Ciencia e Tecnologia

Artemis 2 adia de novo lançamento e reacende corrida humana à Lua

A Nasa empurra para março de 2026 o lançamento da Artemis 2, missão que leva quatro astronautas a orbitar a Lua pela primeira vez em mais de 50 anos. O voo marca a retomada das viagens tripuladas ao entorno lunar desde a Apollo 17, em 1972.

Da contagem regressiva ao novo adiamento

O plano original aponta para fevereiro de 2026. O aperto no calendário e um vazamento persistente de combustível no foguete Space Launch System, o SLS, mudam o rumo. A agência agora mira uma janela que começa em 6 de março, com datas alternativas em 7, 8, 9 e 11. Se nada disso funcionar, novas tentativas podem ocorrer em 1º, de 3 a 6 e em 30 de abril.

O adiamento não encerra o entusiasmo dentro da Nasa, mas expõe o principal desafio técnico da empreitada. O vazamento, detectado desde a Artemis 1, envolve hidrogênio líquido, combustível extremamente frio e difícil de conter. Cada teste de abastecimento revela pequenas perdas, suficientes para acender alertas de segurança e forçar correções no sistema de vedação e nos tubos que alimentam os motores.

Os ajustes empurram prazos, mas sustentam a promessa de um retorno seguro da humanidade à vizinhança lunar. A cápsula Orion, que leva a tripulação, já cumpre um voo não tripulado ao redor da Lua na missão anterior. Agora, a Nasa precisa provar que o conjunto foguete–nave consegue repetir a performance com quatro vidas a bordo.

Essa combinação de urgência política e cautela técnica define o clima no programa Artemis. A missão Artemis 2 deixa claro que a agência não vende mais a imagem de corrida desenfreada, como nos anos 1960. A disputa ainda existe, com China e empresas privadas avançando, mas a Nasa tenta mostrar que aprende com acidentes do passado e com as pressões do presente.

Quatro nomes, dez dias e meio século de espera

A bordo da Artemis 2 vão Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen. Os quatro se tornam os primeiros seres humanos a deixar a órbita baixa da Terra desde dezembro de 1972, quando a Apollo 17 encerra a era das viagens lunares. A missão atual prevê cerca de dez dias de duração, tempo suficiente para testar todos os sistemas da Orion em regime real.

Wiseman, ex-piloto de caça e ex-chefe do corpo de astronautas, assume o comando. Glover, que já passa quase seis meses na Estação Espacial Internacional, será o piloto. Koch entra para a história como a primeira mulher a integrar um voo rumo à Lua. Hansen, da Agência Espacial Canadense, torna-se o primeiro não americano a cruzar o limite da órbita baixa terrestre nesse tipo de missão.

A escolha da tripulação funciona como declaração de intenções. A Nasa usa o perfil diverso do grupo para mostrar que a nova ida à Lua busca refletir a sociedade de hoje, não apenas repetir rostos e histórias de meio século atrás. A própria estrutura da missão reforça essa mudança. Em vez de pousar, a Artemis 2 executa uma órbita ampla ao redor do satélite, focada em ensaiar comunicação, navegação e suporte de vida para voos mais longos.

O SLS, que impulsiona tudo isso, traz outro elo direto com o passado. O foguete nasce do legado dos ônibus espaciais, usa motores reaproveitados e tanques gigantes adaptados. O desenho robusto e caro, alvo de críticas desde o início, contrasta com a promessa de foguetes reutilizáveis que empresas privadas como a SpaceX oferecem. A Nasa insiste que, para esse primeiro ciclo de missões lunares, a confiabilidade pesa mais que a economia.

Entre 1968 e 1972, os Estados Unidos realizam nove missões tripuladas à Lua, com seis pousos bem-sucedidos. A Apollo 17 encerra essa sequência e inaugura um hiato de mais de cinco décadas sem olhos humanos sobre o horizonte lunar. A Artemis 2 tenta reabrir essa janela e, ao mesmo tempo, provar que essa nova fase não será apenas um repeteco nostálgico.

Impacto científico, político e econômico

A volta dos voos tripulados ao redor da Lua mexe com ciência, diplomacia e negócios. A Nasa fala em “reavivar a ambição de explorar o espaço próximo à Lua” e em criar tecnologia vital para futuras bases lunares e viagens a Marte. O discurso encontra eco em orçamentos bilionários e em contratos que envolvem grandes empresas aeroespaciais, startups e universidades.

Na prática, a Artemis 2 funciona como ensaio geral para o pouso planejado em missões seguintes. O sucesso da viagem reforça a posição dos Estados Unidos como referência em exploração espacial tripulada e consolida a rede de parceiros reunidos nos Acordos Artemis, grupo que já passa de 30 países. Um voo bem-sucedido também aumenta a pressão sobre a China, que avança com seu próprio programa lunar, e sobre empresas privadas que prometem soluções mais baratas.

Do lado industrial, a missão mantém fábricas ativas, garante empregos especializados e impulsiona cadeias de fornecimento de alta tecnologia. Cada atraso, porém, encarece o programa e alimenta críticas no Congresso americano. A conta da Artemis, que inclui desenvolvimento do SLS, da Orion e de módulos de pouso, já soma dezenas de bilhões de dólares. O vazamento de combustível vira símbolo dessa tensão entre ambição e custo.

A comunidade científica acompanha o processo com menos ansiedade por imagens icônicas e mais interesse em infraestrutura. A prioridade agora é criar um sistema de transporte confiável entre a Terra e a órbita lunar, capaz de carregar instrumentos, robôs e, no futuro, equipamentos para bases permanentes. A Artemis 2 não leva experimentos de grande porte, mas testa tecnologias de comunicação, proteção contra radiação e monitoramento da saúde dos astronautas, passos essenciais para estadias mais longas.

O que vem depois da volta à vizinhança lunar

Se tudo correr como a Nasa planeja, a Artemis 2 decola entre março e abril de 2026, completa os cerca de dez dias de voo e abre caminho para um pouso lunar na missão seguinte. A rota prevê uma órbita distante ao redor da Lua, passagem próxima ao lado oculto e retorno direto à Terra, com amerissagem no oceano. Cada etapa produz dados que alimentam o desenho das próximas viagens.

Os próximos anos devem mostrar se esse retorno à Lua será sustentado ou se ficará preso a voos isolados, como ocorreu após a Apollo. A ambição declarada é diferente: criar condições para presença humana permanente no entorno lunar e, mais adiante, no solo. O vazamento de combustível que hoje atrasa o cronograma é mais que um problema técnico. É um lembrete de que a nova corrida espacial depende tanto de parafusos e válvulas quanto de decisões políticas e de fôlego financeiro para não parar no meio do caminho.

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