Ataques não derrubam regime iraniano, que se recompõe após morte de Khamenei
O regime iraniano resiste, em março de 2026, aos ataques aéreos dos Estados Unidos e de Israel e à morte do aiatolá Ali Khamenei. A sucessão acelerada por Mojtaba Khamenei, herdeiro da linha dura, sinaliza continuidade, não ruptura.
Sucessão relâmpago em meio a bombardeios e pressão externa
Menos de duas semanas depois de mísseis americanos e israelenses matarem o líder supremo e parte do alto comando militar, Teerã anuncia o novo chefe da República Islâmica. Mojtaba Khamenei, 56, filho do aiatolá morto e figura discreta, assume o posto central do sistema político em meio a infraestrutura danificada, milhares de mortos e uma crise de autoridade sem precedentes.
Washington e Tel Aviv dizem abertamente que o objetivo estratégico é a mudança de regime e incentivam os iranianos a derrubar o governo. O cálculo externo, porém, esbarra em uma máquina de poder construída ao longo de mais de 40 anos para sobreviver exatamente a este tipo de choque. O Irã sofre o golpe, mas não desmorona.
A sucessão rápida evita uma disputa pública no topo do Estado e reduz a incerteza dentro das forças armadas e da burocracia religiosa. Mojtaba é visto por diplomatas e analistas como garantidor da continuidade da linha dura do pai, tanto na repressão interna quanto na projeção regional de poder, do Líbano ao Iêmen. O novo líder herda um país ferido, mas uma estrutura de comando ainda funcional.
A hidra de Teerã: poder distribuído e difícil de decapitar
O ataque que mata Ali Khamenei expõe a fragilidade física do topo do regime, mas também revela a profundidade de suas raízes. Desde a Revolução Islâmica de 1979, o sistema se organiza para não depender de um único homem. “É uma estrutura semelhante à Hidra: você corta uma cabeça e outras crescem”, afirma o pesquisador Sébastien Boussois, do Instituto Geopolítico Europeu, na Bélgica.
O Irã funciona hoje menos como uma ditadura clássica e mais como o que o iranólogo Bernard Hourcade chama de “poliditadura”: uma aliança entre clérigos xiitas, oficiais da Guarda Revolucionária e dirigentes de fundações que controlam bilhões de dólares em ativos. O poder se espalha por conselhos religiosos, comandos militares, tribunais especiais e conglomerados semipúblicos, o que torna qualquer tentativa de derrubada rápida muito mais complexa.
No centro desse arranjo está o Conselho dos Guardiões, composto por 12 membros que validam leis e filtram candidatos. Nas últimas eleições presidenciais, em 2024, o órgão barra dezenas de nomes reformistas e aprova apenas figuras consideradas totalmente leais. O voto existe, mas circula dentro de trilhos estreitos. A promessa de participação popular serve mais como válvula de escape controlada do que como ameaça real à elite.
Se as instituições formam o esqueleto, o músculo é a Guarda Revolucionária Islâmica. Criada em 1979 para proteger a revolução, ela opera em paralelo ao exército regular, com forças terrestres, aéreas, navais e unidades de inteligência próprias. Comanda a milícia Basij, que mobiliza centenas de milhares de voluntários para repressão interna e parafronteiras. Nas ruas de Teerã, nas últimas semanas, são eles que patrulham bairros, monitoram redes sociais e respondem rapidamente a qualquer sinal de protesto organizado.
O vice-ministro da Defesa, Reza Talaeinik, afirma na TV estatal que cada comandante da Guarda tem substitutos designados “até três níveis abaixo”, o que garante continuidade mesmo sob ataques sucessivos. O modelo, segundo Kasra Aarabi, pesquisador da organização United Against Nuclear Iran, incorpora lições da desintegração das forças de Saddam Hussein no Iraque em 2003. “Se o regime continuar de pé, a Guarda terá um papel ainda mais importante”, projeta.
A economia ajuda a cimentar essa coesão. Fundações como as bonyads, criadas como entidades de caridade, controlam hoje milhares de empresas em setores que vão da construção civil à indústria alimentícia. O conglomerado Khatam al-Anbia, ligado à Guarda, participa de grandes obras de infraestrutura e contratos de energia avaliados em bilhões de dólares. Em meio às sanções que derrubam o PIB em alguns anos e empurram a inflação acima de 40%, essas redes distribuem empregos e contratos para quadros considerados confiáveis.
Sociedade exausta, oposição fragmentada e vigilância digital
Nas ruas e nas redes, o clima é distinto. A brutal repressão de janeiro, quando forças de segurança matam milhares de manifestantes em algumas das maiores marchas desde 1979, altera o cálculo de parte da população. Muitos iranianos concluem que o Estado não garante mais o básico — emprego, segurança, água potável — enquanto endurece a mão contra qualquer dissidência.
A oposição, porém, continua dividida. Reformistas que tentam mudar o sistema por dentro, monarquistas que sonham com o retorno da dinastia Pahlavi, grupos de esquerda, organizações da diáspora e movimentos étnicos competem por influência. “Facções moderadas foram marginalizadas, desacreditadas ou presas ao longo das décadas”, observa a pesquisadora Ellie Geranmayeh, do Conselho Europeu de Relações Exteriores.
A ausência de liderança unificada marca também os grandes levantes recentes, do Movimento Verde de 2009 às manifestações após a morte de Mahsa Amini, em 2022. Convocações do filho exilado do último xá voltam a ganhar força neste ano, mas enfrentam a máquina de vigilância de um Estado que se torna especialista em controle digital. O Irã opera um dos sistemas de monitoramento mais sofisticados da região, com bloqueios recorrentes de internet, uso intensivo de inteligência artificial para rastrear opositores e unidades cibernéticas que perseguem ativistas no exterior.
O fosso geracional aprofunda o desgaste. Jovens urbanos, muitos com ensino superior e conectados a redes globais, veem o regime como “corrupto, opressivo e irrelevante para suas aspirações”, resume Hourcade. O sentimento contrasta com o de parte da geração que vive a guerra contra o Iraque nos anos 1980 e associa a sobrevivência do país ao projeto da República Islâmica.
Resiliência agora, incerteza adiante
Analistas costumam apontar três ingredientes para a queda de regimes autoritários: divisão entre as elites, mobilização de massa persistente e recusa das forças de segurança em reprimir. O Irã experimenta, em diferentes momentos, grandes protestos e fissuras internas, mas as forças armadas e a Guarda permanecem, até aqui, alinhadas à cúpula. Sem essa ruptura, mesmo ataques como os de março tendem a fortalecer o núcleo duro.
Hourcade considera “inevitável” o fim da República Islâmica, mas não em prazo curto. “Todo regime acaba um dia. A verdadeira questão é o tempo — a cronologia”, diz. Para ele, a morte de Khamenei representa um golpe profundo: “Não haverá outro como ele. Seu substituto nunca terá a autoridade que Khamenei teve.” Boussois, por sua vez, adverte que uma mudança imposta de fora pode produzir algo ainda mais instável. “O oposto do que se deseja pode ocorrer: como na Coreia do Norte ou em Cuba, um fortalecimento do núcleo duro do regime”, afirma.
Enquanto Mojtaba consolida alianças na hierarquia religiosa e nos quartéis, os Estados Unidos e Israel avaliam o custo político e humanitário de novos ataques. Um ciclo de intervenções militares, em um país de mais de 85 milhões de habitantes e papel central no Oriente Médio, traz riscos difíceis de calcular, do fluxo de refugiados ao impacto nos mercados de energia.
O duelo entre um Estado organizado para sobreviver a choques extremos e uma sociedade mais jovem, cansada e conectada tende a marcar os próximos anos. A hidra iraniana mostra, por ora, que sabe se recompor. A dúvida, em Teerã e fora dela, é se os próximos golpes virão de bombas estrangeiras, das ruas iranianas ou de dentro do próprio sistema.
