Artemis 2 leva astronautas à Lua com tecnologia dos anos 1970
A Nasa prevê para março de 2026 o lançamento da missão Artemis 2, primeiro voo lunar tripulado desde 1972. A viagem de dez dias leva quatro astronautas ao redor da Lua em um foguete baseado em motores projetados nos anos 1970 e numa cápsula concebida no início dos anos 2000.
Corrida de retorno à Lua com passado reaproveitado
O foguete Space Launch System (SLS) e a cápsula Orion já ocupam o centro das atenções no Centro Espacial Kennedy, em Cabo Canaveral, na Flórida. A bordo vão Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen, encarregados de testar o sistema que deve pavimentar o caminho para um pouso humano na superfície lunar ainda nesta década.
A aposta da Nasa combina ambição e conservadorismo. O SLS usa literalmente os mesmos motores desenvolvidos para os ônibus espaciais na década de 1970, adaptados para um foguete descartável de grande porte. A cápsula Orion retoma um desenho selecionado em 2006, com espaço para quatro tripulantes e um módulo de serviço fornecido pela Agência Espacial Europeia.
A agência vende essa escolha como uma espécie de seguro tecnológico. Em vez de arriscar tudo em sistemas totalmente novos, recorre a equipamentos de desempenho conhecido, mesmo que caros e complexos. O custo de desenvolvimento do SLS já ultrapassa US$ 30 bilhões, com cerca de US$ 2,5 bilhões por lançamento, valores que alimentam críticas no Congresso e na comunidade espacial.
A estratégia atual nasce de frustrações acumuladas. A arquitetura que sustenta o voo da Artemis 2 é definida em 2011, a partir dos destroços do programa Constellation, criado em 2005 no governo George W. Bush para devolver astronautas americanos à Lua. Após anos de subfinanciamento, o sucessor Barack Obama conclui que o plano é insustentável, cancela o projeto e empurra a Nasa em direção a parcerias comerciais e a um objetivo mais distante: Marte.
O Congresso reage e resgata parte da estrutura anterior, tanto por motivos estratégicos quanto por pressão de estados que vivem da indústria espacial. Mantém a cápsula Orion, reaproveita o conceito do gigantesco foguete Ares 5 e o rebatiza como SLS. O módulo lunar é abandonado, e um segundo foguete, o Ares 1, cai no corte de despesas. A nova configuração reduz a ambição, mas preserva milhares de empregos altamente qualificados em centros como Huntsville, no Alabama, e Houston, no Texas.
Vazamentos, atrasos e concorrência privada à espreita
A Artemis 2 deveria decolar meses antes. A missão sofre sucessivos adiamentos por causa de vazamentos de combustível durante o abastecimento do SLS. O problema já atrasa por meses a Artemis 1, voo não tripulado realizado em novembro de 2022, e volta a aparecer em um teste de “ensaio molhado” com o foguete atual, no início de janeiro.
Os vazamentos levam a Nasa a desistir de uma janela de lançamento em fevereiro e a mirar março de 2026. Se as próximas rodadas de testes no bloco de lançamento não resolverem a questão, o SLS precisa ser rebocado de volta ao prédio de montagem, o que empurra a missão ainda mais para a frente. Ninguém na agência arrisca datas em público.
Enquanto o cronograma escorrega, o cenário ao redor muda rapidamente. Empresas privadas colocam em operação foguetes de grande porte com ritmo de voos mais ágil e custos menores. O New Glenn, da Blue Origin, passa a voar com desempenho comparável ao SLS, embora com capacidade um pouco inferior de carga. A SpaceX avança com o Starship, veículo ainda experimental, mas projetado para superar em potência todos os concorrentes e pousar de volta à Terra para reutilização.
O resultado é um incômodo contraste. O SLS se torna o foguete mais poderoso em operação quando decola pela primeira vez, em 16 de novembro de 2022, a partir da plataforma 39B em Cabo Canaveral. Em poucos anos, porém, corre o risco de ficar tecnologicamente defasado diante de veículos mais modernos, reutilizáveis e operados com cadência bem maior. Analistas do setor falam em um “elefante branco” mantido em grande parte por interesses políticos e institucionais.
A Orion escapa parcialmente desse rótulo. A cápsula é concebida para ser parcialmente reutilizável e tem flexibilidade para voar sobre outros foguetes, como o próprio New Glenn, o Vulcan e o Falcon Heavy. O principal ponto de atenção está no escudo térmico, responsável por proteger a tripulação na reentrada em alta velocidade na atmosfera terrestre.
Durante a Artemis 1, a proteção térmica sofre um desgaste maior que o previsto ao retornar de uma órbita distante da Lua. Técnicos da Nasa passam mais de um ano dissecando dados, testando amostras do material e simulando novas trajetórias de reentrada. A conclusão oficial é de que o desenho atual é “seguro o bastante” para a Artemis 2, que voa com um escudo idêntico. Para as missões seguintes, a agência planeja um redesenho para aumentar a margem de segurança.
Disputa com China e pressão por uma nova geração de sistemas
A Artemis 2 não pousa na Lua. A cápsula contorna o satélite, testa comunicações, navegação e sistemas de suporte à vida e volta à Terra em cerca de dez dias. Mesmo assim, o voo tem peso simbólico e estratégico. É a primeira vez em mais de meio século que astronautas deixam a órbita baixa da Terra, passo necessário para qualquer plano de presença humana duradoura fora do planeta.
A Nasa enxerga essa missão como ensaio geral para a Artemis 3, que pretende realizar o primeiro pouso lunar tripulado do século 21. O cronograma oficial fala em 2028, mas o próprio programa admite, entre técnicos e parceiros, que o prazo é otimista. O módulo de pouso escolhido, uma versão do Starship da SpaceX, ainda não está pronto. Uma alternativa da Blue Origin, o módulo Blue Moon, corre por fora, também em desenvolvimento. Até os trajes espaciais necessários para caminhar na superfície lunar acumulam atrasos.
No pano de fundo, a China acelera. O programa chinês de exploração prevê uma alunissagem tripulada até 2030, com uma arquitetura mais enxuta e foco em veículos próprios. A disputa não repete a lógica da Guerra Fria, mas influencia discursos no Congresso americano e libera recursos para manter o programa Artemis em evidência.
A estação orbital lunar Gateway, pensada como uma mini Estação Espacial Internacional ao redor da Lua, entra nesse jogo. Os primeiros módulos dependem de lançamentos do SLS e de foguetes comerciais de grande porte. O sucesso da Artemis 2 determina o grau de confiança política no modelo híbrido que mistura hardware estatal de décadas passadas com naves e serviços comprados no mercado.
Se tudo correr como planejado, o voo de Wiseman, Glover, Koch e Hansen marca a transição entre duas eras. Uma ainda se apoia em motores dos anos 1970 e projetos de 20 anos atrás. A outra exige sistemas mais baratos, frequentes e flexíveis, capazes de sustentar bases lunares, mineração de recursos locais e, no limite, viagens a Marte.
O lançamento de março não responde a todas as dúvidas sobre custo, ritmo e escolha de tecnologias. Define, porém, se a Nasa atravessa essa ponte com segurança ou se abre ainda mais espaço para rivais —públicos e privados— ditarem o próximo capítulo da história humana na Lua.
