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Ataques israelenses matam mais de 300 no Líbano em meio a trégua EUA-Irã

O Líbano registra o dia mais mortal desde 2024 após bombardeios israelenses que matam mais de 300 pessoas na quarta-feira (8), em plena trégua entre Estados Unidos e Irã. Os ataques deixam mais de 1,2 mil feridos e expõem a disputa sobre a inclusão do território libanês no acordo de cessar-fogo.

Trégua em vigor, bombas no sul do Líbano

As explosões começam poucas horas depois do anúncio da trégua entre Washington e Teerã. Enquanto diplomatas celebram o cessar-fogo, caças israelenses sobrevoam o sul do Líbano e atingem áreas densamente povoadas. A cidade de Nabatieh, a cerca de 60 quilômetros de Beirute, vira o epicentro da ofensiva.

Autoridades libanesas informam que mais de 300 pessoas morrem em um único dia, entre elas ao menos 30 crianças. O Ministério da Saúde fala em mais de 1,2 mil feridos e admite que o número de vítimas pode subir nas próximas horas, já que equipes de resgate ainda buscam desaparecidos sob escombros. O governo define a quarta-feira como o dia mais letal no país desde setembro de 2024.

O alvo declarado de Israel são integrantes do Hezbollah, grupo armado apoiado pelo Irã e presente no sul do Líbano há décadas. As Forças de Defesa de Israel confirmam ataques em áreas civis, mas afirmam ter mirado “infraestruturas e combatentes” do movimento. O Exército sustenta que adota “medidas para reduzir danos a civis”, sem detalhar quais protocolos seguem durante os bombardeios.

Entre as vítimas estão também membros das forças de segurança libanesas. O presidente Josef Aoun afirma nesta sexta-feira (10) que 13 agentes morrem em um ataque direto na região de Nabatieh. Segundo ele, trata-se “do maior bombardeio israelense desde o início da guerra” no país. As imagens que circulam em canais locais mostram ruas cobertas de destroços, ambulâncias em fila e hospitais superlotados.

Disputa sobre cessar-fogo amplia risco de escalada

A ofensiva ocorre em meio a um impasse político que redefine o tabuleiro regional. O Irã insiste que o cessar-fogo negociado com os Estados Unidos, com mediação do Paquistão, vale também para o território libanês. Teerã afirma que qualquer ataque contra o Líbano viola a trégua e ameaça responder por meio de seus aliados, entre eles o Hezbollah.

Israel rejeita essa interpretação. O governo de Benjamin Netanyahu, apoiado pela Casa Branca, sustenta que o acordo se limita à frente direta entre iranianos e americanos e não inclui o território libanês. Washington e Tel Aviv tratam o Hezbollah como um ator separado, com o qual, dizem, não existe trégua. A divergência cria uma zona cinzenta que abre espaço para ações militares, mesmo em um cenário de suposta descompressão.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, admite ter pedido a Netanyahu, na quinta-feira (9), uma postura “um pouco mais discreta” no Líbano. O apelo, porém, não interrompe os ataques, que continuam na sexta-feira. Organizações internacionais relatam novos bombardeios em cidades do sul e alertam para o risco de uma escalada que arraste todo o país para a guerra aberta.

No campo humanitário, o quadro piora com velocidade. O Comitê Internacional de Resgate informa que estoques de suprimentos médicos que deveriam durar três semanas são consumidos em apenas um dia. Hospitais improvisam leitos em corredores e estacionamentos, enquanto voluntários relatam falta de analgésicos, antibióticos e sangue para transfusões. A entidade fala na maior pressão sobre o sistema de saúde libanês desde 2024.

Civis sob fogo e incerteza diplomática

A população civil sente o impacto imediato. Famílias abandonam casas em Nabatieh e em vilarejos vizinhos e buscam abrigo mais ao norte, muitas vezes sem garantia de apoio do Estado. Escolas fecham, comitês locais suspendem aulas por tempo indeterminado, e parte do comércio reduz horário de funcionamento diante do temor de novos ataques aéreos.

As forças de segurança libanesas, já fragilizadas por anos de crise econômica, perdem 13 integrantes em um único ataque. O governo admite dificuldades para manter operações de resgate em larga escala e depende de ajuda internacional para reforçar equipes médicas e de logística. Organizações humanitárias alertam para o risco de colapso em serviços básicos, como fornecimento de energia estável para hospitais e acesso a água potável em abrigos improvisados.

No cenário político, o impasse sobre a inclusão do Líbano no cessar-fogo abre uma disputa de narrativas. O Irã e o Paquistão, que medeia as conversas, repetem que Beirute está coberta pela trégua, o que transforma cada bomba em potencial violação formal do acordo. Estados Unidos e Israel se recusam a reconhecer essa leitura, o que na prática libera novas operações contra o Hezbollah, sem ruptura oficial das negociações com Teerã.

A incerteza alimenta o cálculo de todos os lados. O Hezbollah, pressionado por sua base social no sul do Líbano, precisa decidir até onde reage sem provocar uma guerra total. Israel tenta enfraquecer o grupo antes que qualquer arranjo diplomático o proteja. Washington procura manter a mesa de diálogo com o Irã, ao mesmo tempo em que evita a imagem de que abandona um aliado histórico em plena disputa.

Pressão internacional e cenário em aberto

Governos europeus e agências da ONU intensificam apelos por contenção no Líbano. Diplomatas defendem uma clarificação formal do escopo do cessar-fogo, com menção explícita ao território libanês, como forma de frear os bombardeios. Até agora, porém, o texto da trégua permanece restrito às relações diretas entre Teerã e Washington, o que mantém aberta a brecha para ataques.

Em Beirute, o governo tenta capitalizar a comoção internacional para pressionar por garantias de segurança. A prioridade imediata é obter corredores humanitários estáveis para envio de medicamentos, combustível e equipes especializadas ao sul do país. Sem reforço, hospitais podem ficar sem insumos essenciais em poucos dias, aprofundando o balanço de vítimas para além dos mais de 300 mortos e 1,2 mil feridos já confirmados.

Os próximos passos dependem de duas frentes. Na militar, Israel decide se reduz o ritmo dos ataques diante da pressão externa ou se mantém a campanha contra o Hezbollah mesmo sob críticas crescentes. Na diplomática, Estados Unidos, Irã e Paquistão precisam definir, por escrito, se o Líbano está ou não coberto pela trégua anunciada.

Enquanto essa resposta não vem, o país permanece em uma zona de sombra, exposto a novos bombardeios e a uma crise humanitária em aceleração. A pergunta que ecoa em Beirute, nas capitais ocidentais e em Teerã é se o cessar-fogo recém-anunciado será capaz de conter, e não ampliar, a próxima fase da guerra no Oriente Médio.

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