Ataque dos EUA ao Irã fecha Ormuz, mexe no petróleo e isola Trump
O ataque ordenado por Donald Trump contra o Irã em 28 de fevereiro de 2026 fecha o Estreito de Ormuz, dispara o preço do petróleo e corrói a autoridade dos Estados Unidos. Em abril, a conta dos efeitos colaterais se impõe na geopolítica, na economia mundial e dentro da própria Casa Branca.
Estreito fechado, petróleo em alta e Moscou em vantagem
O Irã entra na retomada das negociações, em abril, mais forte do que estava quando começam as hostilidades. Controla a torneira por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no planeta e mostra disposição para usá-la como arma. Em vez de render o regime dos aiatolás, a ofensiva americana obriga Washington a reconhecer, na prática, o poder de Teerã sobre o Estreito de Ormuz.
O fechamento quase total da passagem, uma faixa de água com pouco mais de 30 quilômetros entre Irã e Omã, sufoca a oferta global de combustíveis. Navios petroleiros aguardam em fila, rotas são redesenhadas às pressas, prazos de entrega se alongam. A escassez provoca uma arrancada nas cotações internacionais, reacende o temor de desabastecimento em grandes economias e muda o tabuleiro energético.
Quem se beneficia diretamente é a Rússia, grande exportadora de petróleo e gás. A forte alta das cotações engorda as receitas de Moscou, alivia pressões internas e reforça o caixa para aventuras militares e políticas. A guerra que deveria conter a influência de adversários dos Estados Unidos acaba fortalecendo um deles.
Do lado oposto, países dependentes de importação veem a inflação ganhar fôlego. Em poucas semanas, o petróleo mais caro chega às bombas, encarece fretes, pressiona alimentos e amplia custos industriais. Bancos centrais discutem novas altas de juros para conter a escalada de preços, mesmo em economias já fragilizadas por anos de crescimento fraco.
Trump subestima reação e vê oposição crescer
No cálculo inicial, o governo Trump mira três objetivos: enfraquecer o regime iraniano, frear o programa de urânio enriquecido e enviar um recado de força ao Oriente Médio. O plano aposta em ataques cirúrgicos, colapso rápido da infraestrutura militar iraniana e negociação em posição de superioridade. A realidade impõe outra narrativa.
O Irã mantém o regime, preserva estoques sensíveis e responde com o que tem de mais estratégico: Ormuz. O presidente americano não obtém a “rendição incondicional” que seus assessores acenam nas primeiras horas da ofensiva. Em vez disso, enfrenta críticas externas pelo desequilíbrio da resposta militar e, internamente, uma oposição que encontra na inflação e na alta da gasolina um argumento poderoso.
Nos Estados Unidos, o custo do galão sobe com rapidez nas primeiras semanas após o fechamento do estreito. Consumidores reagentes pressionam congressistas, grupos empresariais reclamam de incerteza e parte do próprio Partido Republicano se afasta da estratégia. A pergunta que ecoa em Washington é direta: Trump considerava de fato “os poderosos efeitos colaterais adversos” antes de apertar o gatilho em fevereiro?
As mesas de negociação retomadas em abril, em meio a uma trégua frágil, expõem o impasse. Washington já não fala em derrubar o regime dos aiatolás. Teerã exige o fim das sanções mais duras e garantias de que poderá exportar petróleo sem bloqueios. Diplomatas avaliam que o melhor resultado possível, no curto prazo, é uma reabertura gradual de Ormuz com limites de fluxo por dia, suficiente para aliviar o mercado, mas não a ponto de esvaziar o poder de barganha iraniano.
Não há clareza sobre até onde a Casa Branca está disposta a ceder. Nem sobre o que o Irã aceita entregar em troca, especialmente em relação ao programa nuclear. A incerteza mantém o risco de nova rodada de ataques e de novos fechamentos do estreito, como o determinado nesta quarta-feira, 8, em reação a pressões e incidentes na região.
Petróleo caro, dólar fraco e o efeito inesperado no Brasil
O choque de Ormuz também repercute na economia brasileira, mas de forma menos linear. O petróleo mais caro, em tese, pressiona combustíveis e transporte. Ao mesmo tempo, a moeda americana perde força globalmente. Em relação ao real, o dólar cai quase 7% desde o início de 2026 e fecha esta quarta-feira, 8, a R$ 5,1029, menor valor em quase dois anos, desde maio de 2024.
A combinação de dólar mais fraco e commodities cotadas em moeda americana atenua parte da alta externa. Importados chegam mais baratos, fertilizantes aliviam custos no campo, produtos com preços atrelados ao dólar – como café, soja e milho – ganham outra dinâmica. A valorização do real ajuda a segurar a inflação e abre espaço, em tese, para uma queda de juros mais rápida do que se previa antes da crise.
O governo Lula observa esse movimento com atenção. Os subsídios aos combustíveis, anunciados como “temporários” e ancorados na perspectiva de receitas maiores com royalties e contribuições especiais, entram automaticamente na linha de revisão. Se o barril recua após uma eventual reabertura sustentada de Ormuz, a lógica fiscal empurra os subsídios para baixo. O alívio nas bombas tende a vir mais pela combinação entre câmbio e normalização da oferta do que pela mão pesada do Tesouro.
Setores intensivos em energia, como transporte de cargas, aviação e indústria de base, sentem primeiro o soluço global. Empresas adiam investimentos, renegociam contratos e apostam em fontes alternativas, do etanol ao gás natural. O choque no Golfo Pérsico, distante milhares de quilômetros, reaparece em reuniões de diretoria em São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre.
Diplomacia em marcha lenta e um tabuleiro em aberto
As próximas semanas de trégua devem mostrar se a aposta diplomática prevalece sobre a lógica do confronto. Irã e Estados Unidos voltam à mesa pressionados por seus próprios custos internos. O primeiro quer manter o controle de Ormuz sem convidar uma escalada incontrolável. O segundo tenta recuperar iniciativa num cenário em que aliados tradicionais cobram previsibilidade e equilíbrio.
Os grandes consumidores de petróleo correm para recompor e, quando possível, reforçar estoques estratégicos. A demanda sobe justamente quando a oferta ainda patina, à espera de reparos em refinarias e oleodutos danificados na região. Cada novo incidente próximo ao estreito se traduz em sobressalto nas bolsas e nos terminais de negociação.
Para o Brasil e outras economias emergentes, a crise deixa lições incômodas sobre dependência externa e vulnerabilidade cambial. O dólar em queda hoje ajuda a conter preços, mas pode se recuperar com a mesma velocidade se o quadro geopolítico mudar. A discussão sobre diversificação da matriz energética e blindagem fiscal ganha força em Brasília, ainda que as respostas sigam lentas.
Enquanto não se define se prevalece o acordo ou o míssil, o Estreito de Ormuz permanece como símbolo dessa nova fase de instabilidade: uma faixa estreita de água capaz de redesenhar alianças, derrubar governos e decidir quanto o motorista brasileiro paga pelo litro de combustível. A dúvida que insiste, em Washington e nas capitais do mundo, é se o ataque de fevereiro inaugura um ciclo de contenção ou o começo de mais uma década de choques sucessivos.
