Ataque russo com mísseis e drones provoca blecautes em toda a Ucrânia
A Rússia lança, nesta terça-feira (22), um ataque maciço com 50 mísseis e 300 drones contra a infraestrutura energética da Ucrânia. As explosões deixam ao menos um morto, provocam blecautes em Kiev e em várias regiões do país e agravam a crise humanitária em pleno inverno.
Rede elétrica sob ataque em pleno inverno
O bombardeio se concentra em usinas, subestações e linhas de transmissão que sustentam o sistema elétrico ucraniano. As autoridades do país descrevem a ofensiva como uma das maiores já registradas contra o setor de energia desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022. Bairros inteiros de Kiev amanhecem sem luz, aquecimento ou água encanada, enquanto equipes de emergência percorrem ruas cobertas de neve em busca de feridos.
O governo ucraniano afirma que os projéteis chegam em ondas sucessivas durante a madrugada, misturando mísseis de cruzeiro e drones explosivos lançados de diferentes direções. Sirenes de alerta aéreo tocam por horas em diversas regiões, de Lviv, no oeste, a Kharkiv, no nordeste. Em Kiev, moradores passam a noite em estações de metrô usadas como abrigo, levando cobertores, animais de estimação e o que conseguem carregar.
As primeiras estimativas apontam milhões de pessoas afetadas pela interrupção de energia, em um momento em que a temperatura cai abaixo de zero em várias partes do país. O Ministério da Energia relata danos significativos a instalações consideradas críticas para o fornecimento de eletricidade e aquecimento urbano, que abastece prédios residenciais por meio de caldeiras centralizadas. “A Rússia tenta transformar o frio em arma de guerra”, afirma um porta-voz do governo em Kiev.
Estratégia de desgaste e impacto humanitário
O ataque desta terça-feira se insere em uma estratégia que ganha força ao longo de 2025 e 2026: enfraquecer a Ucrânia não apenas no campo de batalha, mas na vida cotidiana de seus cidadãos. Ao mirar a infraestrutura energética, Moscou testa a resistência da população e a capacidade do governo de manter serviços básicos em funcionamento. Cada subestação destruída significa horas ou dias de racionamento, filas por água potável e hospitais operando com geradores.
Autoridades ucranianas descrevem um cenário de escalada calculada. “Não é mais só uma pressão militar, é uma tentativa de quebrar a espinha dorsal da sociedade”, diz um analista de segurança em Kiev. Em hospitais pediátricos, médicos correm para transferir crianças que dependem de aparelhos elétricos para alas atendidas por geradores. Em apartamentos sem aquecimento, famílias improvisam fogareiros, aumentando o risco de incêndios e intoxicação por fumaça.
O governo promete restaurar o fornecimento em etapas, priorizando hospitais, estações de bombeamento de água e sistemas de transporte. Técnicos de manutenção trabalham sob temperaturas negativas e sob o risco de novos ataques, percorrendo quilômetros de linhas danificadas. Experiências anteriores mostram que, após ofensivas dessa escala, reparos emergenciais podem levar dias, enquanto a reconstrução completa de algumas estruturas se arrasta por meses.
O episódio reforça um padrão observado desde o início da guerra: a infraestrutura civil se torna alvo recorrente, em violação às normas do direito internacional humanitário. Organismos internacionais já classificam ataques sistemáticos contra energia, água e hospitais como possíveis crimes de guerra. Em nota, uma organização humanitária europeia afirma que “atingir deliberadamente a infraestrutura que mantém civis vivos não é um efeito colateral, é uma tática”.
Escalada diplomática e incerteza à frente
Governos ocidentais preparam reações diplomáticas e discutem novas sanções contra Moscou, focadas em setores ligados à produção de armamentos e tecnologia de drones. Os aliados da Ucrânia devem acelerar o envio de sistemas de defesa aérea, pressionados por imagens de incêndios em usinas e apagões em grandes cidades. Em paralelo, cresce o debate sobre como proteger redes elétricas e de gás em conflitos contemporâneos, em que a linha entre alvo militar e civil se torna cada vez mais tênue.
O ataque amplia a sensação de vulnerabilidade entre os ucranianos às vésperas de mais um inverno sob guerra. Especialistas estimam que novas ondas de mísseis e drones possam ocorrer nas próximas semanas, à medida que a Rússia busca explorar ao máximo o impacto psicológico e material da destruição de energia. Para Kiev, a prioridade imediata é religar o que for possível e garantir abrigo aquecido para quem perdeu o acesso a luz e calefação.
A médio prazo, a Ucrânia enfrenta o desafio de reconstruir uma rede elétrica mais dispersa e protegida, ao mesmo tempo em que depende de ajuda externa para financiar obras e comprar equipamentos. A cada grande ataque, esse objetivo se torna mais urgente e mais caro. Enquanto mísseis e drones continuam sobrevoando o país, a pergunta central permanece sem resposta: até que ponto o mundo aceitará que a energia, elemento básico da vida moderna, siga tratada como campo de batalha?
