguem monitorando a situação à distância e avaliam o envio de uma nova missão ao local, repetindo movimentos feitos em 2022 e 2023.
A crise expõe, mais uma vez, a vulnerabilidade de instalações nucleares em contextos de guerra prolongada e levanta uma pergunta incômoda para as próximas décadas: a comunidade internacional está disposta a criar regras mais duras e mecanismos de proteção efetivos para garantir que um ataque de drones nunca se converta em uma nova catástrofe nuclear?
