Ciencia e Tecnologia

Artemis 2 leva humanos de volta à vizinhança da Lua em 2026

A missão Artemis 2, prevista para uma janela de lançamento que começa em 6 de março de 2026, leva quatro astronautas à órbita da Lua em um voo de cerca de dez dias. Será a primeira vez em mais de meio século que seres humanos deixam a vizinhança da Terra para enxergar o solo lunar de perto.

Uma nova geração no caminho da Lua

Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen ocupam os quatro assentos da cápsula Orion, no topo do foguete SLS, o mais potente já construído pela Nasa desde a era Apollo. Eles representam uma geração que cresceu vendo a Lua apenas em livros, transmissões de arquivo e simulações de computador. Agora, cruzam a fronteira que separa a órbita baixa da Terra do espaço profundo.

O plano da agência é simples na forma e complexo na execução: lançar o SLS da Flórida, impulsionar a Orion até a velocidade necessária para escapar da gravidade terrestre, contornar a Lua e voltar em segurança. O voo não inclui pouso. A missão funciona como um grande teste de sistemas de navegação, propulsão, comunicação e suporte à vida, que precisam operar de forma confiável a quase 400 mil quilômetros de casa.

A janela de lançamento abre em 6 de março e inclui também os dias 7, 8, 9 e 11. Se problemas técnicos ou meteorológicos impedirem a decolagem nesse período, o calendário se estende para abril, com oportunidades em 1º, de 3 a 6 e em 30 de abril. Cada dia em que o relógio corre aumenta a pressão sobre engenheiros e gestores, que trabalham para resolver um velho incômodo: o vazamento de combustível que persegue o programa desde a Artemis 1.

O SLS, sigla em inglês para Sistema de Lançamento Espacial, nasce do legado dos ônibus espaciais, aposentados em 2011. Reaproveita motores principais e parte da tecnologia de tanques e reforços estruturais, mas reúne tudo em uma configuração totalmente nova, pensada para cargas muito pesadas e voos além da órbita baixa. É uma espécie de foguete-herdeiro: carrega a memória da era dos shuttles e tenta inaugurar uma nova fase de presença humana no espaço profundo.

Do silêncio desde Apollo à nova corrida lunar

A Artemis 2 quebra um jejum que dura desde dezembro de 1972, quando a Apollo 17 deixou a órbita lunar e selou o fim da primeira era de explorações tripuladas no satélite. Entre 1968 e 1972, nove missões tripuladas da Nasa viajaram até a Lua, seis delas com pousos bem-sucedidos na superfície. Era o auge da corrida espacial em plena Guerra Fria, com os Estados Unidos disputando prestígio com a União Soviética.

O mundo de 2026 é outro. A disputa geopolítica envolve agora China, Europa, Índia e empresas privadas, que investem bilhões de dólares em foguetes reutilizáveis, sondas e estações em órbita. A Artemis 2 insere os Estados Unidos nessa nova rodada da corrida lunar com um objetivo mais amplo que a bandeira fincada no solo. O programa fala em bases no polo sul da Lua, mineração de recursos locais e preparação para missões humanas a Marte nas próximas décadas.

O voo de Wiseman, Glover, Koch e Hansen tem também um peso simbólico. Glover se torna o primeiro negro a viajar rumo à vizinhança lunar, e Koch, que já detém o recorde de maior permanência contínua de uma mulher no espaço, integra a primeira missão nessa rota com uma tripulante feminina. Hansen, da Agência Espacial Canadense, leva ao espaço profundo a bandeira de um parceiro histórico dos EUA, num recado de cooperação internacional em meio a um ambiente de competição crescente.

Para fora da Nasa, a missão movimenta universidades, centros de pesquisa e empresas de tecnologia. Sistemas de suporte à vida mais eficientes, novos materiais para proteger a cápsula da radiação e softwares de navegação mais precisos tendem a chegar à economia civil em poucos anos. Cada dia de teste no espaço profundo alimenta bancos de dados usados em simulações industriais, desenvolvimento de sensores e aperfeiçoamento de algoritmos de inteligência artificial.

Impacto científico, econômico e político

A Nasa calcula que o programa Artemis, do qual a missão 2 é uma etapa intermediária, movimenta dezenas de milhares de empregos diretos e indiretos nos Estados Unidos, distribuídos por estados que fabricam componentes do SLS, da Orion e da infraestrutura de solo. Contratos bilionários com grandes fabricantes de foguetes e com empresas de menor porte criam um ecossistema próprio de inovação aeroespacial.

No plano científico, a Artemis 2 prepara o terreno para a Artemis 3, planejada para levar uma tripulação ao polo sul lunar. A região interessa porque abriga gelo em crateras permanentemente sombreadas, recurso que pode ser transformado em água potável, oxigênio e combustível para foguetes. O voo de 2026 testa rotas, comunicações e a resistência da tripulação, dados essenciais para planejar estadias mais longas no entorno do satélite.

Pesquisadores da área de saúde acompanham com atenção os impactos de cerca de dez dias em ambiente de radiação mais intensa que na órbita baixa da Terra. O corpo humano evolui protegido pelo campo magnético do planeta, e cada incursão além dessa bolha ajuda a mapear riscos de câncer, problemas cardiovasculares e danos ao sistema nervoso. As respostas interessam tanto a futuras missões a Marte quanto ao tratamento de pacientes em Terra, expostos a radiação em terapias médicas.

O projeto também reforça o posicionamento político dos EUA na chamada nova corrida espacial. Ao demonstrar capacidade de enviar pessoas de volta à vizinhança lunar, Washington sinaliza a aliados e rivais que mantém a dianteira tecnológica em voos tripulados de longo alcance. A presença de um canadense na cápsula funciona como vitrine do arranjo de cooperação que a Nasa pretende replicar com outros parceiros, em especial na construção da estação lunar Gateway.

O que vem depois do sobrevoo lunar

Se o lançamento ocorrer dentro da janela de março ou abril, e se o SLS enfim superar o histórico vazamento de hidrogênio líquido nos tanques, a Nasa sai do voo com um mapa detalhado do comportamento da Orion no trajeto de ida e volta à Lua. Cada dado de vibração, temperatura e consumo de combustível alimenta o planejamento da Artemis 3 e das missões seguintes.

Nos bastidores, engenheiros já discutem cenários que vão além do fim desta década. Projeções internas falam em missões regulares à órbita lunar, construção de módulos de superfície e uso de recursos locais para reduzir a dependência de cargas enviadas da Terra. A Artemis 2 não pousa, não coleta rochas e não instala equipamentos no solo, mas marca o retorno físico de seres humanos à vizinhança do satélite. A partir do momento em que a cápsula apontar suas janelas para o cinza da Lua, a pergunta deixa de ser se voltaremos a caminhar por lá e passa a ser quando e com que ambição.

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