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Ataques israelenses matam mais de 300 e agravam crise no Líbano

Ataques israelenses no sul do Líbano deixam mais de 300 mortos e 1,2 mil feridos na quarta-feira (8), primeiro dia de cessar-fogo entre EUA e Irã. O governo libanês registra o dia mais letal desde 2024 e denuncia violação à trégua, enquanto Washington e Tel Aviv afirmam que o país não está coberto pelo acordo.

Cessar-fogo expõe disputa e amplia desconfiança

O início do cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, em 8 de abril de 2026, não reduz a tensão no Oriente Médio. Horas após o anúncio da trégua, aviões israelenses intensificam bombardeios no sul do Líbano, especialmente na região de Nabatieh, e transformam o que deveria ser um dia de descompressão militar no episódio mais sangrento no país em quase dois anos.

Autoridades libanesas afirmam que mais de 300 pessoas morrem na ofensiva de quarta-feira, incluindo ao menos 30 crianças. Mais de 1,2 mil ficam feridas, número que continua a subir conforme equipes de resgate alcançam áreas destruídas. O Ministério da Saúde alerta que o total de mortos pode ser maior, devido a desaparecidos sob escombros e à sobrecarga dos hospitais.

A disputa sobre o alcance do cessar-fogo se torna imediata. O Irã sustenta que o acordo mediado pelo Paquistão se estende ao território libanês e deve incluir qualquer ação contra o Hezbollah. O governo paquistanês reforça essa leitura. Israel e Estados Unidos rejeitam essa interpretação e argumentam que a trégua é restrita a confrontos diretos entre forças americanas e iranianas.

O impasse jurídico e diplomático se traduz em mísseis e sirenes no sul do Líbano. O presidente libanês, Josef Aoun, afirma nesta sexta-feira (10) que 13 integrantes das forças de segurança morrem em um ataque em Nabatieh, cidade que se torna símbolo da nova fase do conflito. O episódio é descrito por autoridades de Beirute como o maior bombardeio israelense desde o início da guerra.

As Forças de Defesa de Israel confirmam operações em áreas densamente povoadas e dizem atingir alvos do Hezbollah. O comando militar alega que adota medidas para reduzir danos a civis, mas não apresenta detalhamento público das ações. Organizações humanitárias no terreno descrevem cenas de bairros inteiros destruídos, crianças resgatadas entre concreto e vidro e hospitais operando muito acima da capacidade.

Crise humanitária se agrava no sul do país

A pressão sobre o sistema de saúde libanês cresce em ritmo que médicos chamam de insustentável. Segundo o Comitê Internacional de Resgate, estoques de suprimentos médicos planejados para três semanas se esgotam em apenas um dia, diante do volume de feridos. A projeção é de colapso de insumos básicos, como anestésicos e antibióticos, se o ritmo de ataques continuar nos próximos dias.

Hospitais de Nabatieh e de outras cidades do sul recebem ambulâncias sem intervalo. Equipes relatam filas de macas em corredores, cirurgias improvisadas e dificuldade para transferir pacientes graves para Beirute por causa dos riscos nas estradas. Autoridades locais alertam para a impossibilidade de manter tratamentos regulares, o que afeta doentes crônicos e pacientes em radioterapia e hemodiálise.

A população civil se desloca às pressas em busca de abrigo. Famílias deixam casas com poucos pertences, muitas vezes sem documentos, e lotam escolas, mesquitas e prédios públicos transformados em centros de acolhimento. O governo libanês admite que não consegue garantir assistência plena e apela por ajuda internacional urgente em alimentos, remédios e combustível para geradores.

O impacto político também se aprofunda. A ofensiva israelense em meio ao cessar-fogo alimenta a narrativa iraniana de que a trégua precisa ser regional, não limitada a um fronte específico. Em Beirute, partidos alinhados a Teerã pressionam o governo a adotar discurso mais duro contra Washington e a formalizar que o Líbano passa a considerar o acordo violado.

Em Washington, o presidente Donald Trump tenta manter a linha de negociação com o Irã enquanto administra a crescente cobrança de aliados europeus por contenção de Israel. Na quinta-feira (9), ele afirma ter pedido ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que adote postura “um pouco mais discreta” nas operações no Líbano. Os ataques, porém, continuam na sexta-feira.

Próximos passos em cenário de incerteza

As cenas de destruição no sul do Líbano tornam mais complexa a tarefa dos mediadores no Paquistão. A confiança entre Estados Unidos e Irã, já abalada por semanas de confrontos diretos, sofre novo desgaste com a controvérsia sobre a inclusão do território libanês na trégua. Diplomatas avaliam que o episódio reduz espaço para concessões rápidas e fortalece vozes internas em ambos os lados que rejeitam qualquer acomodação com o rival.

No campo militar, a continuidade dos bombardeios israelenses contra o Hezbollah aumenta o risco de arrastar o Líbano para uma guerra mais ampla, com potencial de envolver diretamente Teerã e, em último caso, obrigar Washington a rever o próprio cessar-fogo. Cada novo ataque amplia o custo político de recuar, tanto em Jerusalém quanto em Beirute e Teerã.

Organizações internacionais pressionam por um mecanismo claro que garanta a proteção de civis no sul do Líbano, independentemente da disputa sobre o texto do acordo. Sem definição, moradores seguem entre sirenes e apagões, divididos entre a necessidade de fugir e o medo de não ter para onde voltar. O desfecho da discussão sobre a inclusão ou não do Líbano na trégua pode determinar se o país se aproxima de uma estabilização frágil ou de uma nova escalada regional.

Enquanto negociadores trocam documentos e versões em salas fechadas, a matemática da guerra se impõe nas ruas de Nabatieh e de outras cidades. Mais de 300 mortos em um único dia, 1,2 mil feridos em poucas horas e estoques médicos consumidos em ritmo de emergência compõem o quadro que molda as próximas decisões. A resposta à pergunta sobre até onde vai o alcance real do cessar-fogo definirá não apenas o futuro imediato do Líbano, mas o equilíbrio de forças em todo o Oriente Médio.

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