Assessor de Milei é ligado à saída de Flávio Bolsonaro do Brasil e Argentina entra no centro da apuração
Reportagem do Clarín aponta que Santiago Caputo teria acompanhado a operação na fronteira e a contratação de um jato para os Estados Unidos; governo brasileiro busca esclarecer eventual participação de autoridades argentinas e americanas.

A Argentina passou a ocupar o centro das apurações sobre a saída do senador Flávio Bolsonaro do Brasil rumo aos Estados Unidos. Santiago Caputo, assessor próximo do presidente Javier Milei, esteve em Puerto Iguazú na mesma noite em que o parlamentar embarcou em um jato particular com destino a Miami.
Segundo fontes da Casa Rosada, Caputo teria acompanhado etapas da operação que levou Flávio e sua família ao exterior, incluindo a logística para o transporte aéreo. O relato também aponta que empresas ligadas à Embaixada dos Estados Unidos teriam contratado um voo da empresa argentina Baires Fly.
Leia também: Eleições nos EUA podem mudar força de Trump no Congresso; entenda o sistema
As informações colocaram sob escrutínio a possível participação de pessoas ligadas ao governo de Milei e ampliaram as dúvidas sobre o trajeto percorrido pelo senador. O governo brasileiro busca esclarecer as circunstâncias da viagem e eventual envolvimento de agentes brasileiros, argentinos ou americanos.
LEIA TAMBÉM
Governo Lula orienta ministros a evitar confronto após ida de Flávio Bolsonaro aos EUA
Assessor de Milei teria acompanhado a operação em Puerto Iguazú
Santiago Caputo viajou de Buenos Aires a Puerto Iguazú em um voo comercial, acompanhado de uma equipe. Na cidade argentina, ele teria monitorado a movimentação relacionada ao transporte da família Bolsonaro, com preocupação para evitar que imagens da operação fossem divulgadas.
Caputo não ocupa um cargo formal no governo argentino, mas é considerado um dos principais assessores políticos de Milei e mantém contatos com representantes da Casa Branca ligados ao presidente americano Donald Trump.
Fontes da Casa Rosada trazem a informação de que o assessor teria acompanhado a operação desde a contratação do voo. Até o momento, porém, os relatos publicados não equivalem a uma confirmação oficial de que o governo argentino, como instituição, tenha organizado a saída do senador.

Jato particular, empresa argentina e destino nos Estados Unidos
Flávio Bolsonaro e familiares embarcaram em um avião particular que partiu de Puerto Iguazú na noite de terça-feira, 27 de outubro. O destino final foi Miami, na Flórida, onde o grupo chegou na manhã seguinte, após uma escala em Guayaquil, no Equador.
O avião era operado pela Baires Fly, empresa argentina citada nas reportagens sobre o caso. As empresas ligadas à Embaixada dos Estados Unidos teriam contratado a aeronave.
A relação entre a contratação do voo, a presença de Caputo na cidade fronteiriça e a saída do senador é um dos pontos que alimentam as perguntas sobre a logística da viagem. A extensão da participação de cada envolvido, entretanto, ainda depende de esclarecimentos e da apuração das circunstâncias.
Versões contraditórias ampliaram as dúvidas
A saída de Flávio ocorreu em meio a informações desencontradas sobre seu paradeiro. Ao longo da terça-feira, circularam relatos de que o senador já teria deixado o Brasil, enquanto aliados e interlocutores ainda tentavam confirmar onde ele estava.
Inicialmente, autoridades argentinas negaram que Flávio tivesse entrado no país. Posteriormente, informações atribuídas à Direção Nacional de Migrações da Argentina indicaram que ele e a família teriam cruzado a fronteira pela Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu, no Brasil, e Puerto Iguazú, na Argentina.
O governo brasileiro procura esclarecer o horário e a forma como o senador atravessou a fronteira, onde permaneceu antes de chegar ao aeroporto e qual transporte utilizou no deslocamento até a região. Também busca reconstituir a sequência de acontecimentos que antecedeu a decolagem do jato particular.
O próprio Caputo publicou nas redes sociais uma imagem relacionada ao filme O Grande Truque em meio à confusão sobre o paradeiro de Flávio. Depois, criticou a cobertura jornalística do episódio. A postagem, isoladamente, não comprova participação na operação, mas passou a ser mencionada na reconstrução dos acontecimentos feita pela imprensa.

Por que a atuação da Argentina interessa ao Brasil?
A localização de Puerto Iguazú, na tríplice fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai, torna o país vizinho uma peça importante para esclarecer a rota percorrida pelo senador. O governo brasileiro busca confirmar se houve ajuda para o deslocamento e se autoridades ou pessoas ligadas a governos estrangeiros participaram de alguma etapa.
O caso ganhou dimensão diplomática porque envolve a possibilidade de atuação de pessoas próximas ao presidente argentino e a hipótese de participação de empresas ligadas a representantes americanos na contratação do voo. Até aqui, os relatos jornalísticos apresentam indícios e informações atribuídas a fontes, mas não demonstram, por si só, uma decisão formal do governo argentino para facilitar a saída de Flávio.
A relação política entre Milei e a família Bolsonaro também faz parte do contexto. O presidente argentino mantém proximidade ideológica com o grupo político brasileiro, e o episódio ocorre em um momento de tensão entre os governos de Buenos Aires e Brasília.
Saída ocorreu após ordem judicial sobre passaportes
Flávio deixou o Brasil depois de ser intimado a cumprir uma determinação judicial relacionada à entrega de seus passaportes. O senador é alvo de investigações que tramitam no Supremo Tribunal Federal, incluindo apurações sobre suspeitas financeiras. Ele nega irregularidades.
O contexto da ordem judicial aumentou a atenção das autoridades para o deslocamento internacional do parlamentar. A Polícia Federal trabalha para reconstruir a rota, verificar informações sobre os registros migratórios e esclarecer se houve auxílio de terceiros.
Em carta divulgada já nos Estados Unidos, Flávio agradeceu a Javier Milei e a Donald Trump. A manifestação, contudo, não esclareceu qual teria sido a participação efetiva dos governos argentino e americano em sua viagem.
O que ainda precisa ser esclarecido
Entre as principais perguntas estão quem organizou e pagou pelo voo, quando a contratação foi feita, qual foi a participação de Santiago Caputo e se houve comunicação prévia entre representantes dos governos envolvidos. O governo brasileiro também busca confirmar os registros de entrada e saída da Argentina e a sequência exata dos deslocamentos do senador.
A apuração exige distinguir a presença de um assessor político na cidade, os relatos sobre sua atuação e uma eventual participação institucional do governo argentino. São questões relacionadas, mas não equivalentes.
Até que as informações sejam verificadas pelas autoridades competentes, a suposta colaboração de integrantes do entorno de Milei deve ser tratada como uma hipótese sob apuração jornalística e oficial. O caso pode ampliar a tensão diplomática entre Brasil e Argentina, mas a dimensão de suas consequências dependerá do que as investigações conseguirem comprovar.


