Assembleia do Irã elege Mojtaba Khamenei novo líder supremo
Mojtaba Hosseini Khamenei, 56, é confirmado na madrugada desta segunda-feira (9/3) como novo líder supremo do Irã pela Assembleia dos Experts, em meio à guerra e a ameaças diretas dos Estados Unidos e de Israel.
Escolha em sessão extraordinária durante bombardeios
Na noite de domingo, em Teerã já sob fumaça de mísseis e incêndios em depósitos de combustível, os 88 clérigos da Assembleia dos Experts se reúnem em sessão extraordinária. Horas depois, divulgam um comunicado que consagra o segundo filho mais velho de Ali Khamenei como terceiro líder do “sagrado sistema da República Islâmica do Irã”. O texto convida “todo o povo do Irã, especialmente as elites e intelectuais”, a jurar lealdade à nova liderança e a manter a unidade “em torno do eixo dos Guardiões”, referência direta à Guarda Revolucionária.
A decisão sai apenas nove dias após a morte de Ali Khamenei, atingido em 28 de fevereiro por um bombardeio israelense em Teerã, no primeiro dia da guerra. A rapidez na sucessão evidencia a prioridade do regime: sinalizar continuidade política e religiosa em meio a ataques à infraestrutura crítica, sanções e pressão coordenada de Washington e de Tel Aviv.
Horas antes do anúncio oficial, um dos membros da Assembleia já havia antecipado o desfecho. “O novo líder foi eleito por uma esmagadora maioria dos votos. O nome de Khamenei permanecerá como líder”, declara o aiatolá Hosseinali Eshkevari, em vídeo transmitido pela mídia estatal. A mensagem fecha qualquer expectativa de ruptura interna e reforça a opção por uma sucessão familiar, algo que o próprio regime sempre negou que faria.
Pressão externa e retrato de um herdeiro discreto
A escolha de Mojtaba ocorre sob ameaça explícita de dois dos principais adversários do Irã. Depois de classificar o nome do novo aiatolá como “inaceitável”, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declara à rede ABC News que o sucessor “não vai durar muito” se não tiver a aprovação de Washington. Em farsi, o perfil oficial das Forças de Defesa de Israel na rede X promete perseguir “qualquer sucessor de Ali Khamenei”. O recado conjunto é de que a nova liderança também será alvo militar e político.
Associado ao núcleo mais duro do regime, Mojtaba constrói sua carreira longe dos holofotes. Nascido em 8 de setembro de 1969 em Mashhad, cidade sagrada no leste do país, ele é um dos seis filhos de Ali Khamenei e o único com presença pública constante, ainda que sem cargo formal. Estuda teologia em Qom, principal centro do clero xiita iraniano, onde também leciona, e se aproxima da Guarda Revolucionária e da milícia Basij, braço paramilitar usado para controlar protestos.
O Departamento do Tesouro dos EUA inclui o nome de Mojtaba em sua lista de sanções em 2019 e o descreve como representante direto do líder supremo, mesmo sem posto oficial. Opositores atribuem a ele papel central na repressão violenta às manifestações que seguem a contestada reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, em 2009. Investigação da agência Bloomberg aponta o envolvimento do novo líder em uma rede de empresas de fachada no exterior, que teria servido para acumular fortuna e blindar recursos do círculo do poder.
Para diplomatas e analistas, a ascensão de Mojtaba confirma o triunfo da ala mais linha-dura do sistema. “Do ponto de vista do Irã, representa continuidade, o que é importante para o regime. Também permitiu que fosse uma escolha rápida”, avalia Kai Enno Lehmann, professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo (USP). Ele lembra que Trump e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, já sinalizam que só aceitariam um líder “amigável” ao Ocidente. “Diante das circunstâncias atuais, isso parece muito improvável.”
Regime aposta em sobrevivência em meio à guerra
Analistas concordam que a prioridade de Mojtaba será preservar o regime teocrático em um momento descrito como existencial pela própria cúpula iraniana. “Para a população civil, a situação é péssima. Diante dos ataques israelo-americanos, reforço que a prioridade será a sobrevivência do regime”, afirma Lehmann. Ele não identifica, por ora, sinais claros de fratura no comando político ou militar em Teerã.
O historiador iraniano Arash Azizi, da Universidade de Yale, ressalta o caráter enigmático do novo aiatolá. “Ele praticamente não aparecia em público e pouco se sabe sobre suas abordagens. Mas sabemos que tem laços profundos com as forças de segurança do Irã e tem estado por trás do aparato repressivo do regime, em coordenação com o escritório do pai”, observa. Para Azizi, a eleição de Mojtaba, apesar da oposição pública de Trump, soa como um gesto de desafio. “O regime quer continuar lutando.”
Dentro do país, o sentimento é ambíguo. Em Teerã, a moradora Minoo, nome fictício, descreve uma capital às escuras após o ataque a quatro depósitos e um centro logístico de produtos petrolíferos, que deixa seis mortos e 20 feridos. “De repente, o céu tornou-se avermelhado. A chuva trouxe consigo todas as partículas em suspensão no ar. Então, o chão ficou preto, assim como as solas dos nossos sapatos”, relata ao Correio. Autoridades recomendam o uso de máscaras e pedem que moradores não saiam de casa.
Da mesma cidade, Minoo expressa a exaustão de parte da sociedade com a continuidade do sistema. “Antes, algumas pessoas diziam que, se depois de Khamenei, Mojtaba se tornasse o líder, ele seria como Mohammed bin Salman na Arábia Saudita e traria reformas. Não acredito nisso. Sou contra clérigos e contra um governo religioso”, afirma. “Quando olhamos para trás, vemos luto, tristeza e mortos. Quando olhamos para frente, vemos uma guerra que ninguém sabe quando terminará.”
Risco de escalada regional e futuro incerto
A posse de Mojtaba acontece enquanto o conflito se espalha pelo Golfo Pérsico. Pela primeira vez desde o início da guerra, mísseis atingem infraestrutura crítica no Irã e em países vizinhos. Em resposta aos ataques em Teerã, o Exército iraniano bombardeia uma usina de dessalinização no Bahrein. Na Arábia Saudita, a queda de um projétil em uma área residencial de Al-Jarj, sede de uma base americana, mata duas pessoas e fere 12. O Comando Central dos EUA registra a sétima morte de soldados americanos desde o início da ofensiva.
A Guarda Revolucionária afirma estar pronta para “pelo menos seis meses de guerra”, em uma indicação de que Teerã calcula um conflito prolongado. Netanyahu divulga um vídeo com legendas em farsi e em inglês, se dirigindo diretamente aos iranianos. “Não buscamos dividir o Irã. Buscamos liberar o Irã”, diz o premiê, que incentiva a população a se levantar contra o regime e fala em um futuro em que Israel e Irã “retornarão a ser amigos corajosos”.
Dentro do sistema iraniano, a linha sucessória se fecha pela terceira vez desde a Revolução Islâmica de 1979, quando Ruhollah Khomeini derruba o xá Reza Pahlavi e implanta o modelo de liderança vitalícia do aiatolá. Em 1989, Ali Khamenei assume o posto após a morte de Khomeini e permanece no poder por 37 anos, até ser morto em fevereiro. Mojtaba herda, além da estrutura das forças de segurança e do clero, um país asfixiado por sanções, mergulhado em guerra e com uma parte significativa da sociedade descrente de promessas de reforma.
A próxima fase dependerá da capacidade do novo líder de equilibrar a sobrevivência do regime com o custo humano e econômico da guerra. As primeiras declarações de Washington e de Tel Aviv indicam que a margem de manobra externa será mínima. Em Teerã e nas demais cidades iranianas, a dúvida central não é quem governa o país, mas quanto tempo o país aguenta uma nova rodada de confrontos antes que a pressão venha de dentro.
